Questão de Português — Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática) — INSTITUTO AOCP 2025
- Código
- qa675439
- Banca
- INSTITUTO AOCP
- Órgão
- UFABC
- Ano
- 2025
- Cargo
- Ass Soc ( )
Literatura é essencial na compreensão da realidade e na projeção de novos futuros
Professores explicam papel da leitura na formação do pensamento crítico e como ferramenta de resistência na era do imediatismo
A literatura não é apenas arte: é uma forma de pensar o mundo e de intervir nele. Sempre engajada com seu tempo, ela se atualiza a cada leitura e se torna condição para a reflexão crítica e para a vida democrática. Assim, é comum que obras do passado retornem para iluminar dilemas do presente. Quem começa explicando a importância da literatura para a formação crítica do sujeito é o professor Mário Lugarinho, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.
Para o professor, não há obra que exista fora do diálogo com a realidade que a produziu. “Eu não imagino que não tenha havido literatura que não estivesse, de alguma maneira, engajada com a própria realidade de onde ela surge. Por mais fantasiosa que possa ser, ela surge num meio que demanda aquele texto. Todo texto literário é fruto desse diálogo com a realidade. Mesmo quando ele nega, está dizendo: existe, mas eu não quero tratar desse assunto.”
Ele reforça, também, que a literatura se reinventa cada vez que é retomada pelo leitor. “Há um momento em que o texto é recuperado, é lido novamente e, de alguma maneira, ao ser relido, ele se atualiza. A obra de arte tem esse poder de se atualizar quando é relida, quando o interesse por ela ressurge. E esse interesse aparece porque, de alguma forma, o leitor demanda respostas que talvez aquele texto possa trazer para o seu tempo.”
Essa atualização pode atravessar séculos. Lugarinho lembra que a literatura medieval, mesmo distante, foi recuperada em diferentes momentos, de acordo com o que demandava a conjuntura social e política. “De repente, reaparece o interesse pelo rei Arthur, pelas narrativas do romance de cavalaria do ciclo arturiano. Essas narrativas floresceram no fim do século 9 e, séculos depois, deram origem ao romance moderno. Algumas de suas características permaneceram, como a figura do herói. Mesmo em um romance como O Guarani, do José de Alencar, vemos Peri inspirado no cavaleiro medieval. É uma forma de atualizar o imaginário e, ao mesmo tempo, responder à demanda de um país em formação, que precisava construir um herói nacional.”
O professor Francisco Camêlo, também da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, aponta a leitura como maneira de resistência aos novos modos de consumo e processamento de informação da atualidade. “Nesses tempos acelerados em que vivemos, em que nós não podemos brincar, nem dormir como deveríamos, a literatura funciona como uma espécie de bolsão de resistência, que instala uma pausa, uma pequena pausa nessa aceleração. É nesse intervalo que conseguimos percorrer outras regiões da experiência humana, que as redes sociais ou outras formas de informação não nos permitem enxergar. Lendo literatura, a gente pode perder tempo. E perder tempo conhecendo outras experiências, outros modos de vida, outros discursos, que a ficção ajuda a reconhecer e a escutar.” Entre crítica e invenção, a literatura se afirma, portanto, como espaço de resistência, diversidade e futuro: uma pausa diante da velocidade da vida contemporânea, capaz de devolver ao leitor a capacidade de sonhar, questionar e reinventar o mundo.
Adaptado de: https://jornal.usp.br/radio-usp/literatura-e-essencial-na-compreensao-da-realidade-e-na-projecao-de-novos-futuros/. Acesso em: 06 de out. 2025.
- ANo seguinte trecho do primeiro parágrafo “Sempre engajada com seu tempo, ela se atualiza a cada leitura e se torna condição para a reflexão crítica e para a vida democrática.”, o termo destacado retoma “arte”.
- BNo excerto “A obra de arte tem esse poder de se atualizar quando é relida, quando o interesse por ela ressurge.”, os dois termos destacados deveriam ter sido grafados com hífen, pois ambos são formados pelo prefixo re-.
- CEm “Entre crítica e invenção, a literatura se afirma, portanto, como espaço de resistência, diversidade e futuro.”, os termos destacados são, respectivamente, preposição que denota posição intermediária e conjunção com valor conclusivo.
- DNo trecho “Lugarinho lembra que a literatura medieval, mesmo distante, foi recuperada em diferentes momentos.”, o termo “que” é pronome relativo.
- ENo excerto “Algumas de suas características permaneceram, como a figura do herói.”, a palavra destacada é acentuada, pois é uma proparoxítona que termina com o ditongo tônico aberto “ói”.