Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Figuras de Linguagem — Avança SP 2025

PortuguêsFiguras de Linguagem
Código
qa675473
Banca
Avança SP
Órgão
Pref Cunha
Ano
2025
Cargo
ASoc ( )

Um apólogo

 

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

 

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?

 

— Deixe-me, senhora.

 

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

 

— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

 

— Mas você é orgulhosa.

 

— Decerto que sou.

 

— Mas por quê?

 

— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

 

— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?

 

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...

 

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...

 

— Também os batedores vão adiante do imperador.

 

— Você é imperador?

 

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto... (...)

 

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E quando compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:

 

— Ora agora, diga-me quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá. (...)

 

ASSIS, Machado de. Um apólogo. Contos consagrados. Disponível em <https://www.biblio.com.br/conteudo/MachadodeAssis/umapologo.htm>.

Leia o texto a seguir para responder à questão abaixo.   No texto “Um apólogo”, a atribuição de características humanas a personagens originalmente inanimados corresponde à seguinte figura de linguagem:
  1. Ametonímia.
  2. Bprosopopeia.
  3. Cpleonasmo.
  4. Dhipérbole.
  5. Ecatacrese.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — prosopopeia.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Figuras de Linguagem: Prosopopeia

Gabarito: letra B. A atribuição de características humanas a seres inanimados — exatamente o que ocorre no texto, em que uma agulha e um novelo de linha dialogam, discutem e se vangloriam — é a figura chamada prosopopeia (ou personificação). A pista está no próprio enunciado: "atribuição de características humanas a personagens originalmente inanimados". No texto, a agulha "disse", o novelo "perguntou", ambos "mofam" e "discutem" — ações humanas em objetos.

O comando pede apenas o reconhecimento da figura de linguagem a partir da definição dada. Não há necessidade de inferir nada além do que está explícito: a definição do enunciado é o molde, e o texto é o exemplo. A questão é de conceito — você precisa saber o nome da figura que corresponde à definição apresentada.

No texto, a personificação é a base do gênero apólogo (narrativa em que objetos ou animais falam e agem como humanos para transmitir uma lição). Veja os trechos que comprovam:

"Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha"

"— Deixe-me, senhora."

"— Mas você é orgulhosa."

"— Decerto que sou."

A agulha e o novelo falam, discutem, têm opiniões e sentimentos — tudo isso é característica humana atribuída a objetos inanimados. É exatamente a definição de prosopopeia.

A técnica para resolver: identifique a figura pelo tipo de operação que ela realiza. A prosopopeia transfere características humanas para seres não humanos (objetos, animais, plantas, ideias). As demais figuras fazem outras operações: a metonímia substitui um termo por outro com relação de proximidade; a catacrese cristaliza uma metáfora pelo uso; o pleonasmo repete uma ideia; a hipérbole exagera. Aqui, a operação é clara: humanizar o inanimado.

Figuras de linguagem
  • 1Prosopopeia (gabarito)
    • atribui características humanas a inanimados
    • verbos de ação humana em seres não humanos
  • 2Metonímia
    • substitui termo por proximidade
      • autor/obra, parte/todo
  • 3Pleonasmo
    • repete ideia com palavras diferentes
  • 4Hipérbole
    • exagero intencional
  • 5Catacrese
    • metáfora cristalizada pelo uso
LEVEL · soulevel.com.br

Alternativa A — ❌ Incorreta

Metonímia é a substituição de um termo por outro com base em uma relação de proximidade lógica (autor pela obra, parte pelo todo, marca pelo produto). No texto, não há substituição de termos; há atribuição de características humanas a objetos. A metonímia não se aplica.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Prosopopeia (ou personificação) é a figura que atribui características humanas a seres inanimados, animais ou entes abstratos. No texto, a agulha e o novelo falam, discutem, têm opiniões e sentimentos — tudo isso é característica humana atribuída a objetos inanimados. É exatamente a definição de prosopopeia.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Pleonasmo é a repetição de uma ideia com palavras diferentes (ex.: "subir para cima"). No texto, não há repetição de ideias; há humanização de objetos. O pleonasmo é uma figura de construção/sintaxe, não de palavra.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Hipérbole é o exagero intencional (ex.: "morrer de rir"). No texto, não há exagero; há atribuição de características humanas a objetos. A hipérbole é uma figura de pensamento, não de palavra.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Catacrese é uma metáfora cristalizada pelo uso cotidiano (ex.: "braço da cadeira", "pé da mesa"). No texto, não há uso de expressões cristalizadas; há humanização de objetos. A catacrese é uma figura de palavra, mas não se aplica aqui.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece figuras que podem parecer próximas, mas cada uma tem uma operação distinta. A chave é identificar a operação que o texto realiza: aqui, humanizar o inanimado — isso é prosopopeia, não metonímia (substituição) nem catacrese (metáfora cristalizada).

PEGA ESSA DICA!

Para reconhecer prosopopeia, procure por verbos de ação humana (falar, pensar, sentir) aplicados a seres não humanos. Se o objeto "fala" ou "discute", é prosopopeia.

Gabarito: letra B.

Link permanente: /questoes/qa675473