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Questão de Português — Tipologia e Gênero Textual — Avança SP 2025

PortuguêsTipologia e Gênero Textual
Código
qa675514
Banca
Avança SP
Órgão
Pref Cunha
Ano
2025
Cargo
Farm ( )

Estado de graça

 

Quem já conheceu o estado de graça reconhecerá o que vou dizer. Não me refiro à inspiração, que é uma graça especial que tantas vezes acontece aos que lidam com arte.

 

O estado de graça de que falo não é usado para nada. É como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existe. Neste estado, além da tranquila felicidade que se irradia de pessoas e coisas, há uma lucidez que só chamo de leve, porque na graça tudo é tão, tão leve. É uma lucidez de quem não adivinha mais: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Não perguntem o quê, porque só posso responder do mesmo modo infantil: sem esforço, sabe-se.

 

E há uma bem-aventurança física que a nada se compara. O corpo se transforma num dom. E se sente que é um dom, porque se está experimentando, numa fonte direta, a dádiva indubitável de existir materialmente.

 

No estado de graça, vê-se às vezes a profunda beleza, antes inatingível, de outra pessoa. Tudo, aliás, ganha uma espécie de nimbo que não é imaginário: vem do esplendor da irradiação quase matemática das coisas e das pessoas. Passa-se a sentir que tudo o que existe – pessoa ou coisa – respira e exala uma espécie de finíssimo resplendor de energia. Na verdade, o mundo é impalpável.

 

Não é nem de longe o que mal imagino deva ser o estado de graça dos santos. Esse estado jamais conheci e nem sequer consigo adivinhá-lo. É apenas o estado de graça de uma pessoa comum que, de súbito, se torna totalmente real, porque é comum e humana e reconhecível.

 

As descobertas nesse estado são indizíveis e incomunicáveis. É por isso que, em estado de graça, mantenho-me sentada, quieta, silenciosa. É como numa anunciação. Não sendo, porém, precedida pelos anjos que, suponho, antecedem o estado de graça dos santos, é como se o anjo da vida viesse me anunciar o mundo.

 

Depois, lentamente, se sai. Não como se estivesse estado em transe – não há nenhum transe –, sai-se devagar, com um suspiro de quem teve o mundo como este é. Também já é um suspiro de saudade. Pois tendo experimentado ganhar um corpo e uma alma e a terra, quer-se mais e mais. Inútil querer: só vem quando quer e espontaneamente. (...)

 

LISPECTOR, Clarice. Estado de graça. Portal da crônica brasileira. Disponível em <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/12666/estado-de-graca-trecho>.

Leia o texto a seguir para responder à questão abaixo.   O texto “Estado de graça” é uma crônica que foi elaborada a partir de:
  1. Auma reflexão bastante técnica baseada em experiências físicas da autora, com algumas passagens em primeira pessoa.
  2. Buma reflexão bastante subjetiva baseada em vivências espirituais da autora, com algumas passagens em primeira pessoa.
  3. Cuma reflexão bastante subjetiva baseada em vivências espirituais da autora, relatada exclusivamente em terceira pessoa.
  4. Duma reflexão bastante técnica baseada em experiências físicas da autora, relatada exclusivamente em primeira pessoa.
  5. Eum depoimento pessoal da autora, através do qual ela confessa ter alcançado o estado de graça dos santos.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — uma reflexão bastante subjetiva baseada em vivências espirituais da autora, com algumas passagens em primeira pessoa.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Crônica: Subjetividade e Primeira Pessoa

Gabarito: letra B. O texto "Estado de graça" é uma crônica construída a partir de uma reflexão bastante subjetiva baseada em vivências espirituais da autora, com algumas passagens em primeira pessoa. A subjetividade é evidente na linguagem metafórica e nas impressões pessoais; as vivências espirituais são o tema central (o "estado de graça"); e a primeira pessoa aparece em passagens como "Quem já conheceu o estado de graça reconhecerá o que vou dizer" e "mantenho-me sentada, quieta, silenciosa". As demais alternativas ou trocam o eixo (técnica × subjetiva), ou erram a pessoa do discurso, ou extrapolam o texto.

O Comando

A questão pergunta de que o texto foi elaborado — ou seja, qual a matéria-prima da crônica: o que a autora usa como ponto de partida (reflexão técnica ou subjetiva? vivências físicas ou espirituais?) e em que pessoa do discurso ela se expressa. Isso é típico de questão de tipologia e gênero textual: a crônica é um gênero narrativo, mas o que a define aqui é o tom subjetivo e o foco narrativo em primeira pessoa.

O Texto

O texto de Clarice Lispector é uma crônica reflexiva e lírica. A autora não narra uma história com enredo e personagens; ela expõe suas impressões íntimas sobre um estado quase místico — o "estado de graça". Veja os indícios:

  • Subjetividade: a linguagem é carregada de metáforas e impressões pessoais: "É uma lucidez de quem não adivinha mais: sem esforço, sabe". A autora não apresenta dados objetivos, mas sensações e percepções.

  • Vivências espirituais: o texto fala de um estado que "não é usado para nada", que traz "tranquila felicidade" e "bem-aventurança física" — algo que transcende o meramente físico e se aproxima do espiritual, embora a autora faça questão de diferenciar do "estado de graça dos santos".

  • Primeira pessoa: a autora escreve na primeira pessoa do singular, como se vê em "Quem já conheceu o estado de graça reconhecerá o que vou dizer" e "mantenho-me sentada, quieta, silenciosa".

A Técnica

A crônica é um gênero textual que mistura narração e reflexão, muitas vezes com forte carga subjetiva. A banca quer que você identifique a intenção do autor (o conteúdo) e não apenas a forma. Aqui, a intenção é expressar uma experiência íntima, não informar ou convencer. Por isso, a alternativa correta é a que fala em "reflexão bastante subjetiva" e "vivências espirituais".

A pegadinha clássica é trocar subjetiva por técnica (alternativas A e D) ou espirituais por físicas (A e D). A alternativa E extrapola ao afirmar que a autora "confessa ter alcançado o estado de graça dos santos", o que o texto nega explicitamente.

1Reflexão
Subjetiva (linguagem metafórica)
Técnica
2Vivências
Espirituais (estado de graça)
Físicas
3Pessoa do discurso
Primeira pessoa ("vou dizer")
Terceira pessoa
4Extrapolação
Estado de graça dos santos (texto nega)
Crônica "Estado de graça"
LEVELsoulevel.com.br
Crônica "Estado de graça": Reflexão (Subjetiva (linguagem metafórica), Técnica); Vivências (Espirituais (estado de graça), Físicas); Pessoa do discurso (Primeira pessoa ("vou dizer"), Terceira pessoa); Extrapolação (Estado de graça dos santos (texto nega))

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito. A alternativa diz "reflexão bastante técnica baseada em experiências físicas". O texto é subjetivo, não técnico, e as vivências são espirituais, não apenas físicas. A autora fala de "bem-aventurança física", mas isso é parte de uma experiência mais ampla, que ela mesma chama de "estado de graça" — algo que transcende o físico. Além disso, a alternativa diz "com algumas passagens em primeira pessoa", o que é verdade, mas o erro está no eixo central.

Alternativa B — ✅ Correta

Gabarito. A alternativa captura os três elementos essenciais: subjetividade (a linguagem é pessoal e metafórica), vivências espirituais (o estado de graça é algo que "não é usado para nada", que traz "lucidez" e "bem-aventurança") e primeira pessoa (a autora escreve "vou dizer", "mantenho-me"). O texto é uma reflexão íntima, não uma análise técnica.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa diz "relatada exclusivamente em terceira pessoa", mas o texto é claramente em primeira pessoa. Basta ver "Quem já conheceu o estado de graça reconhecerá o que vou dizer" e "mantenho-me sentada". Além disso, a alternativa mantém o acerto de "subjetiva" e "espirituais", mas erra na pessoa do discurso.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito. A alternativa diz "reflexão bastante técnica baseada em experiências físicas". O texto é subjetivo, não técnico, e as vivências são espirituais, não apenas físicas. A alternativa também diz "relatada exclusivamente em primeira pessoa", o que é verdade, mas o erro está no eixo central.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. A alternativa diz que a autora "confessa ter alcançado o estado de graça dos santos". O texto nega isso explicitamente: "Não é nem de longe o que mal imagino deva ser o estado de graça dos santos. Esse estado jamais conheci e nem sequer consigo adivinhá-lo". A autora fala de um estado de graça "de uma pessoa comum", não dos santos.

NÃO CAIA NESSA!

A banca adora trocar subjetiva por técnica e espirituais por físicas. Fique atento a essas palavras-chave.

PEGA ESSA DICA!

Grife no texto as marcas de primeira pessoa (verbos e pronomes) e as palavras que indicam subjetividade ("lucidez", "bem-aventurança", "dom"). Isso resolve a questão.

Conclusão: a alternativa B é a única que une os três elementos corretos: subjetividade, vivências espirituais e primeira pessoa. As demais ou trocam o eixo, ou erram a pessoa, ou extrapolam o texto.

Gabarito: letra B.

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