Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc) — Avança SP 2025

PortuguêsCoerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
Código
qa675515
Banca
Avança SP
Órgão
Pref Cunha
Ano
2025
Cargo
Farm ( )

Estado de graça

 

Quem já conheceu o estado de graça reconhecerá o que vou dizer. Não me refiro à inspiração, que é uma graça especial que tantas vezes acontece aos que lidam com arte.

 

O estado de graça de que falo não é usado para nada. É como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existe. Neste estado, além da tranquila felicidade que se irradia de pessoas e coisas, há uma lucidez que só chamo de leve, porque na graça tudo é tão, tão leve. É uma lucidez de quem não adivinha mais: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Não perguntem o quê, porque só posso responder do mesmo modo infantil: sem esforço, sabe-se.

 

E há uma bem-aventurança física que a nada se compara. O corpo se transforma num dom. E se sente que é um dom, porque se está experimentando, numa fonte direta, a dádiva indubitável de existir materialmente.

 

No estado de graça, vê-se às vezes a profunda beleza, antes inatingível, de outra pessoa. Tudo, aliás, ganha uma espécie de nimbo que não é imaginário: vem do esplendor da irradiação quase matemática das coisas e das pessoas. Passa-se a sentir que tudo o que existe – pessoa ou coisa – respira e exala uma espécie de finíssimo resplendor de energia. Na verdade, o mundo é impalpável.

 

Não é nem de longe o que mal imagino deva ser o estado de graça dos santos. Esse estado jamais conheci e nem sequer consigo adivinhá-lo. É apenas o estado de graça de uma pessoa comum que, de súbito, se torna totalmente real, porque é comum e humana e reconhecível.

 

As descobertas nesse estado são indizíveis e incomunicáveis. É por isso que, em estado de graça, mantenho-me sentada, quieta, silenciosa. É como numa anunciação. Não sendo, porém, precedida pelos anjos que, suponho, antecedem o estado de graça dos santos, é como se o anjo da vida viesse me anunciar o mundo.

 

Depois, lentamente, se sai. Não como se estivesse estado em transe – não há nenhum transe –, sai-se devagar, com um suspiro de quem teve o mundo como este é. Também já é um suspiro de saudade. Pois tendo experimentado ganhar um corpo e uma alma e a terra, quer-se mais e mais. Inútil querer: só vem quando quer e espontaneamente. (...)

 

LISPECTOR, Clarice. Estado de graça. Portal da crônica brasileira. Disponível em <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/12666/estado-de-graca-trecho>.

Leia o texto a seguir para responder à questão abaixo.

 

“Pois tendo experimentado ganhar um corpo e uma alma e a terra, quer-se mais e mais.”

 

Assinale a alternativa que apresenta corretamente a figura de linguagem presente no trecho destacado acima e o efeito de sentido produzido por ela.

  1. APleonasmo – a repetição da conjunção “e” produz uma repetição desnecessária no período.
  2. BAnacoluto – ocorre uma inversão brusca de elementos dentro do enunciado.
  3. CPolissíndeto – a repetição da conjunção “e” realça o sentido de cada elemento da enumeração.
  4. DAliteração – ocorre uma repetição exagerada de um mesmo som no trecho.
  5. EProsopopeia – existe a personificação de elementos não humanos entre os elementos dessa sequência.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Polissíndeto – a repetição da conjunção “e” realça o sentido de cada elemento da enumeração.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Polissíndeto: A Repetição da Conjunção "E"

Gabarito: letra C. O trecho "Pois tendo experimentado ganhar um corpo e uma alma e a terra, quer-se mais e mais" apresenta polissíndeto, figura de linguagem caracterizada pela repetição intencional de uma conjunção (no caso, o "e") para realçar cada elemento da enumeração, dando-lhes ênfase e ritmo. A repetição não é um defeito, mas um recurso estilístico que valoriza a sequência "um corpo", "uma alma" e "a terra", como se cada conquista merecesse destaque próprio.

O Comando e a Técnica

A questão pede duas coisas: identificar a figura de linguagem e explicar o efeito de sentido que ela produz. Isso exige conhecimento de figuras de sintaxe (polissíndeto, pleonasmo, anacoluto) e de figuras de som (aliteração), além de figuras de pensamento (prosopopeia). A chave é observar o mecanismo linguístico presente no trecho: a repetição da conjunção aditiva "e" entre os termos da enumeração. Essa repetição é a marca registrada do polissíndeto.

O Texto e a Figura

No trecho, a autora enumera o que se ganha ao experimentar o estado de graça: "um corpo e uma alma e a terra". Em vez de escrever "um corpo, uma alma e a terra" (com vírgulas e um único "e" antes do último item), ela repete o "e" antes de cada elemento. Essa escolha não é acidental: a repetição deliberada cria um efeito de acúmulo e ênfase, fazendo com que cada elemento da lista seja percebido com mais peso e importância. O polissíndeto, portanto, realça o sentido de cada item da enumeração, como afirma a alternativa C.

A Pegadinha da Banca

A banca explora a confusão entre polissíndeto e pleonasmo. O pleonasmo é a repetição de uma ideia (ex.: "subir para cima"), enquanto o polissíndeto é a repetição de um conectivo. No trecho, não há repetição de ideia, mas sim de uma conjunção, o que descaracteriza o pleonasmo. Além disso, a banca tenta atrair o candidato com figuras que não se aplicam ao trecho, como a aliteração (repetição de sons consonantais) e a prosopopeia (atribuição de características humanas a seres inanimados).

Figuras de linguagem
  • 1Figuras de sintaxe
    • Polissíndeto
      • Repetição de conjunção
      • Realça cada elemento
    • Pleonasmo
      • Repetição de ideia
    • Anacoluto
      • Quebra sintática
  • 2Figuras de som
    • Aliteração
      • Repetição de sons consonantais
  • 3Figuras de pensamento
    • Prosopopeia
      • Personificação
LEVEL · soulevel.com.br

Alternativa A — ❌ Incorreta

Pleonasmo – a repetição da conjunção "e" produz uma repetição desnecessária no período.

O pleonasmo é a repetição de uma ideia ou de um termo para dar ênfase (ex.: "vi com meus próprios olhos"). No trecho, não há repetição de ideia; há repetição da conjunção "e", que é um conectivo. Além disso, a repetição não é "desnecessária": ela é um recurso estilístico intencional que produz ênfase. A alternativa confunde o mecanismo (repetição de conectivo) com outro (repetição de ideia) e ainda emite um juízo de valor ("desnecessária") que o texto não sustenta.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Anacoluto – ocorre uma inversão brusca de elementos dentro do enunciado.

O anacoluto é uma quebra sintática em que um termo fica "solto" na frase, sem função sintática definida (ex.: "Eu, não sei o que fazer"). No trecho, a estrutura é sintaticamente correta: "tendo experimentado ganhar um corpo e uma alma e a terra" é uma oração reduzida de gerúndio, e "quer-se mais e mais" é a oração principal. Não há inversão brusca nem termo solto. A alternativa atribui ao trecho uma característica que ele não possui.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Polissíndeto – a repetição da conjunção "e" realça o sentido de cada elemento da enumeração.

O polissíndeto é a repetição intencional de uma conjunção (geralmente "e") para dar ênfase e ritmo à enumeração. No trecho, a repetição de "e" em "um corpo e uma alma e a terra" faz com que cada elemento seja destacado individualmente, como se cada um fosse uma conquista importante. O efeito é de acúmulo e valorização, exatamente o que a alternativa descreve. A repetição não é um erro, mas um recurso expressivo.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Aliteração – ocorre uma repetição exagerada de um mesmo som no trecho.

A aliteração é a repetição de sons consonantais (ex.: "o rato roeu a roupa"). No trecho, não há uma repetição significativa de sons consonantais; o que se repete é a palavra "e", que é uma conjunção, não um som. A alternativa confunde repetição de palavra com repetição de som.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Prosopopeia – existe a personificação de elementos não humanos entre os elementos dessa sequência.

A prosopopeia (ou personificação) atribui características humanas a seres inanimados ou abstratos (ex.: "o vento sussurrava"). No trecho, "corpo", "alma" e "terra" são elementos concretos e abstratos que não recebem características humanas. A alternativa foge ao tema, pois a figura não está presente no trecho.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre polissíndeto (repetição de conectivo) e pleonasmo (repetição de ideia). A repetição do "e" é um recurso estilístico, não um defeito.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar figuras de linguagem, pergunte-se: o que exatamente se repete? Se for uma conjunção, é polissíndeto; se for uma ideia, é pleonasmo; se for um som, é aliteração.

Gabarito: letra C.

Link permanente: /questoes/qa675515