Questão de Português — Partícula "Se" — Avança SP 2025
Português›Partícula "Se"
Código
qa675516
Banca
Avança SP
Órgão
Pref Cunha
Ano
2025
Cargo
Farm ( )
Estado de graça
Quem já conheceu o estado de graça reconhecerá o que vou dizer. Não me refiro à inspiração, que é uma graça especial que tantas vezes acontece aos que lidam com arte.
O estado de graça de que falo não é usado para nada. É como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existe. Neste estado, além da tranquila felicidade que se irradia de pessoas e coisas, há uma lucidez que só chamo de leve, porque na graça tudo é tão, tão leve. É uma lucidez de quem não adivinha mais: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Não perguntem o quê, porque só posso responder do mesmo modo infantil: sem esforço, sabe-se.
E há uma bem-aventurança física que a nada se compara. O corpo se transforma num dom. E se sente que é um dom, porque se está experimentando, numa fonte direta, a dádiva indubitável de existir materialmente.
No estado de graça, vê-se às vezes a profunda beleza, antes inatingível, de outra pessoa. Tudo, aliás, ganha uma espécie de nimbo que não é imaginário: vem do esplendor da irradiação quase matemática das coisas e das pessoas. Passa-se a sentir que tudo o que existe – pessoa ou coisa – respira e exala uma espécie de finíssimo resplendor de energia. Na verdade, o mundo é impalpável.
Não é nem de longe o que mal imagino deva ser o estado de graça dos santos. Esse estado jamais conheci e nem sequer consigo adivinhá-lo. É apenas o estado de graça de uma pessoa comum que, de súbito, se torna totalmente real, porque é comum e humana e reconhecível.
As descobertas nesse estado são indizíveis e incomunicáveis. É por isso que, em estado de graça, mantenho-me sentada, quieta, silenciosa. É como numa anunciação. Não sendo, porém, precedida pelos anjos que, suponho, antecedem o estado de graça dos santos, é como se o anjo da vida viesse me anunciar o mundo.
Depois, lentamente, se sai. Não como se estivesse estado em transe – não há nenhum transe –, sai-se devagar, com um suspiro de quem teve o mundo como este é. Também já é um suspiro de saudade. Pois tendo experimentado ganhar um corpo e uma alma e a terra, quer-se mais e mais. Inútil querer: só vem quando quer e espontaneamente. (...)
LISPECTOR, Clarice. Estado de graça. Portal da crônica brasileira. Disponível em <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/12666/estado-de-graca-trecho>.
Leia o texto a seguir para responder à questão abaixo.
“É como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existe.”
Assinale a alternativa que apresenta, na mesma ordem, a função de cada palavra destacada no trecho acima.
AConjunção que introduz o sentido de condição ou hipótese / Pronome que torna a oração seguinte na voz passiva
BPalavra que realça o sentido da oração seguinte / Pronome que torna a oração seguinte na voz passiva
CConjunção que introduz o sentido de condição ou hipótese / Palavra que realça o sentido da oração seguinte
DPronome que torna reflexiva a ação da oração / Palavra que torna o sujeito da oração indeterminado
EPalavra que torna o sujeito da oração indeterminado / Pronome que torna reflexiva a ação da oração
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoA — Conjunção que introduz o sentido de condição ou hipótese / Pronome que torna a oração seguinte na voz passiva
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Funções da Partícula "SE" no Trecho de Clarice Lispector
Gabarito: letra A. No trecho "É como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existe", o primeiro "se" é conjunção subordinativa condicional (introduz hipótese, equivalendo a "caso"), e o segundo "se" é pronome apassivador (partícula apassivadora), pois transforma "soubesse" em voz passiva sintética. A alternativa A é a única que descreve corretamente, na ordem, essas duas funções.
O Comando da Questão
A questão pede que você identifique a função de cada palavra destacada no trecho, "na mesma ordem". Isso significa que você deve analisar o primeiro "se" e o segundo "se" separadamente, e a alternativa correta precisa descrever ambos corretamente, na sequência em que aparecem. É uma questão de análise morfossintática — você precisa saber classificar a palavra quanto à classe gramatical e à função que exerce na oração.
O Texto e o Trecho Analisado
O texto de Clarice Lispector fala sobre o "estado de graça" — um estado de lucidez e felicidade que não serve para nada, apenas para que a pessoa saiba que existe. O trecho destacado é:
"É como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existe."
Aqui, temos dois "se" com funções distintas. O primeiro aparece na oração "como se viesse" — ele introduz uma hipótese, uma condição (o estado de graça vem como se fosse apenas para isso). O segundo aparece em "para que se soubesse" — ele é um pronome apassivador, pois transforma o verbo "saber" em voz passiva sintética: "para que se soubesse" = "para que fosse sabido".
A Técnica para Resolver
Para diferenciar as funções do "se", use estes testes:
Conjunção condicional: substitua por "caso". Se a frase continuar fazendo sentido, é condicional. Ex.: "Se chover, não saio" → "Caso chova, não saio". No trecho: "É como se viesse" → "É como caso viesse" — mantém o sentido de hipótese.
Pronome apassivador (PA): o verbo é transitivo direto (VTD) ou transitivo direto e indireto (VTDI), e o "se" pode ser retirado convertendo a frase para voz passiva analítica. Ex.: "Vendem-se casas" → "Casas são vendidas". No trecho: "para que se soubesse" → "para que fosse sabido" — o "se" apassiva o verbo "saber".
Índice de indeterminação do sujeito (IIS): o verbo é intransitivo (VI), transitivo indireto (VTI) ou de ligação (VL), e o "se" não pode ser retirado sem alterar o sentido. Ex.: "Precisa-se de funcionários" — "de funcionários" é objeto indireto, não sujeito.
Partícula expletiva (de realce): pode ser retirada sem alterar o sentido. Ex.: "E lá se foram os anos" → "E lá foram os anos".
Pronome reflexivo: a ação recai sobre o próprio sujeito. Ex.: "Ele se feriu" → "Ele feriu a si mesmo".
Análise das Alternativas
Partícula "se": Conjunção condicional (Substitui por "caso", Ex.: "se viesse" → "caso viesse"); Pronome apassivador (PA) (Verbo VTD/VTDI, Converte em voz passiva, Ex.: "se soubesse" → "fosse sabido"); Índice de indeterminação (IIS) (Verbo VI/VTI/VL, Não pode ser retirado); Partícula expletiva (Pode ser retirada, Ex.: "lá se foram"); Pronome reflexivo (Ação recai no sujeito, Ex.: "ele se feriu")
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa A afirma que o primeiro "se" é "conjunção que introduz o sentido de condição ou hipótese" e o segundo é "pronome que torna a oração seguinte na voz passiva". Isso está perfeitamente correto.
Primeiro "se": "É como se viesse" — conjunção subordinativa condicional, introduz uma hipótese. Pode ser substituído por "caso": "É como caso viesse".
Segundo "se": "para que se soubesse" — pronome apassivador. A oração equivale a "para que fosse sabido". O verbo "saber" é VTD, e o "se" o converte em voz passiva sintética.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B afirma que o primeiro "se" é "palavra que realça o sentido da oração seguinte" (partícula expletiva) e o segundo é "pronome que torna a oração seguinte na voz passiva". O erro está no primeiro "se": ele não é partícula expletiva, pois não pode ser retirado sem alterar o sentido. "É como viesse" não mantém o sentido de hipótese. A banca tenta confundir quem não percebe que o "se" condicional é essencial para a ideia de condição.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C afirma que o primeiro "se" é "conjunção que introduz o sentido de condição ou hipótese" (correto) e o segundo é "palavra que realça o sentido da oração seguinte" (errado). O erro está no segundo "se": ele não é partícula expletiva, pois não pode ser retirado sem alterar o sentido. "para que soubesse" não equivale a "para que fosse sabido" — a voz passiva se perde. A banca inverte as funções para confundir.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D afirma que o primeiro "se" é "pronome que torna reflexiva a ação da oração" e o segundo é "palavra que torna o sujeito da oração indeterminado". Ambos os erros: o primeiro "se" não é reflexivo (não há ação que recai sobre o sujeito), e o segundo não é índice de indeterminação do sujeito (o verbo "saber" é VTD, não VTI/VI/VL). A banca mistura funções de pronome para confundir.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E afirma que o primeiro "se" é "palavra que torna o sujeito da oração indeterminado" e o segundo é "pronome que torna reflexiva a ação da oração". Ambos os erros: o primeiro "se" não é IIS (é conjunção), e o segundo não é reflexivo (é apassivador). A banca inverte completamente as funções.
Conclusão
A questão testa sua capacidade de distinguir as funções da partícula "se" em contexto. A alternativa A é a única que descreve corretamente, na ordem, as duas funções: conjunção condicional e pronome apassivador. As demais alternativas erram ao classificar o "se" como partícula expletiva, pronome reflexivo ou índice de indeterminação do sujeito — funções que não se aplicam ao trecho.
PEGA ESSA DICA!
Ao analisar o "se", sempre teste: (1) pode substituir por "caso"? → condicional. (2) pode converter para voz passiva analítica ("foi sabido")? → apassivador. (3) pode retirar sem mudar o sentido? → expletiva. (4) o verbo é VTI/VI/VL? → IIS. (5) a ação recai sobre o sujeito? → reflexivo. Esse roteiro resolve 90% das questões sobre o "se".