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Questão de Português — Conjunção — FUNDATEC 2025

PortuguêsConjunção
Código
qa676090
Banca
FUNDATEC
Órgão
Pref Soledade (RS)
Ano
2025
Cargo
Moto ( )

Capricho do propósito

 

Por Fabrício Carpinejar

 

— Ninguém está olhando. Foi assim que minha mãe me ensinou a escrever em casa, aos 6 anos, depois que recebi um diagnóstico de retardo mental. A escola já tinha jogado a toalha para a minha alfabetização.

 

Éramos ela e eu, formávamos uma ilha nessa tarefa. Ela tirou licença do trabalho para me atender nos dois turnos. Acreditava tranquilamente no meu talento, eu percebia pelos seus olhos doces e amendoados sobre as folhas.

 

— Não tenha pressa, ninguém está olhando, siga seu instinto — ela me orientava.

 

A mãe aliviou os meus ombros da pressão, da competição da turma, do medo de não corresponder às expectativas.

 

Ela contava com a certeza do meu potencial, antevia que o processo apenas aconteceria com um ritmo e estímulos diferentes do padrão.

 

Eu errava na sala de aula não porque não compreendia, mas porque me desesperava com as respostas dos outros – rápidas e automáticas. A facilidade dos colegas se transformava na minha dificuldade.

 

Durante dois meses, a figura materna criou jogos educativos para me dar prazer na hora de decifrar as sílabas. A alegria da descoberta não deveria ser imposta ou invasiva. Não poderia ser abolida pela obrigação de saber.

 

Se eu rastejava, de repente, passei a voar. Fui do inferno ao céu sem escalas. Nem engatinhei, nem andei, tamanha a absorção do processo pedagógico. Engolia alturas de parágrafo em parágrafo.

 

Em vez de soletrar ou gaguejar, comecei a ler de um golpe, num único fôlego. A mãe se espantou com o meu clique. É como se ela tivesse apertado algum botão dentro de mim, ajudando-me a emergir devoto da língua portuguesa.

 

Para quem estava fadado ao analfabetismo por limitações cerebrais, ter se tornado escritor é, mais do que uma ironia do destino, o capricho do propósito, a prova maior de nossa capacidade de superação.

 

Não nascemos nos amando. É alguém que nos serve de espelho. É alguém que nos inspira a nos amar. Para nascer o amor-próprio, basta que uma só pessoa confie em nós.

 

Por mais que eu me ame, nunca chegarei aos pés do amor que minha mãe sente por mim.

 

(Disponível em: gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/carpinejar/noticia/2025/11/capricho-do-proposito-cmhov3ks50233013bh5tkssrm.html – texto adaptado especialmente para esta prova).

Leia o texto abaixo.

 

Assinale a alternativa que apresenta a classificação correta do sentido da conjunção sublinhada “se” no trecho a seguir:

 

Se eu rastejava, de repente, passei a voar”.


  1. ACausa.
  2. BComparação.
  3. CConsequência.
  4. DCondição.
  5. EConcessão.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — Condição.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Conjunção "se": condição ou concessão?

Gabarito: letra D. No trecho "Se eu rastejava, de repente, passei a voar", a conjunção "se" estabelece relação de condição: a ação de "rastejar" é apresentada como uma hipótese/condição para que ocorra "passar a voar". A pista decisiva está no contexto imediato do texto, em que o autor descreve sua superação: "Se eu rastejava, de repente, passei a voar. Fui do inferno ao céu sem escalas." — a leitura global mostra que "rastejar" (dificuldade) é a condição superada, e "voar" (fluência) é o resultado.

"Se eu rastejava, de repente, passei a voar. Fui do inferno ao céu sem escalas."

A conjunção "se" aqui introduz uma oração subordinada adverbial condicional, pois expressa uma circunstância hipotética da qual depende a realização do fato expresso na oração principal. Não se trata de concessão, pois não há ideia de "fato que se admite, mas que não impede a realização de outro" — pelo contrário, o "rastejar" é justamente o ponto de partida para o "voar".

O comando da questão

A questão pede a classificação do sentido da conjunção "se" no trecho destacado. Isso é uma tarefa de gramática aplicada ao texto: não basta saber que "se" pode ser condicional ou concessiva; é preciso analisar o contexto para decidir qual valor semântico prevalece. A banca testa exatamente a habilidade de distinguir os dois usos mais comuns da conjunção "se" subordinativa adverbial.

A técnica: condição × concessão

A distinção central é:

Critério

Condicional

Concessiva

Ideia

Hipótese, condição necessária

Fato admitido, mas que não impede

Equivalência

"caso", "desde que"

"embora", "ainda que"

Verbo

Subjuntivo (hipótese)

Subjuntivo (fato hipotético)

Relação com a principal

A principal depende da condicional

A principal se realiza apesar da concessiva

No trecho, "Se eu rastejava" — o verbo está no pretérito imperfeito do indicativo, o que é uma particularidade: em usos condicionais, o "se" frequentemente vem com subjuntivo ("se eu rastejasse"), mas o imperfeito do indicativo também pode expressar condição, especialmente em construções que indicam uma situação passada habitual ou hipotética. A leitura contextual é decisiva: o autor está narrando sua evolução — "rastejava" (tinha dificuldade) e "passei a voar" (superei). A relação é de condição superada: se (quando) eu rastejava, então passei a voar. A oração condicional estabelece a circunstância em que o fato principal ocorre.

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

Causa. A conjunção "se" não expressa causa aqui. Causa seria "porque", "pois", "já que" — e a relação seria de motivo para o fato principal. No trecho, "rastejar" não é a causa de "voar"; é a condição/contexto em que a transformação ocorre. O texto não diz "porque eu rastejava, passei a voar" (o que seria ilógico), mas "se eu rastejava, passei a voar" (condição).

Alternativa B — ❌ Incorreta

Comparação. Não há comparação entre "rastejar" e "voar" como termos de uma relação comparativa (como em "tão... quanto", "mais... que"). O texto usa "rastejar" e "voar" como metáforas de dificuldade e fluência, mas a conjunção "se" não estabelece comparação gramatical entre as orações.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Consequência. Consequência seria expressa por "tão... que", "de modo que", "tal... que". No trecho, "passei a voar" é o resultado, mas a conjunção "se" não introduz a consequência — ela introduz a condição. A consequência estaria em "de repente, passei a voar" (sem conjunção consecutiva explícita), mas a classificação pedida é da conjunção "se".

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Condição. A conjunção "se" introduz uma oração subordinada adverbial condicional: "Se eu rastejava" é a condição/contexto em que "passei a voar" ocorre. O sentido é de hipótese: "caso eu rastejasse, então passava a voar". O contexto do texto — a narrativa de superação da dificuldade de alfabetização — confirma: "rastejar" (ter dificuldade) era a condição que, superada, levou a "voar" (ler fluentemente).

Alternativa E — ❌ Incorreta

Concessão. A concessão expressaria "embora eu rastejasse, passei a voar" — ou seja, um fato que não impede a realização do outro. Mas o texto não diz que "rastejar" era um obstáculo que não impediu "voar"; diz que "rastejar" era o estado inicial que condicionou a transformação. A relação é de condição, não de concessão. A pegadinha aqui é clássica: "se" pode ser concessiva em alguns contextos ("se bem que"), mas não neste.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre condicional e concessiva, os dois valores mais comuns do "se" subordinativo. A chave é testar a equivalência: se couber "embora", é concessão; se couber "caso", é condição. No trecho, "caso eu rastejasse, passei a voar" faz sentido; "embora eu rastejasse, passei a voar" não — logo, condição.

PEGA ESSA DICA!

Ao classificar conjunção, sempre substitua por outra de mesmo valor e veja se o sentido se mantém. Para condicional, use "caso"; para concessiva, use "embora". A que preservar o sentido original é a classificação correta.

Conclusão: a conjunção "se" em "Se eu rastejava, de repente, passei a voar" é condicional, pois introduz a hipótese/condição para a realização do fato principal. As demais alternativas (causa, comparação, consequência, concessão) não se sustentam no contexto. Gabarito: letra D.

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