Comece por quebrar os espelhos de sua casa, deixe cair os braços, olhe vagamente a parede, esqueça. Cante uma nota só, escute por dentro. Se ouvir (mas isto acontecerá muito depois) algo como uma paisagem afundada no medo, com fogueiras entre as pedras, com silhuetas seminuas de cócoras, acho que estará bem encaminhado, e do mesmo modo se ouvir um rio por onde descem barcos pintados de amarelo e preto, se ouvir um gosto de pão, um tato de dedos, uma sombra de cavalo.
Depois compre cadernos de solfejo e uma casaca, e por favor não cante pelo nariz e deixe Schumann em paz.
CORTÁZAR, Júlio. Instruções para cantar. In: Histórias de
Cronópios e de famas. São Paulo: Editora Civilização Brasileira, 1994, p. 16‑17 (com adaptações).
Texto para o item.
Com base na leitura do texto, julgue o item a seguir.
A conjunção “mas”, em “Se ouvir (mas isto acontecerá muito depois)”, possui valor aditivo, como em “estudou não só português, mas também matemática”.
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GabaritoE — Errado
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Valor semântico da conjunção "mas" no contexto
Gabarito: E (Errado). A assertiva está incorreta porque atribui à conjunção "mas", no trecho "Se ouvir (mas isto acontecerá muito depois)", um valor aditivo, quando, no contexto, ela tem valor adversativo, introduzindo uma ressalva — uma quebra de expectativa em relação ao que foi dito antes. A comparação com "estudou não só português, mas também matemática" é inadequada, pois ali o "mas" integra a locução correlativa "não só... mas também", que realmente expressa adição; no texto de Cortázar, não há essa estrutura.
O comando da questão
O enunciado pede que se julgue (certo/errado) uma afirmação sobre o valor da conjunção "mas" em um trecho específico. Isso exige análise semântica contextual: não basta saber que "mas" é, em geral, adversativa; é preciso verificar como ela funciona naquele trecho. A banca mistura duas coisas: o valor prototípico de "mas" (adversativo) e um uso específico em que "mas" pode ter valor aditivo (como em "não só... mas também"). A armadilha está em generalizar esse uso específico para qualquer ocorrência.
O texto e o trecho em questão
O texto "Instruções para cantar", de Cortázar, é um texto injuntivo (instruções), com tom poético. No trecho:
"Se ouvir (mas isto acontecerá muito depois) algo como uma paisagem afundada no medo..."
O "mas" está entre parênteses, funcionando como uma intercalação que faz uma ressalva: o autor alerta que aquilo que ele descreve (ouvir a paisagem, o rio, etc.) não acontecerá imediatamente, mas sim "muito depois". Há uma oposição entre a expectativa de ouvir algo (agora) e a realidade de que isso só ocorrerá mais tarde. Portanto, o valor é adversativo (oposição, ressalva), não aditivo.
A técnica: como identificar o valor de "mas"
Verifique a relação entre as ideias: se a segunda ideia contraria ou restringe a primeira, é adversativa; se apenas acrescenta informação, é aditiva.
Teste a substituição: se puder trocar por "porém", "contudo", "todavia" sem alterar o sentido, é adversativa; se puder trocar por "e também", "além disso", é aditiva.
Cuidado com estruturas correlatas: "não só... mas também", "não apenas... mas ainda" são locuções aditivas; o "mas" sozinho, sem esse par, raramente é aditivo.
No trecho, a substituição por "porém" funciona perfeitamente: "Se ouvir (porém isto acontecerá muito depois)" — mantém o sentido de ressalva. Já a substituição por "e também" não faz sentido: "Se ouvir (e também isto acontecerá muito depois)" — não há acréscimo, há oposição.
Conjunção "mas"
1Valor adversativo (prototípico)
Oposição / ressalva
Substituível por "porém", "contudo"
Ex.: "Se ouvir (mas isto acontecerá muito depois)"
2Valor aditivo (uso específico)
Locução correlativa "não só... mas também"
Soma informações
Ex.: "estudou não só português, mas também matemática"
3Técnica de identificação
Trocar por "porém" → adversativa
Trocar por "e também" → aditiva
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Análise da assertiva
A assertiva afirma que o "mas" tem valor aditivo, como em "estudou não só português, mas também matemática". Nesse exemplo, o "mas" faz parte da correlação aditiva "não só... mas também", que soma duas informações (estudou português + estudou matemática). No texto, não há essa correlação; o "mas" é isolado e introduz uma ressalva. Portanto, a comparação é inválida.
Conclusão
A assertiva está errada porque o "mas" no trecho tem valor adversativo (ressalva), e não aditivo. A banca tentou confundir com um uso específico de "mas" em locução aditiva, mas o contexto não autoriza essa leitura.
NÃO CAIA NESSA!
Ao analisar o valor de uma conjunção, sempre teste a substituição por sinônimos do mesmo tipo. Se "porém" funciona, é adversativa; se "e também" funciona, é aditiva. Isso evita cair na pegadinha de generalizar usos específicos.