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Questão de Português — Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática) — FUNDATEC 2025

PortuguêsOutras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)
Código
qa677547
Banca
FUNDATEC
Órgão
Pref Imbé
Ano
2025
Cargo
AAd ( )

Afinar o tempo

 

Por Helô Bacichette

 

Há quem diga que a arte tem prazo. Que depois de certa idade as mãos tremem demais para escrever versos, ou que a voz já não alcança os agudos de antigamente. Mas talvez o que o tempo faça não seja enfraquecer e, sim, afinar.

 

Eu tenho pensado nisso cada vez mais. Talvez porque a escrita e a música me ensinem a ouvir o tempo de outro jeito. Há artistas que só se revelam quando a pressa se despede. Há escritores que começam tarde, e músicos que, depois de tantos palcos, descobrem sons que antes não cabiam entre os compassos. O tempo não rouba talento; ele muda o tom.

 

Cora Coralina publicou seu primeiro livro aos 70 e poucos. Elza Soares reinventou sua voz até o último sopro. E quantas outras criadoras seguem compondo ___ vida, mesmo quando o mundo insiste em chamá-las de superadas? A verdade é que o tempo, quando bem vivido, compõe junto. O etarismo tem o dom de se mascarar de elogio. “Você está ótima.” “Nem aparenta sua idade.” São frases que soam gentis, mas carregam a surpresa de quem acha que criar, sonhar ou existir depois dos sessenta é exceção. Só que quem cria começa de novo a cada gesto; cada palavra, cada acorde é começo outra vez.

 

Na literatura, na música e na maior parte das artes, a juventude é sempre celebrada, como se só ela tivesse o direito de inventar. Mas o que seria da arte sem o amadurecimento? O poema que antes gritava agora escuta. A canção que antes dançava agora embala. A vida, afinal, é uma partitura que se reescreve.

 

Dias atrás assisti ao show da banda Lobo da Estepe. No palco, músicos de 70 e tantos tocavam com a energia de garotos e o rock rolou solto. Eu os vi e pensei: a arte é o que ainda vibra quando o corpo precisa parar. Talvez por isso, as guitarras não envelhecem; elas lembram. E, de algum modo, lembrando, também fazem a gente rejuvenescer um pouco.

 

O segredo, quem sabe, seja continuar desafinando levemente, esquecendo palavras, mas com o coração aberto ___ melodias que ainda virão. Porque a arte não envelhece. Ela só muda de ritmo.

 

E eu sigo aprendendo ___ ouvir o tempo, esse velho maestro que me lembra, a cada compasso, que a criação não tem idade: tem respiro, tem memória, tem coragem. É a nossa maneira mais bonita de continuar, mesmo quando o mundo parece não nos escutar.

 

(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/helo-bacichette/noticia/2025/11/afinar-o-tempo cmhzf36mi02af0160unbo632m.html – texto adaptado especialmente para esta prova).

Leia o Texto para responder a questão abaixo.

 

Considerando o emprego do acento indicativo de crase, assinale a alternativa que preenche, correta e respectivamente, as lacunas tracejadas dos trechos a seguir, retirados do texto.

 
  •  “E quantas outras criadoras seguem compondo ___ vida”.
  •  “[...] continuar desafinando levemente, esquecendo palavras, mas com o coração aberto ___ melodias que ainda virão”.
  •  “E eu sigo aprendendo ___ ouvir o tempo”.


  1. Aa – às – a
  2. Ba – às – à
  3. Ca – as – à
  4. Dà – as – a
  5. Eà – às – a
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — a – às – a

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Crase: preenchendo as lacunas do texto

Gabarito: letra A. A sequência correta é a – às – a: na primeira lacuna, "compondo a vida" (verbo compor é transitivo direto, sem preposição, e "vida" é palavra feminina que admite artigo, mas sem preposição não há crase); na segunda, "aberto às melodias" (fusão da preposição a, exigida por "aberto a", com o artigo as de "as melodias"); na terceira, "aprendendo a ouvir" (não há crase antes de verbo no infinitivo). A banca testa exatamente a distinção entre o a preposição, o a artigo e a fusão dos dois.

O comando

A questão pede que você preencha as lacunas com o acento indicativo de crase — ou seja, é uma questão de gramática aplicada ao texto, não de interpretação. O verbo do enunciado é "assinale a alternativa que preenche, correta e respectivamente". Isso significa que você deve analisar cada lacuna isoladamente, decidindo se há ou não crase, e depois conferir a sequência. A técnica é sempre a mesma: troque a palavra feminina por uma masculina. Se na troca aparecer ao (preposição + artigo), há crase; se aparecer apenas o (artigo) ou apenas a (preposição), não há.

O texto e a regra

O texto fala sobre o tempo e a arte, mas a questão não depende do sentido — depende da regência dos verbos e nomes que aparecem antes das lacunas. Vejamos cada trecho:

  1. "seguem compondo ___ vida" — o verbo compor é transitivo direto: compõe-se algo, não a algo. Logo, não há preposição. A palavra "vida" é feminina e admite artigo, mas sem preposição não há fusão, portanto sem crase: "compondo a vida".

  1. "coração aberto ___ melodias" — o adjetivo aberto exige a preposição a (quem está aberto, está aberto a algo). O termo seguinte é "melodias", palavra feminina plural que admite o artigo as. Há, então, a fusão: preposição a + artigo as = às. É o caso clássico de crase por regência nominal.

  1. "aprendendo ___ ouvir" — antes de verbo no infinitivo, não há crase. A preposição a pode aparecer (quem aprende, aprende a fazer algo), mas não há artigo antes de verbo, logo não há fusão: "aprendendo a ouvir".

A técnica que decide

A troca pelo masculino é o teste mais seguro:

  • "compondo a vida" → "compondo o dia" (só artigo, sem preposição) → sem crase.

  • "aberto às melodias" → "aberto aos sons" (preposição + artigo) → com crase.

  • "aprendendo a ouvir" → não há como trocar por masculino porque "ouvir" é verbo; antes de verbo, nunca há crase.

Outra dica: desconfie de "a" antes de verbo no infinitivo — é quase sempre preposição pura, sem crase. E lembre-se: crase é a fusão de duas vogais iguais (preposição a + artigo a ou as), então só ocorre quando há dois "a" se encontrando.

Crase
  • 1Quando ocorre
    • Fusão: preposição "a" + artigo "a(s)"
    • Teste: trocar por palavra masculina
      • Aparece "ao" → há crase
      • Aparece só "o" ou só "a" → não há
  • 2Casos da questão
    • "compondo a vida"
      • Verbo transitivo direto
      • Sem preposição → sem crase
    • "aberto às melodias"
      • Regência nominal ("aberto a")
      • Preposição + artigo → com crase
    • "aprendendo a ouvir"
      • Antes de verbo → nunca há crase
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A sequência a – às – a é a única que respeita as três análises: sem crase em "compondo a vida" (verbo transitivo direto), com crase em "aberto às melodias" (regência nominal + artigo), e sem crase em "aprendendo a ouvir" (antes de verbo).

Alternativa B — ❌ Incorreta

a – às – à: erra na terceira lacuna ao colocar crase antes de verbo no infinitivo ("aprendendo à ouvir"). Não há artigo antes de verbo, portanto não há fusão. A banca tenta seduzir quem acha que "aprender a" sempre pede crase.

Alternativa C — ❌ Incorreta

a – as – à: erra na segunda lacuna ("aberto as melodias") ao omitir a preposição exigida por "aberto", e erra na terceira ao pôr crase antes de verbo. A ausência da preposição quebra a regência nominal.

Alternativa D — ❌ Incorreta

à – as – a: erra na primeira lacuna ("compondo à vida") ao supor crase onde o verbo é transitivo direto, e erra na segunda ao omitir a preposição. A crase indevida na primeira é o erro clássico de quem confunde "compor a" com "compor à".

Alternativa E — ❌ Incorreta

à – às – a: erra apenas na primeira lacuna ("compondo à vida"). O verbo compor não exige preposição, então não há fusão. A banca aposta em quem marca a sequência que parece mais "craseada".

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre verbos que exigem preposição (como "aberto a") e verbos transitivos diretos (como "compor"), além da regra de não haver crase antes de verbo. O candidato desatento marca a opção com mais crases, sem testar a regência.

PEGA ESSA DICA!

Antes de responder, sublinhe o verbo ou nome que antecede a lacuna e pergunte: "quem compõe, compõe algo ou a algo?" — a resposta decide a crase. E lembre: nunca há crase antes de verbo no infinitivo.

Gabarito: letra A — a única sequência que respeita a regência de cada termo e a regra de crase antes de verbo.

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