Questão de Português — Travessão — Quadrix 2023
- Código
- qg025287
- Banca
- Quadrix
- Órgão
- CRB 9ª Região
- Ano
- 2023
- Nível
- Superior
- Cargo
- Agente de Orientação e Fiscalização

- CCerto
- EErrado

GabaritoE — Errado
Gabarito: E (Errado). O trecho entre travessões “— sobretudo modernos —” não é discurso indireto livre; ele é um termo intercalado (adjunto adverbial de inclusão) que o autor usa para restringir o alcance de “escritores de reconhecido mérito”. O discurso indireto livre é um recurso de narrativa de ficção para fundir a fala/pensamento de uma personagem à voz do narrador, sem verbos de elocução nem marcas de pontuação — algo totalmente ausente neste texto dissertativo. A banca arma a pegadinha ao associar o travessão a “discurso”, mas o travessão aqui tem função sintática (isolar um termo acessório), não discursiva.
A questão pede um julgamento Certo/Errado sobre um aspecto formal do texto: a função do trecho isolado por travessões. Não se trata de interpretar o conteúdo, mas de reconhecer a natureza do elemento — se é discurso indireto livre ou não. Para isso, é preciso dominar o conceito de discurso indireto livre e saber diferenciá-lo de outros usos do travessão.
O texto é uma dissertação expositiva sobre o parágrafo como unidade de composição. No trecho em questão, o autor afirma que o conceito de parágrafo padrão se aplica a um tipo frequente “na obra de escritores — sobretudo modernos — de reconhecido mérito”. O trecho entre travessões é um comentário do próprio autor, uma intercalação que especifica quais escritores ele tem em mente: os modernos. Não há personagem, não há narrador de ficção, não há fala ou pensamento reproduzido — há apenas a voz do autor dissertando.
O discurso indireto livre é um recurso típico da narrativa literária. Suas características essenciais são:
As falas ou pensamentos da personagem (em 1ª pessoa) surgem dentro do discurso do narrador (em 3ª pessoa), sem qualquer marca de separação.
Não é introduzido por verbos de elocução (dizer, perguntar), nem por sinais de pontuação (travessão, aspas, dois-pontos) ou conjunções.
O narrador é onisciente e “fala em uníssono” com a personagem.
Exemplo clássico: “Maria olhou o relógio. Meu Deus, vou me atrasar de novo! Ela correu para o ponto.” — a frase em negrito é o pensamento de Maria, sem aspas nem travessão, misturado à narração.
No trecho do texto, o travessão isola um termo intercalado — função sintática, não discursiva. O travessão, quando usado em par, serve para destacar um aposto, um adjunto adverbial ou uma oração intercalada, podendo ser substituído por vírgulas ou parênteses. Veja:
“na obra de escritores — sobretudo modernos — de reconhecido mérito”
Se retirarmos o trecho intercalado, a frase continua íntegra: “na obra de escritores de reconhecido mérito”. Isso prova que se trata de um termo acessório, e não de um discurso. O discurso indireto livre, ao contrário, não pode ser retirado sem prejuízo do sentido, pois é parte do fluxo narrativo.
A afirmativa está errada. O trecho “— sobretudo modernos —” não exemplifica discurso indireto livre. Ele é um adjunto adverbial de inclusão (“sobretudo” = principalmente) intercalado por travessões, com função de restringir o substantivo “escritores”. O discurso indireto livre, por definição, não admite marcas de pontuação como travessões, pois se caracteriza pela ausência de qualquer sinal que separe a fala da personagem da voz do narrador. Além disso, o texto é dissertativo, não narrativo — não há personagens nem narrador de ficção, logo não há discurso indireto livre possível.
A banca explora a associação automática entre “travessão” e “discurso” (já que o travessão marca diálogos no discurso direto). Mas aqui o travessão tem função sintática (isolar termo intercalado), não discursiva. Desconfie sempre: discurso indireto livre não usa travessão.
Para identificar discurso indireto livre, procure: (1) texto narrativo; (2) presença de personagem; (3) ausência de verbos de elocução e de pontuação de fala; (4) mistura de 1ª e 3ª pessoa. Se faltar qualquer um desses, não é indireto livre.
Conclusão: a assertiva está errada porque confunde a função do travessão (isolar termo acessório) com um recurso discursivo típico da narrativa. O trecho é um simples adjunto adverbial intercalado, e não há qualquer traço de discurso indireto livre no texto.
Gabarito: E (Errado).
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