Questão de Medicina — Cardiologia e Alterações Vasculares — Quadrix 2023
Medicina›Cardiologia e Alterações Vasculares
Código
qg031130
Banca
Quadrix
Órgão
FSNH - RS
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Cardio Pediátrico
As respostas cardíaca e vascular aos agonistas adrenérgicos são mediadas por receptores. De forma simplificada, o coração contém principalmente receptores Beta‑1; os pulmões contêm receptores Beta‑2; e os vasos sanguíneos contêm tanto receptores Beta‑2 quanto alfa‑adrenérgicos. Acerca das principais medicações de uso na terapêutica cardiovascular e os seus mecanismos de ação, assinale e alternativa correta.
AA norepinefrina tem efeitos agonistas beta‑1 e alfa‑adrenérgicos. Causa redução da resistência vascular sistêmica, do fluxo sanguíneo renal e da demanda miocárdica de oxigênio. Pode ser útil em pacientes com colapso cardiovascular associado à vasoconstrição periférica.
BA dobutamina é uma mistura racêmica com ações complexas envolvendo receptores alfa e beta‑adrenérgicos. Em crianças, promove aumento na contratilidade e no débito cardíaco, além de efeitos importantes na resistência vascular pulmonar.
CA epinefrina é produzida pela medula adrenal e tem efeitos extremamente potentes nos receptores alfa e beta‑adrenérgicos. Em doses altas, produz aumento da frequência cardíaca, da contratilidade e da pressão arterial sistólica devido à estimulação de receptores beta‑1‑adrenérgicos.
DO principal efeito tóxico da epinefrina com risco à vida é a indução de arritmias atriais. Além disso, aumenta as necessidades de oxigênio do miocárdio por causa de seus efeitos inotrópico e lusitrópico.
EA dobutamina é frequentemente utilizada nas situações em que o principal objetivo da terapia é melhorar a contratilidade ventricular.
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GabaritoE — A dobutamina é frequentemente utilizada nas situações em que o principal objetivo da terapia é melhorar a contratilidade ventricular.
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Farmacologia cardiovascular: agonistas adrenérgicos e inotrópicos
Gabarito: letra E. A dobutamina é um agonista beta-1-adrenérgico com efeito inotrópico positivo predominante, sendo a medicação inotrópica mais utilizada quando o objetivo é melhorar a contratilidade ventricular, especialmente no choque cardiogênico. As demais alternativas contêm erros conceituais sobre os efeitos hemodinâmicos e a toxicidade dessas catecolaminas.
A questão aborda os receptores adrenérgicos e os principais fármacos inotrópicos e vasopressores usados na terapêutica cardiovascular. Para resolvê-la, é essencial dominar a farmacologia das catecolaminas: norepinefrina (noradrenalina), epinefrina (adrenalina) e dobutamina. Cada uma tem um perfil de ação distinto sobre os receptores alfa e beta, o que determina seus efeitos clínicos e suas indicações.
A norepinefrina é o neurotransmissor do sistema nervoso simpático pós-ganglionar e também é liberada pela medula adrenal. Seus efeitos são mediados predominantemente por receptores alfa-1 e alfa-2 adrenérgicos vasculares e beta-1 adrenérgicos cardíacos. Ela produz vasoconstrição potente (aumento da resistência vascular sistêmica) e é um fraco agente inotrópico. Em doses baixas (< 30 ng/kg/min), estimula principalmente beta-1; em doses mais altas, predomina a ação alfa-adrenérgica. Seu uso está indicado no choque séptico e em outras causas de vasodilatação periférica, mas não no colapso cardiovascular associado à vasoconstrição periférica — justamente o oposto do que afirma a alternativa A.
A epinefrina é produzida pela medula adrenal e tem efeitos potentes em receptores alfa e beta. Em doses baixas, predomina o efeito beta (vasodilatação, aumento da frequência e contratilidade); em doses altas, o efeito alfa se sobrepõe, causando vasoconstrição. Seu principal risco à vida é a indução de arritmias ventriculares (não atriais), e ela aumenta o consumo de oxigênio do miocárdio por seus efeitos inotrópico e cronotrópico (não lusitrópico).
A dobutamina é uma mistura racêmica com ações complexas: o isômero (+) é agonista beta-1 e beta-2, enquanto o isômero (−) é agonista alfa-1. O efeito líquido é inotrópico positivo com leve vasodilatação. É o inotrópico de primeira linha no choque cardiogênico, conforme reafirmado pela American Heart Association. Em crianças, também é usada para melhorar a contratilidade, mas seu efeito na resistência vascular pulmonar é variável e não é um efeito "importante" como afirma a alternativa B.
A distinção crucial entre essas drogas está no perfil de receptores e na consequência hemodinâmica:
Fármaco
Receptores
Efeito hemodinâmico principal
Indicação clássica
Norepinefrina
alfa-1, alfa-2, beta-1
Vasoconstrição potente, aumento da RVS
Choque séptico (vasodilatação)
Epinefrina
alfa e beta
Dose-dependente: beta em baixas doses, alfa em altas
Anafilaxia, PCR
Dobutamina
beta-1 > beta-2, alfa-1
Inotrópico positivo, leve vasodilatação
Choque cardiogênico, IC com baixo débito
A pegadinha da banca está em inverter os efeitos hemodinâmicos (como na A, que diz que a norepinefrina reduz a RVS) e em atribuir à epinefrina toxicidade atrial e efeito lusitrópico (na D). A alternativa E é a única que descreve corretamente a principal indicação da dobutamina.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A norepinefrina tem efeitos agonistas beta-1 e alfa-adrenérgicos, o que está correto. No entanto, ela aumenta a resistência vascular sistêmica (RVS) por vasoconstrição alfa-1, e não a reduz. Além disso, o aumento da pós-carga pode aumentar a demanda miocárdica de oxigênio, não reduzi-la. A indicação de norepinefrina é em estados de vasodilatação (choque séptico), não em colapso associado à vasoconstrição periférica — nesse caso, o vasoconstritor pioraria a perfusão.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A dobutamina é de fato uma mistura racêmica com ações em receptores alfa e beta. Em crianças, promove aumento da contratilidade e do débito cardíaco, o que está correto. O erro está em afirmar que tem "efeitos importantes na resistência vascular pulmonar". Na verdade, a dobutamina tem efeito variável e geralmente discreto na RVP; o fármaco com efeito mais relevante na redução da RVP é a milrinona (inodilatador), que é preferida em situações de hipertensão pulmonar ou disfunção de ventrículo direito.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A epinefrina é produzida pela medula adrenal e tem efeitos potentes em alfa e beta, o que está correto. Em doses altas, o efeito predominante é alfa-adrenérgico (vasoconstrição), e não beta-1. O aumento da frequência cardíaca e da contratilidade em doses altas é mediado por beta-1, mas a elevação da pressão arterial sistólica nesse contexto se deve principalmente à vasoconstrição alfa-1. A alternativa mistura os efeitos de doses baixas e altas.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O principal efeito tóxico da epinefrina com risco à vida é a indução de arritmias ventriculares (como fibrilação ventricular), não atriais. Além disso, a epinefrina aumenta as necessidades de oxigênio do miocárdio por seus efeitos inotrópico e cronotrópico (aumento da frequência cardíaca), não lusitrópico (relaxamento). O efeito lusitrópico, na verdade, tende a reduzir o consumo de oxigênio ao melhorar o relaxamento diastólico.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A dobutamina é o inotrópico de primeira linha quando o objetivo é melhorar a contratilidade ventricular, especialmente no choque cardiogênico. Seu efeito beta-1-adrenérgico aumenta a contratilidade e o débito cardíaco, com menor efeito cronotrópico e arritmogênico que outras catecolaminas. A American Heart Association reafirma a dobutamina como inotrópico inicial de escolha no choque cardiogênico.
PEGA ESSA DICA!
Para diferenciar as catecolaminas, memorize o perfil de receptores: norepinefrina = alfa (vasoconstrição); epinefrina = alfa e beta (dose-dependente); dobutamina = beta-1 (inotrópico). Nas questões, desconfie de alternativas que invertem efeitos hemodinâmicos (como "reduz RVS" para norepinefrina) ou atribuem toxicidade atrial à epinefrina.