Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — Quadrix 2023
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
qg031136
Banca
Quadrix
Órgão
FSNH - RS
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Cardio Pediátrico
Embora em muitos casos o exame físico cardiovascular da criança não seja suficiente para diagnosticar uma cardiopatia, ele é de extrema importância para o correto raciocínio clínico e o estabelecimento de diagnósticos diferenciais. A respeito das alterações do exame físico cardiovascular na criança, assinale a alternativa correta.
AO aumento da pressão de pulso pode estar associado a anormalidades como o baixo débito cardíaco e a estenose aórtica.
BPara a medição adequada da pressão arterial, a braçadeira do manguito deve envolver pelo menos 80% da circunferência e pelo menos 40% do comprimento do braço da criança.
CNa ausculta cardíaca, a 2ª bulha normalmente se desdobra com a inspiração e torna‑se única ou quase única com a expiração. Nos casos em que é persistentemente desdobrada, deve‑se suspeitar da presença de persistência do canal arterial.
DPor convenção, os sopros sistólicos devem ser descritos de acordo com sua intensidade em graus 1/6 a 6/6. O sopro de grau 5/6 pode ser escutado sem o uso de estetoscópio.
EA turgência jugular pode ser observada em crianças com aumento da pressão do ventrículo esquerdo por etiologias variadas.
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GabaritoB — Para a medição adequada da pressão arterial, a braçadeira do manguito deve envolver pelo menos 80% da circunferência e pelo menos 40% do comprimento do braço da criança.
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Exame físico cardiovascular na criança: semiologia e achados
Gabarito: letra B. A alternativa correta trata da técnica de aferição da pressão arterial (PA) na criança, estabelecendo que a braçadeira do manguito deve envolver pelo menos 80% da circunferência e pelo menos 40% do comprimento do braço. Essa é uma recomendação consagrada nas diretrizes de hipertensão arterial, tanto para adultos quanto para crianças, e é o único enunciado tecnicamente correto entre as opções apresentadas.
O exame físico cardiovascular na criança é uma etapa fundamental da avaliação clínica, pois permite ao pediatra formular hipóteses diagnósticas e direcionar a investigação complementar. Embora muitos sopros sejam inocentes e o exame possa ser normal mesmo em cardiopatias significativas, a semiologia cardiovascular bem executada — incluindo palpação de pulsos, medida da pressão arterial, inspeção da turgência jugular e ausculta cardíaca — é capaz de levantar suspeitas importantes e evitar atrasos diagnósticos.
A pressão de pulso é a diferença entre a pressão arterial sistólica e a diastólica. Seu aumento está classicamente associado a condições que cursam com alto débito cardíaco (como anemia, febre, tireotoxicose, fístula arteriovenosa) ou com insuficiência aórtica, em que há regurgitação de sangue para o ventrículo esquerdo na diástole, reduzindo a pressão diastólica e alargando a pressão de pulso. O baixo débito cardíaco e a estenose aórtica, ao contrário, tendem a cursar com pressão de pulso estreita (reduzida), pois a estenose aórtica dificulta a ejeção ventricular, gerando uma onda de pulso de baixa amplitude e sustentada (pulso parvus et tardus).
A ausculta cardíaca é um pilar da semiologia. A segunda bulha (B2) é composta pelos componentes aórtico (A2) e pulmonar (P2). Durante a inspiração, o retorno venoso ao coração direito aumenta, prolongando a sístole ventricular direita e atrasando o fechamento da valva pulmonar, o que causa o desdobramento fisiológico da B2. Na expiração, os dois componentes se aproximam e a bulha torna-se única ou quase única. Quando o desdobramento é persistente (não varia com a respiração), as causas mais comuns são o bloqueio de ramo direito (que atrasa o fechamento da valva pulmonar) e a comunicação interatrial (que aumenta o fluxo pulmonar e também retarda o P2). A persistência do canal arterial (PCA) é uma cardiopatia que cursa com sopro contínuo em maquinaria, e não com desdobramento fixo da B2.
A graduação dos sopros cardíacos segue a escala de Levine, que vai de 1/6 a 6/6. O sopro de grau 1/6 é muito fraco, audível apenas com atenção especial; o de grau 2/6 é fraco, mas prontamente audível; o de grau 3/6 é moderadamente intenso; o de grau 4/6 é intenso, frequentemente acompanhado de frêmito; o de grau 5/6 é muito intenso, audível com o estetoscópio apenas encostado no tórax (sem pressionar), e pode ser ouvido com a borda do diafragma; o de grau 6/6 é tão intenso que é audível com o estetoscópio afastado do tórax. Portanto, o sopro de grau 5/6 NÃO pode ser escutado sem o uso de estetoscópio — essa é uma característica do grau 6/6.
A turgência jugular é um sinal de aumento da pressão venosa central, que reflete disfunção do coração direito (insuficiência cardíaca direita, pericardite constritiva, tamponamento cardíaco, estenose tricúspide). Não é um sinal de aumento da pressão do ventrículo esquerdo isoladamente. Em crianças, a avaliação da turgência jugular pode ser difícil devido ao pescoço curto, mas quando presente, indica congestão venosa sistêmica, não congestão pulmonar.
A medida correta da pressão arterial é essencial para o diagnóstico de hipertensão na infância. A braçadeira deve ter largura adequada ao tamanho do braço: a câmara inflável deve envolver pelo menos 80% da circunferência do braço e ter comprimento suficiente para cobrir pelo menos 40% do comprimento do braço. Uma braçadeira pequena superestima a PA, enquanto uma braçadeira grande subestima. Essa recomendação é universalmente aceita e consta das diretrizes de hipertensão arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia e da Academia Americana de Pediatria.
Agora, vamos analisar cada alternativa em detalhe, identificando o erro específico de cada uma.
Alternativa
Afirmação
Análise
A
Aumento da pressão de pulso associado a baixo débito cardíaco e estenose aórtica.
❌ Incorreta — pressão de pulso alargada ocorre em alto débito (anemia, febre) e insuficiência aórtica; baixo débito e estenose aórtica cursam com pressão de pulso estreita.
B
Braçadeira deve envolver ≥80% da circunferência e ≥40% do comprimento do braço.
✅ Correta — recomendação das diretrizes de hipertensão arterial.
C
Desdobramento persistente da 2ª bulba sugere persistência do canal arterial.
❌ Incorreta — desdobramento fixo sugere CIA ou bloqueio de ramo direito; PCA cursa com sopro contínuo em maquinaria.
D
Sopro de grau 5/6 pode ser escutado sem estetoscópio.
❌ Incorreta — audível sem estetoscópio é o grau 6/6; o 5/6 requer o estetoscópio encostado no tórax.
E
Turgência jugular indica aumento da pressão do ventrículo esquerdo.
❌ Incorreta — reflete congestão venosa sistêmica (disfunção do coração direito), não do ventrículo esquerdo.
Exame físico cardiovascular: Pressão de pulso (Alargada: alto débito, insuficiência aórtica, Estreita: baixo débito, estenose aórtica); Ausculta (B2) (Desdobramento fisiológico: inspiração, Desdobramento fixo: CIA, BRE); Sopros (escala de Levine) (5/6: audível com estetoscópio, 6/6: audível sem estetoscópio); Turgência jugular (Congestão direita (VD)); Medida da PA (Braçadeira: 80% circunferência, Braçadeira: 40% comprimento)
Alternativa A — ❌ Incorreta
O aumento da pressão de pulso está associado a condições de alto débito cardíaco e à insuficiência aórtica, não ao baixo débito cardíaco nem à estenose aórtica. No baixo débito, a pressão de pulso tende a estar estreita (reduzida), pois tanto a sistólica quanto a diastólica caem, mas a diastólica proporcionalmente menos. Na estenose aórtica, o pulso é parvus et tardus, com pressão de pulso estreita. A alternativa inverte o raciocínio fisiopatológico.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa descreve corretamente a técnica de aferição da PA: a braçadeira deve envolver pelo menos 80% da circunferência do braço e pelo menos 40% do comprimento do braço. Essa é a recomendação das diretrizes de hipertensão arterial, garantindo que a câmara inflável cubra adequadamente a artéria braquial, sem subestimar ou superestimar os valores.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O desdobramento fisiológico da B2 ocorre na inspiração e desaparece na expiração. Quando o desdobramento é persistente (fixo), as causas mais comuns são bloqueio de ramo direito e comunicação interatrial, não a persistência do canal arterial. A PCA cursa com sopro contínuo em maquinaria, audível na sístole e na diástole, e não com desdobramento fixo da B2.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O sopro de grau 5/6 é muito intenso, mas ainda requer o estetoscópio para ser auscultado (com o diafragma apenas encostado no tórax). O sopro que pode ser ouvido sem estetoscópio é o de grau 6/6. A alternativa confunde os graus 5/6 e 6/6 da escala de Levine.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A turgência jugular reflete aumento da pressão venosa central, ou seja, disfunção do coração direito (insuficiência cardíaca direita, pericardite constritiva, tamponamento). Não é um sinal de aumento da pressão do ventrículo esquerdo. A alternativa troca o lado do coração: o aumento da pressão do ventrículo esquerdo manifesta-se com congestão pulmonar (dispneia, crepitações), não com turgência jugular.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre os graus da escala de Levine (alternativa D) e entre os sinais de congestão direita e esquerda (alternativa E). No sopro, o candidato pode lembrar que o grau 5/6 é "muito intenso" e associar erroneamente à ausculta sem estetoscópio, mas essa é a característica do grau 6/6. Na turgência jugular, a armadilha é trocar o ventrículo direito pelo esquerdo — a jugular reflete a pressão venosa central, não a pressão de enchimento do VE. Fique atento a essas inversões clássicas.
NÃO CAIA NESSA!
Para a prova, memorize os pontos-chave da semiologia cardiovascular pediátrica: (1) pressão de pulso alargada = alto débito ou insuficiência aórtica; (2) desdobramento fixo da B2 = CIA ou BRE; (3) sopro 6/6 = audível sem estetoscópio; (4) turgência jugular = congestão direita; (5) braçadeira = 80% da circunferência e 40% do comprimento do braço. Esses são os conceitos mais cobrados e os que a banca costuma inverter.