Questão de Medicina — Cardiologia e Alterações Vasculares — Quadrix 2023
Medicina›Cardiologia e Alterações Vasculares
Código
qg031199
Banca
Quadrix
Órgão
FSNH - RS
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Cirurgia Vascular
A respeito das indicações e dos resultados das técnicas endovascular e aberta para a correção do aneurisma de aorta infrarrenal, assinale a alternativa correta.
AA indicação de correção é mais liberal para a técnica endovascular, tendo em vista que, à medida que o aneurisma cresce, há a perda da extensão de colo. Sendo assim, com o intuito de ancorar a prótese em segmento infrarrenal, há benefício na indicação de AAA < 5.5 cm.
BEm relação à mortalidade, o principal benefício da técnica endovascular ocorre até os seis primeiros meses após a cirurgia.
CUma das principais limitações ao método endovascular diz respeito aos acessos, já que não há disponibilidade de dispositivos dedicados a diâmetros de ilíaca externa ≤ 7 mm.
DAmbas as técnicas são seguras, de modo que a sobrevida livre de reintervenção é semelhante entre os métodos.
EComparativamente, em longo prazo, a técnica endovascular é superior à cirurgia aberta no que diz respeito à degeneração de aorta suprarrenal e à incidência de pseudoaneurismas justarrenais.
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GabaritoB — Em relação à mortalidade, o principal benefício da técnica endovascular ocorre até os seis primeiros meses após a cirurgia.
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Aneurisma de Aorta Infrarrenal: Técnica Endovascular vs. Aberta
Gabarito: letra B. O principal benefício da técnica endovascular (EVAR) em relação à cirurgia aberta é a redução da mortalidade perioperatória e nos primeiros meses, vantagem que se dissipa no seguimento de longo prazo. Estudos como o DREAM e o EVAR-1 demonstram que a mortalidade precoce é menor no grupo endovascular, mas essa diferença desaparece após aproximadamente dois anos, com a sobrevida tardia se tornando semelhante entre as técnicas. A alternativa B captura corretamente esse benefício inicial, limitado aos primeiros seis meses.
O aneurisma de aorta abdominal (AAA) infrarrenal é uma dilatação focal da aorta abaixo da origem das artérias renais, com diâmetro superior a 3 cm. O risco de ruptura aumenta exponencialmente quando o diâmetro ultrapassa 5,5 cm, sendo este o limiar clássico para indicação de correção eletiva, conforme diretrizes do SVS (Society for Vascular Surgery) e do ESC (European Society of Cardiology). A decisão entre a técnica aberta (cirurgia convencional com laparotomia e interposição de enxerto) e a endovascular (EVAR, com exclusão do aneurisma por prótese stent-graft introduzida pelos acessos femorais) envolve uma análise individualizada de risco cirúrgico, anatomia e expectativa de vida.
A EVAR oferece vantagens claras no curto prazo: menor tempo de internação, menor sangramento, menor morbidade e mortalidade perioperatória. No entanto, essa vantagem inicial se perde ao longo do tempo. O acompanhamento de longo prazo revela que a cirurgia aberta tem resultados mais duráveis, com menor necessidade de reintervenção e menor incidência de complicações tardias, como endoleaks, migração da prótese e rotura tardia. A cirurgia aberta, por sua vez, apresenta maior morbidade inicial, mas resultados estáveis e duradouros após a recuperação.
A anatomia do colo proximal (segmento da aorta entre as artérias renais e o início do aneurisma) é um fator crítico para a viabilidade da EVAR. Um colo curto, angulado ou com trombo mural aumenta o risco de endoleak tipo I e compromete a ancoragem da prótese. A alternativa A sugere que a indicação seria mais liberal na EVAR, com benefício em aneurismas menores que 5,5 cm, o que contraria a evidência atual. O limiar de 5,5 cm é o mesmo para ambas as técnicas, e não há benefício comprovado em operar aneurismas menores, independentemente da abordagem.
A alternativa C menciona uma limitação dos acessos vasculares, mas a afirmação de que não há dispositivos para artérias ilíacas externas ≤ 7 mm é incorreta. Existem próteses de perfil baixo (low-profile) projetadas especificamente para acessos de menor calibre, e a utilização de condutos ou acessos alternativos (como a artéria ilíaca comum ou a aorta) amplia as possibilidades. A alternativa D afirma que a sobrevida livre de reintervenção é semelhante, o que é falso: a EVAR apresenta maior taxa de reintervenção em longo prazo. A alternativa E inverte a realidade ao afirmar que a EVAR é superior em longo prazo quanto à degeneração da aorta suprarrenal e pseudoaneurismas justarrenais, complicações que são mais associadas à cirurgia aberta, mas que não tornam a EVAR superior no longo prazo, dado o maior risco de outras complicações.
A pegadinha central desta questão é a inversão temporal dos benefícios: a banca explora a confusão entre o benefício inicial da EVAR (menor mortalidade precoce) e a durabilidade superior da cirurgia aberta (menor taxa de reintervenção e complicações tardias). O candidato que memoriza apenas a vantagem inicial da EVAR pode ser levado a marcar a alternativa E, que afirma superioridade em longo prazo, quando na verdade a relação se inverte.
Critério
Técnica Endovascular (EVAR)
Técnica Aberta
Mortalidade perioperatória e nos primeiros 6 meses
Menor (principal benefício)
Maior
Mortalidade em longo prazo (após ~2 anos)
Semelhante à cirurgia aberta
Semelhante à EVAR
Taxa de reintervenção em longo prazo
Maior (endoleaks, migração, etc.)
Menor (resultados mais duráveis)
Durabilidade / complicações tardias
Menor durabilidade (risco de rotura tardia)
Maior durabilidade (menos complicações tardias)
Morbidade inicial (internação, sangramento)
Menor
Maior
Correção do AAA infrarrenal: Técnica endovascular (EVAR) (Menor mortalidade precoce (até 6 meses), Mais reintervenções em longo prazo, Endoleaks, migração, rotura tardia); Cirurgia aberta (Maior morbidade inicial, Menor taxa de reintervenção tardia, Resultados duráveis); Indicação (ambas) (Limiar de 5,5 cm, Análise individualizada)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A afirmação de que a indicação é mais liberal para a técnica endovascular, com benefício na correção de AAA < 5,5 cm, é incorreta. O limiar de 5,5 cm para correção eletiva é o mesmo para ambas as técnicas, baseado no risco de ruptura que aumenta exponencialmente a partir desse diâmetro. A perda de extensão do colo proximal com o crescimento do aneurisma é uma preocupação real, mas isso não justifica operar aneurismas menores, pois o risco de ruptura em aneurismas < 5,5 cm é baixo (cerca de 1% ao ano para aneurismas entre 3,5 e 4,9 cm) e não supera o risco da intervenção. A indicação cirúrgica, seja aberta ou endovascular, segue os mesmos critérios de diâmetro e sintomas.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa está correta ao afirmar que o principal benefício da técnica endovascular em relação à mortalidade ocorre nos primeiros seis meses após a cirurgia. Estudos randomizados como o DREAM e o EVAR-1 demonstraram que a mortalidade perioperatória e aos 30 dias é significativamente menor na EVAR (cerca de 1-2%) em comparação com a cirurgia aberta (cerca de 4-5%). Essa diferença se mantém nos primeiros meses, mas desaparece após aproximadamente dois anos de seguimento, quando as curvas de sobrevida se encontram. A vantagem inicial da EVAR é real, mas limitada ao curto prazo.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A afirmação de que não há dispositivos dedicados a diâmetros de ilíaca externa ≤ 7 mm é incorreta. Existem próteses de perfil baixo (low-profile) com sistemas de liberação de menor calibre (14-16 French), projetadas especificamente para acessos de menor diâmetro. Além disso, em casos de acesso desfavorável, podem ser utilizados condutos (conduits) ou abordagens alternativas, como a exposição cirúrgica da artéria ilíaca comum ou o acesso direto à aorta. A limitação de acesso é um desafio real, mas não absoluto, e a disponibilidade de dispositivos de perfil baixo ampliou as possibilidades de tratamento endovascular.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A afirmação de que a sobrevida livre de reintervenção é semelhante entre os métodos é incorreta. A EVAR apresenta maior taxa de reintervenção em longo prazo, principalmente devido a endoleaks (especialmente tipo II), migração da prótese, oclusão de ramos e necessidade de conversão para cirurgia aberta. A cirurgia aberta, por sua vez, tem menor taxa de reintervenção tardia, pois o aneurisma é excluído e o enxerto é suturado diretamente, com menor risco de complicações relacionadas ao dispositivo. A durabilidade da cirurgia aberta é superior, embora com maior morbidade inicial.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A afirmação de que a técnica endovascular é superior à cirurgia aberta em longo prazo quanto à degeneração da aorta suprarrenal e à incidência de pseudoaneurismas justarrenais é incorreta. Embora a cirurgia aberta possa estar associada a complicações como degeneração aneurismática da aorta suprarrenal e pseudoaneurismas anastomóticos, a EVAR não é superior em longo prazo, pois apresenta outras complicações mais frequentes, como endoleaks, migração e rotura tardia. A superioridade da EVAR é limitada ao curto prazo, com menor mortalidade perioperatória, mas a durabilidade e a sobrevida livre de reintervenção são superiores na cirurgia aberta.