Questão de Medicina — Gastroenterologia — Quadrix 2023
Medicina›Gastroenterologia
Código
qg031206
Banca
Quadrix
Órgão
FSNH - RS
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Cirurgia do Aparelho Digestivo
Um homem de 65 anos de idade submetido à quimioterapia para leucemia linfocítica aguda relata dor abdominal significativa no lado direito, com diarreia não sanguinolenta. O paciente tem descompressão brusca dolorosa no quadrante inferior direito. Em avaliação laboratorial, a contagem de leucócitos é de 450 células/mm³ (leucopenia intensa). A tomografia computadorizada mostra espessamento significativo do ceco e do íleo terminal. Ele está sendo tratado com fator estimulador de granulócitos, antibióticos de amplo espectro, ressuscitação volêmica e suporte inotrópico em níveis crescentes para manter a pressão arterial.Com base nessa situação hipotética, assinale a alternativa que apresenta o próximo passo para o tratamento.
Aradioterapia
Bvideolaparoscopia diagnóstica
Ccolonoscopia de urgência
Dotimização do tratamento conservador intensivo
Elaparotomia exploradora e colectomia direita
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GabaritoE — laparotomia exploradora e colectomia direita
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Tiflite neutropênica (enterocolite neutropênica): manejo cirúrgico de urgência
Gabarito: letra E. O paciente apresenta tiflite neutropênica complicada — dor no quadrante inferior direito, diarreia não sanguinolenta, descompressão brusca dolorosa, leucopenia intensa (450 células/mm³) e espessamento do ceco e íleo terminal na tomografia — com sinais de peritonite e choque refratário ao suporte inotrópico. Nesse cenário, o próximo passo é a laparotomia exploradora com colectomia direita, pois a falência clínica com deterioração hemodinâmica indica necessidade de ressecção cirúrgica do segmento acometido.
A tiflite neutropênica, também chamada de enterocolite neutropênica ou tiflite, é uma complicação grave que ocorre em pacientes imunossuprimidos, especialmente aqueles em quimioterapia para neoplasias hematológicas, como a leucemia linfocítica aguda. A condição caracteriza-se por inflamação e necrose da parede intestinal, tipicamente envolvendo o ceco e o íleo terminal, como evidenciado na tomografia do paciente. A fisiopatologia envolve a combinação de neutropenia profunda, lesão da mucosa intestinal induzida pela quimioterapia e proliferação bacteriana, levando a edema, ulceração e, em casos graves, necrose transmural e perfuração.
O diagnóstico é essencialmente clínico e radiológico. Os achados clássicos incluem dor abdominal, geralmente localizada no quadrante inferior direito, distensão abdominal, diarreia (que pode ser sanguinolenta ou não), febre e, ao exame físico, sinais de irritação peritoneal, como a descompressão brusca dolorosa descrita. A tomografia computadorizada é o exame de imagem de escolha, demonstrando espessamento da parede do ceco e do íleo terminal, podendo haver pneumatose intestinal, pneumoperitônio ou abscessos em casos complicados. A leucopenia intensa, com contagem de leucócitos inferior a 500 células/mm³, é um fator de risco importante e está associada a pior prognóstico.
O tratamento da tiflite neutropênica é inicialmente conservador, com suporte clínico intensivo. As medidas incluem repouso intestinal, hidratação venosa, correção de distúrbios eletrolíticos, uso de antibióticos de amplo espectro para cobrir bacilos gram-negativos, anaeróbios e, em alguns casos, fungos, além da administração de fator estimulador de colônias de granulócitos para acelerar a recuperação da medula óssea. A otimização do tratamento conservador é a conduta inicial na maioria dos casos, especialmente naqueles sem complicações.
No entanto, a indicação cirúrgica é necessária em situações específicas. Os critérios para intervenção cirúrgica incluem: perfuração intestinal livre com pneumoperitônio, sangramento gastrointestinal incontrolável, formação de abscesso que não responde à drenagem percutânea, e deterioração clínica progressiva apesar do tratamento conservador otimizado, como choque refratário à ressuscitação volêmica e ao suporte inotrópico. No caso apresentado, o paciente já está recebendo tratamento conservador intensivo — fator estimulador de granulócitos, antibióticos de amplo espectro, ressuscitação volêmica e suporte inotrópico em níveis crescentes para manter a pressão arterial — mas apresenta sinais de peritonite (descompressão brusca dolorosa) e instabilidade hemodinâmica progressiva. Essa combinação de achados indica falha do tratamento clínico e necessidade de intervenção cirúrgica imediata.
A cirurgia de escolha é a laparotomia exploradora com colectomia direita, ressecando o segmento intestinal necrótico. A colectomia direita é preferida à apendicectomia ou à ressecção local porque a doença geralmente acomete uma área extensa do ceco e do íleo terminal, e a ressecção incompleta pode deixar tecido necrótico, perpetuando a sepse. A decisão de operar deve ser individualizada, mas a presença de peritonite e choque refratário são indicações absolutas.
A distinção crucial neste caso é entre o tratamento conservador otimizado e a intervenção cirúrgica. A alternativa D, "otimização do tratamento conservador intensivo", pode parecer atraente, pois o paciente já está recebendo essa terapia. No entanto, a presença de sinais de peritonite e a necessidade de suporte inotrópico crescente indicam que o tratamento clínico está falhando. A cirurgia não é o primeiro passo, mas torna-se o próximo passo quando o conservador não é suficiente. A banca explora exatamente essa fronteira: o aluno deve reconhecer que, apesar de o tratamento conservador ser a base, a deterioração clínica com peritonite e choque refratário impõe a cirurgia.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta fazer o candidato escolher a alternativa D, "otimização do tratamento conservador intensivo", porque o enunciado descreve exatamente as medidas conservadoras que estão sendo aplicadas. No entanto, a presença de descompressão brusca dolorosa (peritonite) e a necessidade de suporte inotrópico crescente são sinais de falha do tratamento clínico. O candidato que não reconhece esses sinais de alarme opta pelo conservador, mas a conduta correta é a cirurgia. Fique atento: quando o paciente com tiflite neutropênica apresenta peritonite ou choque refratário, a cirurgia é mandatória.
1Tratamento conservador inicial
2Peritonite ou choque refratário?
3[-] Cirurgia (colectomia direita)
LEVEL · soulevel.com.br
Alternativa A — ❌ Incorreta
A radioterapia não tem papel no tratamento da tiflite neutropênica. Essa modalidade é utilizada no tratamento de neoplasias, mas não na enterocolite neutropênica, que é uma complicação infecciosa e inflamatória. A radioterapia poderia até piorar a lesão da mucosa intestinal, aumentando o risco de perfuração.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A videolaparoscopia diagnóstica não é indicada neste cenário. O diagnóstico de tiflite neutropênica já foi estabelecido pela tomografia computadorizada, que mostrou espessamento do ceco e do íleo terminal. Além disso, o paciente apresenta peritonite e choque, o que contraindica procedimentos laparoscópicos diagnósticos, pois o atraso na intervenção definitiva pode ser fatal. A laparotomia exploradora é o procedimento de escolha quando há indicação cirúrgica.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A colonoscopia de urgência é contraindicada em pacientes com tiflite neutropênica, especialmente naqueles com sinais de peritonite. O procedimento pode causar perfuração intestinal, pois a parede do ceco está inflamada e necrótica, e o risco de complicações é alto. Além disso, a colonoscopia não é terapêutica para a tiflite; ela é apenas diagnóstica, e o diagnóstico já foi feito por imagem.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A otimização do tratamento conservador intensivo seria a conduta correta se o paciente estivesse estável ou melhorando. No entanto, o paciente apresenta sinais de peritonite (descompressão brusca dolorosa) e choque refratário ao suporte inotrópico, indicando falha do tratamento clínico. Nesse contexto, a cirurgia é necessária. A alternativa D ignora os sinais de alarme que indicam a necessidade de intervenção cirúrgica.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A laparotomia exploradora com colectomia direita é o tratamento de escolha para a tiflite neutropênica complicada com peritonite e choque refratário. A ressecção do segmento intestinal necrótico (ceco e íleo terminal) é necessária para controlar a fonte de sepse. A colectomia direita é preferida porque a doença geralmente acomete uma área extensa, e a ressecção incompleta pode deixar tecido necrótico, perpetuando a infecção.