Questão de Medicina — Cardiologia e Alterações Vasculares — Quadrix 2023
Medicina›Cardiologia e Alterações Vasculares
Código
qg031253
Banca
Quadrix
Órgão
FSNH - RS
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Emergencista
Um paciente de 38 anos de idade, com história de cinco dias de evolução de síndrome febril com acometimento de vias aéreas superiores, foi internado com quadro agudo de dor torácica, retroesternal, com irradiação para o pescoço, a mandíbula e os ombros, que piora com a tosse e melhora com o decúbito lateral direito. Apresentou exames de laboratório com elevação de troponina, proteína C‑reativa e velocidade de hemossedimentação (VHS). O eletrocardiograma (ECG) de admissão está disposto a seguir.Com base na imagem acima, assinale a alternativa que apresenta o diagnóstico mais provável.
Ainfarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento do ST
Bdissecção aguda de aorta
Csepse de foco pulmonar com empiema parapneumônico
Dpericardite aguda
Eamponamento cardíaco
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GabaritoD — pericardite aguda
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Pericardite Aguda: Diagnóstico Diferencial da Dor Torácica
Gabarito: letra D. O quadro clínico — dor torácica retroesternal com irradiação para pescoço, mandíbula e ombros, que piora com a tosse e melhora com o decúbito lateral direito (posição de Cope), associada a pródromo viral, elevação de troponina, PCR e VHS — é clássico de pericardite aguda. O ECG de admissão, com supradesnivelamento difuso do segmento ST e infradesnivelamento de PR, confirma o diagnóstico. A alternativa correta é a letra D.
A pericardite aguda é a inflamação do pericárdio, a membrana que envolve o coração. Na maioria dos casos, é idiopática ou de etiologia viral, frequentemente precedida por sintomas de infecção de vias aéreas superiores, como no paciente do enunciado. A dor é tipicamente pleurítica, ou seja, piora com a inspiração, tosse e movimentos, e alivia quando o paciente se inclina para frente ou assume o decúbito lateral direito — isso ocorre porque, nessa posição, o pericárdio inflamado deixa de ser comprimido pelo coração. A irradiação para o pescoço, mandíbula e ombros é característica, pois o nervo frênico (C3-C5) inerva o pericárdio e também essas regiões.
O ECG é um exame fundamental. Na pericardite aguda, o padrão típico é o supradesnivelamento difuso do segmento ST (em múltiplas derivações, sem obedecer à distribuição de uma artéria coronária) e infradesnivelamento do segmento PR. Isso contrasta com o infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento do ST (IAMCSST), em que o supradesnivelamento é localizado, em derivações contíguas que correspondem a um território coronariano específico, e frequentemente há ondas Q patológicas e alterações recíprocas (infradesnivelamento em derivações opostas).
Os exames laboratoriais também ajudam: na pericardite, há elevação de marcadores inflamatórios (PCR, VHS) e, frequentemente, elevação discreta de troponina, devido à inflamação do miocárdio adjacente (miopericardite). No IAM, a elevação de troponina é mais acentuada e segue um padrão de curva típico. A dissecção aguda de aorta, por sua vez, apresenta dor torácica de início súbito, em "rasgadura", com irradiação para o dorso, e pode cursar com assimetria de pulsos e alargamento de mediastino na radiografia — não é o caso do paciente.
A sepse de foco pulmonar com empiema parapneumônico cursaria com febre, tosse produtiva, dor pleurítica e alterações na radiografia de tórax, mas não com o padrão eletrocardiográfico descrito. O tamponamento cardíaco é uma complicação da pericardite, mas se manifesta com hipotensão, turgência jugular e abafamento de bulhas (tríade de Beck), além de pulso paradoxal — não é o diagnóstico inicial do paciente, que está estável e com quadro clínico compatível com pericardite não complicada.
A chave para diferenciar a pericardite do IAMCSST está na análise do ECG: o supradesnivelamento difuso (em vez de localizado) e o infradesnivelamento de PR são os achados que apontam para pericardite. Guarde essa distinção, pois é exatamente nela que as alternativas se dividem.
Pericardite aguda
1Clínica
Dor pleurítica (piora com tosse)
Melhora com decúbito lateral direito
Pródromo viral
2ECG
Supra de ST difuso
Infra de PR
3Laboratório
PCR e VHS elevados
Troponina elevada (miopericardite)
4Diagnósticos diferenciais
IAMCSST: supra localizado, sem infra de PR
Dissecção de aorta
dor em rasgadura, irradia para dorso
Tamponamento: tríade de Beck, alternância elétrica
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Alternativa A — ❌ Incorreta
O infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento do ST (IAMCSST) apresenta dor torácica em aperto, de forte intensidade, com irradiação para braço esquerdo, e o ECG mostra supradesnivelamento do segmento ST localizado, em derivações contíguas de um território coronariano (ex.: parede inferior em DII, DIII e aVF; parede anterior em V1-V6). Na pericardite, o supradesnivelamento é difuso, acometendo várias derivações simultaneamente, e há infradesnivelamento de PR. Além disso, a dor do IAM não melhora com o decúbito lateral direito nem piora com a tosse — características pleuríticas que apontam para inflamação pericárdica.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A dissecção aguda de aorta é uma emergência que se apresenta com dor torácica de início súbito, intensa, em "rasgadura" ou "lancinante", com irradiação para o dorso, e frequentemente associada a fatores de risco como hipertensão arterial. O ECG geralmente não mostra supradesnivelamento difuso do ST, e o diagnóstico é feito por angiotomografia. O paciente do enunciado tem dor pleurítica, pródromo viral e ECG com padrão pericárdico — incompatível com dissecção aórtica.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A sepse de foco pulmonar com empiema parapneumônico cursaria com febre, tosse produtiva, dor pleurítica e sinais de consolidação pulmonar, além de alterações na radiografia de tórax (derrame pleural). O ECG não apresentaria o padrão de supradesnivelamento difuso do ST com infradesnivelamento de PR. A elevação de troponina e o ECG típico apontam para comprometimento pericárdico, não pulmonar.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A pericardite aguda é o diagnóstico mais provável. O paciente tem pródromo de infecção de vias aéreas superiores (sugerindo etiologia viral), dor torácica pleurítica (piora com tosse, melhora com decúbito lateral direito), elevação de marcadores inflamatórios (PCR, VHS) e de troponina (por miopericardite), e ECG com supradesnivelamento difuso do ST e infradesnivelamento de PR — o padrão clássico da pericardite aguda.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O tamponamento cardíaco é uma complicação da pericardite, caracterizada pelo acúmulo de líquido no saco pericárdico, que comprime o coração e prejudica o enchimento ventricular. Manifesta-se com a tríade de Beck (hipotensão, turgência jugular e abafamento de bulhas), pulso paradoxal e, no ECG, pode haver alternância elétrica (variação da amplitude do QRS). O paciente do enunciado não apresenta sinais de instabilidade hemodinâmica, e o ECG mostra supradesnivelamento difuso, não alternância elétrica. O diagnóstico inicial é pericardite aguda, não tamponamento.