Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — Quadrix 2023
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
qg031373
Banca
Quadrix
Órgão
FSNH - RS
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Neonatologia
A respeito da hipoglicemia neonatal, assinale a alternativa correta.
AOs recém‑nascidos prematuros não necessitam de rastreamento, pelo baixo risco de hipoglicemia.
BEm todos os bebês que apresentarem hipoglicemia, é necessária a coleta de hormônio do crescimento, cortisol e glucagon, para a investigação adicional.
CVômitos, irritabilidade, hipotonia e convulsões podem ser alguns sintomas relacionados à hipoglicemia.
DNos bebês com hipoglicemia, mas que sejam assintomáticos, está descartado o risco de lesão cerebral.
EA hipoglicemia nos filhos de mãe diabética ocorre por redução na produção de glicose.
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GabaritoC — Vômitos, irritabilidade, hipotonia e convulsões podem ser alguns sintomas relacionados à hipoglicemia.
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Hipoglicemia Neonatal: Sintomas e Conduta
Gabarito: letra C. A alternativa correta é a que afirma que vômitos, irritabilidade, hipotonia e convulsões podem ser sintomas de hipoglicemia neonatal. Esses são sinais clássicos de neuroglicopenia, que ocorre quando a glicose disponível para o cérebro é insuficiente, e a banca cobra exatamente o reconhecimento desses sintomas. As demais alternativas apresentam erros conceituais sobre rastreamento, investigação, risco de lesão cerebral e fisiopatologia.
A hipoglicemia neonatal é definida como glicemia plasmática abaixo de 45 mg/dL em recém-nascidos a termo e abaixo de 30 mg/dL em prematuros, embora os valores de corte possam variar conforme a diretriz. É uma das emergências metabólicas mais comuns na neonatologia, pois o cérebro do recém-nascido depende quase exclusivamente da glicose como fonte de energia. Quando a glicemia cai, o organismo lança mão de mecanismos de contrarregulação: primeiro há liberação de catecolaminas e glucagon, que tentam elevar a glicose; depois, se a queda persiste, surgem os sintomas neuroglicopênicos, que refletem a falta de glicose no sistema nervoso central.
Os sintomas de hipoglicemia neonatal podem ser divididos em dois grupos. Os sintomas autonômicos (adrenérgicos) incluem sudorese, taquicardia, tremores e palidez, mas são difíceis de identificar no recém-nascido. Já os sintomas neuroglicopênicos incluem letargia, hipotonia, irritabilidade, choro fraco, recusa alimentar, vômitos, apneia, cianose, hipotermia e, nos casos mais graves, convulsões e coma. A alternativa C lista exatamente alguns desses sintomas neuroglicopênicos, o que a torna correta.
A conduta diante de um recém-nascido com hipoglicemia depende da presença ou ausência de sintomas. Em bebês sintomáticos, a correção deve ser imediata, geralmente com bolus de glicose a 10% seguido de infusão contínua. Em bebês assintomáticos, a conduta pode ser inicialmente com aleitamento materno ou fórmula, mas sempre com monitorização glicêmica frequente. A investigação etiológica (dosagem de insulina, cortisol, hormônio do crescimento, etc.) não é indicada para todos os casos, apenas para aqueles com hipoglicemia grave, persistente ou recorrente, ou quando há suspeita de doença metabólica ou endócrina.
A fisiopatologia da hipoglicemia no filho de mãe diabética é diferente da descrita na alternativa E. Nesses bebês, o excesso de glicose materna atravessa a placenta e estimula o pâncreas fetal a produzir mais insulina (hiperinsulinismo). Após o nascimento, com a interrupção do aporte de glicose materna, a insulina elevada persiste e causa hipoglicemia por aumento do consumo de glicose, e não por redução na produção. É o hiperinsulinismo, e não a redução da produção hepática de glicose, o mecanismo central.
A pegadinha da questão está em alternativas que parecem plausíveis, mas contêm erros sutis. A alternativa A erra ao afirmar que prematuros não precisam de rastreamento, quando na verdade são um dos grupos de maior risco. A alternativa B erra ao generalizar a necessidade de investigação adicional para todos os bebês com hipoglicemia. A alternativa D erra ao afirmar que bebês assintomáticos não têm risco de lesão cerebral, quando a hipoglicemia assintomática também pode causar danos neurológicos. A alternativa E erra ao atribuir a hipoglicemia do filho de mãe diabética à redução na produção de glicose, quando o mecanismo é o hiperinsulinismo.
Guarde a distinção entre sintomas autonômicos e neuroglicopênicos, e lembre-se de que a hipoglicemia neonatal é uma emergência que exige rastreamento em grupos de risco, investigação seletiva e correção imediata. É exatamente esse conhecimento que separa as alternativas corretas das incorretas.
Hipoglicemia neonatal
1Sintomas
Autonômicos (adrenérgicos)
Sudorese
Taquicardia
Tremores
Neuroglicopênicos
Letargia
Hipotonia
Irritabilidade
Vômitos
Convulsões
2Grupos de risco (rastreamento)
Prematuros
PIG
GIG
Filhos de mãe diabética
Asfixia perinatal
3Conduta
Sintomático → bolus de glicose 10% + infusão contínua
Afirma que recém-nascidos prematuros não necessitam de rastreamento por baixo risco de hipoglicemia. É exatamente o oposto: prematuros são um dos grupos de maior risco para hipoglicemia neonatal, devido à imaturidade dos sistemas enzimáticos hepáticos, às reservas reduzidas de glicogênio e à maior demanda metabólica. O rastreamento é obrigatório nesse grupo, assim como em recém-nascidos pequenos para a idade gestacional (PIG), grandes para a idade gestacional (GIG), filhos de mães diabéticas e com asfixia perinatal.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que em todos os bebês com hipoglicemia é necessária a coleta de hormônio do crescimento, cortisol e glucagon para investigação adicional. A investigação etiológica é seletiva, indicada apenas em casos de hipoglicemia grave, persistente, recorrente ou com suspeita clínica de doença metabólica ou endócrina. Na maioria dos casos, a hipoglicemia neonatal é transitória e responde bem ao tratamento, não sendo necessária essa investigação ampla. A generalização torna a alternativa incorreta.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Afirma que vômitos, irritabilidade, hipotonia e convulsões podem ser sintomas relacionados à hipoglicemia. Esses são exatamente os sintomas neuroglicopênicos clássicos da hipoglicemia neonatal, que ocorrem quando a glicose disponível para o cérebro é insuficiente. A irritabilidade e a hipotonia são sinais precoces, enquanto as convulsões indicam hipoglicemia grave. A alternativa está correta ao listar esses sintomas como possíveis manifestações da hipoglicemia.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que em bebês com hipoglicemia assintomáticos está descartado o risco de lesão cerebral. A hipoglicemia assintomática também pode causar danos neurológicos, especialmente se for prolongada ou grave. O risco de lesão cerebral existe tanto em bebês sintomáticos quanto assintomáticos, e por isso a monitorização e o tratamento são importantes em ambos os casos. A ausência de sintomas não elimina o risco de sequelas neurológicas.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que a hipoglicemia nos filhos de mãe diabética ocorre por redução na produção de glicose. O mecanismo correto é o hiperinsulinismo: o excesso de glicose materna atravessa a placenta e estimula o pâncreas fetal a produzir mais insulina. Após o nascimento, com a interrupção do aporte de glicose, a insulina elevada persiste e causa hipoglicemia por aumento do consumo de glicose, e não por redução na produção. A alternativa inverte o mecanismo fisiopatológico.