Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — Quadrix 2023
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
qg031428
Banca
Quadrix
Órgão
FSNH - RS
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Pediatria Clínica - UPA
Pré‑escolar, três anos e quatro meses de vida, sexo masculino, deu entrada no pronto atendimento com história de crise convulsiva tonicoclônica generalizada há 30 minutos, com duração de 2 minutos. Pais negam episódio semelhante pregresso. Referem que, alguns minutos antes da crise, a criança foi medicada com paracetamol devido a pico febril de 38,8 o C, além de estar com coriza e congestão nasal há 1 dia. Exame físico: bom estado geral; afebril, 37,1 o C; congestão nasal e coriza clara hialina; leve sonolência, sem sinais neurológicos de localização ou rigidez de nuca. Foi realizada análise de líquor: límpido, incolor, células: 2, proteínas: 18 mg/dL; Glicose: 55 mg/dL.Com base nessa situação hipotética, assinale a alternativa que apresenta a conduta diante do caso clínico e a principal hipótese diagnóstica.
Ainternar a criança e prescrever Ceftriaxone 50mg/kg/dia
Brealizar ataque de Fenobarbital 20mg/kg e mantê‑la em observação
Cprescrever antitérmico a cada 6 horas e repetir punção lombar em 24 horas
Dinternar a criança e solicitar tomografia computadoriza de crânio com contraste
Emanter em observação até melhora da sonolência, e liberar criança com orientações
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoE — manter em observação até melhora da sonolência, e liberar criança com orientações
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Crise Convulsiva Febril em Pré-escolar: Conduta e Diagnóstico
Gabarito: letra E. O caso descreve uma crise febril simples (CFS) em pré-escolar de 3 anos e 4 meses: crise tônico-clônica generalizada, breve (2 minutos), associada a febre (38,8°C), sem sinais de infecção do sistema nervoso central (líquor normal) e sem déficits neurológicos. A conduta correta é manter em observação até melhora da sonolência e liberar com orientações, pois a CFS tem prognóstico benigno e não requer internação, antibióticos, anticonvulsivantes ou exames de imagem de rotina. A principal hipótese diagnóstica é crise febril simples, conforme os critérios clássicos da literatura pediátrica.
A crise febril é o transtorno convulsivo mais comum na infância, afetando 2% a 5% das crianças. Define-se como uma crise que ocorre em crianças entre 6 meses e 5 anos, associada a febre (temperatura > 38°C), sem infecção do sistema nervoso central e sem história prévia de crises afebris. A crise febril simples (CFS) é caracterizada por ser generalizada, breve (duração < 15 minutos), não recorrente em 24 horas, e ocorrer em criança sem déficits neurológicos. Já a crise febril complexa (CFC) é definida por duração > 15 minutos, caráter focal, recorrência em 24 horas ou presença de anormalidades neurológicas pós-ictais (como paralisia de Todd).
No caso apresentado, a criança tem 3 anos e 4 meses (dentro da faixa etária típica), a crise foi generalizada e durou apenas 2 minutos (bem abaixo do limite de 15 minutos), não houve recorrência, e o exame neurológico pós-ictal mostrou apenas sonolência leve, sem sinais de localização ou rigidez de nuca. O líquor foi normal (células: 2, proteínas: 18 mg/dL, glicose: 55 mg/dL), afastando meningite ou encefalite. Portanto, trata-se de uma CFS clássica.
A conduta na CFS é essencialmente expectante. A maioria das crises cessa espontaneamente em 2 a 3 minutos e não requer tratamento medicamentoso. Não estão indicados exames laboratoriais de rotina, EEG ou exames de imagem. A punção lombar só é recomendada na presença de sinais meníngeos, em crianças com menos de 18 meses com deterioração clínica, ou em uso de antibióticos prévios — nenhuma dessas situações se aplica ao caso. A profilaxia contínua com fenobarbital ou valproato não é recomendada para CFS, pois os efeitos adversos superam os benefícios, dado o prognóstico benigno. A terapia intermitente com diazepam retal pode ser considerada em casos selecionados (crises frequentes), mas não é a conduta imediata após um primeiro episódio simples.
A principal distinção que a banca explora é entre crise febril simples e complexa, e entre conduta expectante versus intervencionista. A pegadinha está em oferecer alternativas que sugerem internação, antibióticos, anticonvulsivantes ou tomografia — todas desnecessárias e potencialmente prejudiciais numa CFS. O critério decisivo é: crise breve, generalizada, sem sinais de alarme → observação e orientação; crise prolongada, focal, recorrente ou com déficits → investigação e internação.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A internação com Ceftriaxone 50mg/kg/dia é desnecessária. A criança não apresenta sinais de meningite (líquor normal, sem rigidez de nuca) nem outra infecção bacteriana grave que justifique antibioticoterapia empírica. A CFS não é indicação de antibiótico. O uso de ceftriaxona seria apropriado apenas se houvesse suspeita de meningite bacteriana, o que está afastado pelo líquor límpido, com 2 células, proteínas normais e glicose normal.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O ataque de Fenobarbital 20mg/kg não é indicado. A profilaxia contínua com fenobarbital não é recomendada para CFS, pois os efeitos adversos (sedação, alterações cognitivas) superam os benefícios, dado o prognóstico benigno. A criança já está fora da crise (a crise durou 2 minutos e cessou espontaneamente), portanto não há indicação de anticonvulsivante de ataque. O fenobarbital seria considerado apenas em casos de CFC ou crises recorrentes, não num primeiro episódio simples.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Prescrever antitérmico a cada 6 horas e repetir punção lombar em 24 horas é conduta inadequada. A repetição da punção lombar não tem indicação, pois o líquor já foi analisado e é normal. O uso de antitérmico pode ser feito para conforto da criança, mas não é a conduta principal, e a repetição da PL não é necessária. A criança está afebril no momento (37,1°C), e a febre já foi tratada com paracetamol. Não há justificativa para nova punção lombar.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Internar e solicitar tomografia computadorizada de crânio com contraste é excessivo. A TC de crânio não está indicada na CFS, pois não há suspeita de lesão estrutural, trauma ou hipertensão intracraniana. O exame de imagem só seria considerado em CFC ou se houvesse sinais de alarme (déficits focais, rebaixamento do nível de consciência persistente, etc.), o que não ocorre. A internação também não é necessária, pois a criança está em bom estado geral e a crise foi breve e autolimitada.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Manter em observação até melhora da sonolência e liberar com orientações é a conduta correta. A sonolência leve pós-ictal é esperada e transitória. A criança deve ser observada até recuperação completa do nível de consciência, e então liberada com orientações aos pais sobre a natureza benigna da CFS, sinais de alarme (crise prolongada, focal, recorrente) e manejo da febre. Não há necessidade de internação, antibióticos, anticonvulsivantes ou exames de imagem. Esta conduta está alinhada com as recomendações da literatura pediátrica para CFS.
PEGA ESSA DICA!
Para diferenciar crise febril simples de complexa, use o mnemônico "Generalizada, Breve, Única" (GBU): se a crise for generalizada, durar menos de 15 minutos e não recorrer em 24 horas, é simples → conduta expectante. Se qualquer um desses critérios falhar (focal, >15 min, recorrente), é complexa → investigar e considerar internação. Essa distinção é a chave para resolver questões sobre convulsão febril.