Questão de Medicina — Medicina Intensiva — Avança SP 2024
Medicina›Medicina Intensiva
Código
qg081281
Banca
Avança SP
Órgão
FUNBEPE
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Médico Plantonista
Um paciente foi encontrado inconsciente e levado ao pronto-socorro. O exame neurológico revelou ausência de resposta motora, pupilas não reativas e padrões respiratórios anormais. Considerando os diferentes tipos de coma, qual dos seguintes parâmetros é mais útil para diferenciar entre um coma metabólico e um coma estrutural?
ANíveis de glicose no sangue.
BAnálise de gases sanguíneos arteriais.
CExame de imagem do cérebro, como tomografia computadorizada (TC) ou ressonância magnética (RM).
DAvaliação de reflexos pupilares.
EMedição da pressão arterial.
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GabaritoC — Exame de imagem do cérebro, como tomografia computadorizada (TC) ou ressonância magnética (RM).
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Coma: diferenciação entre causa metabólica e estrutural
Gabarito: letra C. O exame de imagem do cérebro (TC ou RM) é o parâmetro mais útil para diferenciar coma metabólico de coma estrutural, pois identifica diretamente lesões focais, massas, hemorragias ou sinais de herniação que caracterizam a causa estrutural, enquanto o coma metabólico, por definição, não apresenta alterações estruturais visíveis na neuroimagem. A avaliação clínica (reflexos pupilares, padrão respiratório, resposta motora) ajuda a levantar a suspeita, mas é a neuroimagem que confirma o diagnóstico diferencial.
O coma é um estado de inconsciência profunda e prolongada, no qual o paciente não desperta, não responde a estímulos e não apresenta ciclo sono-vigília. Sua fisiopatologia envolve dois mecanismos principais: (1) lesão difusa de ambos os hemisférios cerebrais ou (2) interrupção da transmissão nervosa pela formação reticular ativadora ascendente (FRAA), localizada na transição pontomesencefálica. A partir dessa base, os comas são classicamente divididos em duas grandes categorias: estruturais (ou encefalopatias focais) e metabólicos (ou encefalopatias difusas).
Os comas estruturais resultam de lesões focais que podem ser supratentoriais (acima da tenda do cerebelo, como tumores, hematomas subdurais ou epidurais, infartos hemisféricos) ou infratentoriais (no tronco encefálico ou cerebelo, como hemorragias pontinas ou infartos de tronco). Essas lesões comprimem ou destroem diretamente estruturas críticas, frequentemente causando sinais focais assimétricos — como posturas de decorticação ou descerebração assimétricas, pupilas assimétricas ou não reativas, e movimentos oculares reflexos comprometidos. Já os comas metabólicos decorrem de disfunção cerebral difusa por alterações sistêmicas — hipoglicemia, hiperglicemia, encefalopatia hepática ou urêmica, distúrbios eletrolíticos, intoxicações exógenas, hipóxia, entre outras. Nesses casos, o comprometimento é global e simétrico, e as pupilas permanecem isocóricas e reativas na grande maioria das situações, mesmo em comas profundos.
A avaliação clínica do paciente em coma segue uma sequência estruturada que inclui: nível de consciência, padrão respiratório, reflexos pupilares, movimentos oculares e resposta motora. Esses cinco passos, quando bem executados, fornecem pistas valiosas para qualificar o coma como metabólico, supratentorial ou infratentorial. Por exemplo, pupilas puntiformes (muito pequenas e reativas) sugerem lesão pontina; pupilas assimétricas ou não reativas sugerem lesão estrutural com comprometimento do III par craniano; pupilas isocóricas e reativas, por outro lado, são típicas de coma metabólico. No entanto, essas pistas clínicas são sugestivas, não definitivas. Um paciente com coma metabólico profundo pode, em estágios avançados, perder a reatividade pupilar, e um paciente com lesão estrutural pequena pode apresentar exame neurológico inicialmente simétrico.
É exatamente por isso que a neuroimagem se torna o exame decisivo. A tomografia computadorizada de crânio é o exame de escolha, realizado com urgência em todo paciente com coma de causa não esclarecida ou com suspeita de etiologia estrutural. Ela é capaz de detectar hemorragias, infartos extensos, tumores, abscessos, sinais de hipertensão intracraniana e herniação — achados que definem o coma como estrutural. A ressonância magnética pode complementar a investigação em casos selecionados, como suspeita de infarto agudo, encefalite ou lesões da fossa posterior. No coma metabólico, a neuroimagem é normal ou mostra apenas alterações inespecíficas, como edema cerebral difuso em casos graves.
A distinção entre coma metabólico e estrutural é um dos pilares da abordagem inicial do paciente inconsciente, pois muda completamente a conduta: no coma metabólico, o tratamento é direcionado à causa sistêmica (correção da glicemia, eletrólitos, suporte hepático/renal, antídotos); no coma estrutural, o tratamento pode envolver neurocirurgia (drenagem de hematoma, craniectomia descompressiva) ou medidas para redução da pressão intracraniana. A banca explora exatamente essa fronteira: o aluno que confunde os papéis da avaliação clínica e da neuroimagem tende a escolher uma alternativa que descreve um exame complementar útil para investigar a causa metabólica, mas que não é o parâmetro mais útil para diferenciar as duas categorias.
Guarde o critério decisivo: a diferenciação entre coma metabólico e estrutural é feita pela presença ou ausência de lesão focal no parênquima cerebral, e isso só pode ser avaliado diretamente por exame de imagem. Os demais parâmetros — glicemia, gasometria, reflexos pupilares, pressão arterial — são importantes para investigar causas específicas ou para a avaliação clínica, mas não têm o poder discriminatório da neuroimagem.
Coma
1Metabólico (difuso)
Causas sistêmicas
glicemia, eletrólitos, hepática, urêmica
Pupilas isocóricas e reativas
Neuroimagem normal
2Estrutural (focal)
Supratentorial (tumor, hematoma, infarto)
Infratentorial (tronco, cerebelo)
Sinais focais assimétricos
Neuroimagem alterada
3Diagnóstico diferencial
Clínica: sugestiva
TC/RM: decisiva
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A glicemia é um exame essencial na investigação inicial do coma, pois a hipoglicemia é uma causa comum e rapidamente reversível. No entanto, ela apenas identifica uma causa metabólica específica — não diferencia, por si só, entre coma metabólico e estrutural. Um paciente com hipoglicemia pode ter um coma metabólico, mas a glicemia normal não exclui outras causas metabólicas nem afasta uma lesão estrutural. O erro da alternativa está em superestimar o papel de um exame que investiga uma etiologia pontual, em vez de avaliar a estrutura cerebral.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A gasometria arterial avalia o equilíbrio ácido-base e a oxigenação, sendo útil para identificar causas metabólicas como cetoacidose diabética, acidose láctica ou intoxicação por salicilatos. Contudo, assim como a glicemia, ela não diferencia coma metabólico de estrutural: alterações gasométricas podem estar presentes em ambos os tipos (por exemplo, hiperventilação neurogênica central em lesão estrutural ou acidose metabólica em coma metabólico). A gasometria é um exame complementar importante, mas não é o parâmetro mais útil para a diferenciação proposta.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O exame de imagem do cérebro, especialmente a TC de crânio, é o parâmetro mais útil para diferenciar coma metabólico de coma estrutural. A TC identifica diretamente lesões focais — hemorragia, infarto, tumor, abscesso, edema, sinais de herniação — que definem a causa estrutural. No coma metabólico, a neuroimagem é normal ou mostra apenas alterações inespecíficas. A RM pode complementar em casos selecionados. A alternativa está correta porque a neuroimagem é o único exame que avalia diretamente a estrutura cerebral, permitindo distinguir as duas categorias com alta acurácia.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A avaliação dos reflexos pupilares é um componente fundamental do exame neurológico do paciente em coma e fornece pistas importantes: pupilas isocóricas e reativas sugerem coma metabólico, enquanto pupilas assimétricas ou não reativas sugerem lesão estrutural. No entanto, essa avaliação é apenas sugestiva e pode ser enganosa — um coma metabólico profundo pode cursar com pupilas não reativas, e uma lesão estrutural pequena pode preservar a reatividade pupilar. A alternativa erra ao considerar a avaliação pupilar como o parâmetro mais útil, quando na verdade ela é um dado clínico que orienta a suspeita, mas não confirma o diagnóstico.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A pressão arterial é um sinal vital importante na avaliação inicial, pois hipotensão pode indicar choque ou sepse, e hipertensão pode sugerir encefalopatia hipertensiva ou hemorragia intracraniana. No entanto, a pressão arterial não diferencia coma metabólico de estrutural: alterações pressóricas podem ocorrer em ambos os tipos e são inespecíficas. A alternativa está incorreta porque a pressão arterial é um dado sistêmico que não avalia diretamente a estrutura cerebral.
Gabarito: letra C — o exame de imagem do cérebro (TC ou RM) é o parâmetro mais útil para diferenciar coma metabólico de coma estrutural, pois identifica diretamente lesões focais que caracterizam a causa estrutural, enquanto o coma metabólico não apresenta alterações estruturais visíveis na neuroimagem.