Questão de Medicina — Envenenamentos e Acidentes — Avança SP 2024
- Código
- qg081302
- Banca
- Avança SP
- Órgão
- FUNBEPE
- Ano
- 2024
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico do Trabalho
- ACatarata.
- BEritema cutâneo.
- CMielossupressão.
- DCâncer.
- EEsterilidade.
GabaritoD — Câncer.
Gabarito: letra D (Câncer). O câncer é o exemplo clássico de efeito estocástico da radiação ionizante, pois sua probabilidade de ocorrência aumenta com a dose, mas a gravidade não depende dela — não há limiar de dose para o surgimento. Os efeitos estocásticos são aqueles em que a probabilidade de ocorrência é proporcional à dose, sem limiar, e incluem o câncer e os efeitos hereditários (genéticos). Os efeitos determinísticos, por outro lado, têm limiar de dose e gravidade crescente com a dose, como catarata, eritema, mielossupressão e esterilidade.
A radiação ionizante interage com o tecido biológico transferindo energia, o que pode causar danos diretos ao DNA ou indiretos, pela formação de espécies reativas de oxigênio. A resposta celular a esse dano determina o tipo de efeito observado. Quando o dano não é reparado ou é reparado de forma incorreta, pode levar a mutações que, acumuladas, podem iniciar um processo carcinogênico. Esse processo é probabilístico: não há uma dose mínima abaixo da qual o câncer não possa ocorrer, apenas uma probabilidade menor. É por isso que o câncer é classificado como efeito estocástico — a probabilidade de ocorrência aumenta com a dose, mas a gravidade (uma vez que ocorre) não depende dela.
Os efeitos determinísticos, por sua vez, resultam de morte celular ou disfunção tecidual em massa, que só ocorrem quando a dose ultrapassa um limiar. Abaixo desse limiar, o tecido consegue se reparar ou compensar a perda celular; acima dele, o dano se manifesta clinicamente, e a gravidade aumenta com a dose. Exemplos típicos são a catarata (opacificação do cristalino), o eritema cutâneo (vermelhidão da pele), a mielossupressão (diminuição das células sanguíneas pela lesão da medula óssea) e a esterilidade (por dano aos ovários ou testículos). Esses efeitos são previsíveis e têm limiar, ao contrário dos estocásticos.
A distinção entre os dois tipos de efeito é fundamental em radioproteção. O sistema de proteção radiológica adota o princípio de que qualquer dose, por menor que seja, pode aumentar a probabilidade de efeitos estocásticos, justificando o princípio ALARA (As Low As Reasonably Achievable — tão baixo quanto razoavelmente exequível). Para os efeitos determinísticos, os limites de dose são estabelecidos para que nenhum indivíduo ultrapasse o limiar, evitando assim a ocorrência desses efeitos. Essa lógica explica por que os limites de dose ocupacional são definidos para prevenir efeitos determinísticos e reduzir a probabilidade de efeitos estocásticos a níveis aceitáveis.
A pegadinha da banca está em listar efeitos determinísticos (catarata, eritema, mielossupressão, esterilidade) como se fossem estocásticos. O candidato que não domina a classificação pode confundir, pois todos são efeitos biológicos da radiação. A chave é lembrar que efeito estocástico = probabilidade sem limiar (câncer e efeitos hereditários); efeito determinístico = gravidade com limiar (os demais). Guarde essa fronteira: é exatamente nela que as alternativas se dividem.
Critério | Efeitos Estocásticos | Efeitos Determinísticos |
|---|---|---|
Relação com a dose | Probabilidade de ocorrência aumenta com a dose | Gravidade aumenta com a dose |
Limiar de dose | Não há limiar | Há limiar (dose mínima para ocorrer) |
Mecanismo | Mutações no DNA (dano não reparado ou incorreto) | Morte celular ou disfunção tecidual em massa |
Exemplos | Câncer, efeitos hereditários (genéticos) | Catarata, eritema cutâneo, mielossupressão, esterilidade |
A catarata é um efeito determinístico, não estocástico. Ela ocorre quando a dose de radiação no cristalino ultrapassa um limiar (em torno de 0,5 Gy em exposição aguda), causando opacificação progressiva. A gravidade da catarata aumenta com a dose, e há um limiar abaixo do qual ela não se manifesta — características típicas de efeito determinístico. A banca a inclui como distrator justamente por ser um efeito bem conhecido da radiação, mas que não se enquadra na definição de estocástico.
O eritema cutâneo (vermelhidão da pele) é um efeito determinístico, com limiar de dose em torno de 2 a 3 Gy em exposição aguda. É uma reação tecidual precoce, decorrente de dano vascular e inflamatório, cuja gravidade aumenta com a dose. Não é um efeito estocástico, pois não se trata de um evento probabilístico sem limiar, mas de uma resposta tecidual previsível acima de certo limiar.
A mielossupressão (depressão da medula óssea, com queda de leucócitos, hemácias e plaquetas) é um efeito determinístico. A medula óssea é um tecido altamente radiossensível, e a supressão ocorre quando a dose ultrapassa um limiar (em torno de 0,5 Gy). A gravidade da mielossupressão aumenta com a dose, podendo levar à síndrome hematopoiética da radiação em doses altas. É um efeito previsível e com limiar, portanto determinístico.
O câncer é o exemplo paradigmático de efeito estocástico. A radiação ionizante pode causar mutações no DNA que, acumuladas, iniciam o processo carcinogênico. Não há limiar de dose para a indução de câncer: qualquer dose, por menor que seja, aumenta probabilisticamente o risco, e a gravidade do câncer (uma vez que surge) não depende da dose recebida. Essa é a definição exata de efeito estocástico — probabilidade proporcional à dose, sem limiar. Os efeitos hereditários (mutações em células germinativas transmitidas à descendência) também são estocásticos, mas o câncer é o exemplo mais cobrado.
A esterilidade (temporária ou permanente) é um efeito determinístico, decorrente do dano aos ovários ou testículos. Há um limiar de dose (em torno de 0,15 Gy para esterilidade masculina temporária e 2,5–6 Gy para permanente; na mulher, 0,65–1,5 Gy para esterilidade temporária, dependendo da idade). Acima do limiar, a gravidade (duração ou permanência da esterilidade) aumenta com a dose. É um efeito previsível e com limiar, portanto determinístico.
A banca lista quatro efeitos determinísticos clássicos (catarata, eritema, mielossupressão, esterilidade) e apenas um estocástico (câncer). O candidato que memoriza os efeitos sem entender a classificação pode cair na armadilha de escolher um efeito determinístico por ser "bem conhecido". A chave é o critério: estocástico = probabilidade sem limiar (câncer e efeitos hereditários); determinístico = gravidade com limiar (todos os demais). Com esse critério em mente, a resposta é imediata.
Para fixar, monte uma tabela mental de dois grupos. Estocásticos: câncer e efeitos hereditários (mutações em células germinativas). Determinísticos: catarata, eritema, mielossupressão, esterilidade, fibrose, necrose, síndrome aguda da radiação. Na prova, ao ver "efeito estocástico", pergunte-se: "tem limiar?" Se não tem limiar e a probabilidade aumenta com a dose, é estocástico. Se tem limiar e a gravidade aumenta com a dose, é determinístico. Essa pergunta resolve qualquer questão do tema.
Gabarito: letra D
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