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Questão de Português — Sintaxe — Avança SP 2024

PortuguêsSintaxe
Código
qg086101
Banca
Avança SP
Órgão
Prefeitura de Juquitiba - SP
Ano
2024
Nível
Fundamental
Cargo
Auxiliar de Serviços Gerais

Leia o texto para responder à questão.


O arteiro e o tempo


Se o Tempo tivesse uma cara, como seria? Para começar, não seria uma cara. Seriam várias. A cara do Tempo mudaria a toda hora. Bem, não a toda hora. Mas certamente a todo o ano.


 A cara do Tempo ao nascer seria igual à cara de qualquer recém-nascido. Meio amassada, como um papel de embrulho que não se consegue alisar. Alguém poderia dizer “É a cara do pai” mas só estaria sendo delicado. Ao nascer, ninguém é a cara de ninguém.


Aliás, os dois ou três dias depois do nascimento são os únicos dias da vida em que a nossa cara é só nossa. Depois começa a ficar parecida.


Com o tempo, a cara do Tempo iria mudando. Na infância, a cara da gente muda mais depressa. Sempre tem aquela tia que passa um ou dois meses sem nos ver e quando vê faz um escândalo.


— Não pode ser, como ele mudou! Ou então não acredita.


— É mentira. Esse não é ele!


E a gente não sabe se fica orgulhoso por ter crescido tanto e estar ali enganando a tia ou finge que acha engraçado. Mesmo que por dentro esteja pensando: “Saco”.


Depois, a nossa cara muda mais devagar. A cara de quem tem quinze anos é muito diferente da cara de quem tem dez. Mas a cara de quem tem 35 não é muito diferente da cara de quem tem trinta. Pelo menos não o bastante para enganar uma tia.


Depois de um certo tempo, o Tempo muda de cara devagar. Mas muda. Vai ficando enrugado, encurvado... Mas é engraçado: quanto mais velho fica o Tempo, mais rápido ele passa.


Quando ele é moço, o Tempo parece que nem anda. Você fica torcendo para ele passar depressa — principalmente no começo do ano escolar, quando as férias estão lá longe e cada dia leva uma semana para terminar e cada semana  leva um mês — e ele passa arrastando os pés, como um velho.


Quando fica velho, passa correndo, como um moço. E um moço atleta. Por isso os adultos não falam com o Tempo. Não conseguem. Ele não fica quieto. Criança, sim, pode conversar com o Tempo. Pedir coisas:


— Passa depressa, pô!


— Pra quê? 


— Pro verão chegar logo. Pro meu aniversário chegar logo. Pro Natal chegar logo.


— Calma... — Anda! — Tem tempo...


E o Tempo se espreguiça. E é capaz até de tirar uma soneca na sua cara. Afinal, ele tem todo o tempo do mundo. Ele é todo o tempo do mundo.


VERISSIMO, L. F. Verissimo antológico: meio século de crônicas, ou coisa parecida. São Paulo: Objetiva, 2020.

No excerto “Depois começa a ficar parecida.”, a palavra “parecida” está em sua forma flexionada no gênero feminino, e estabelece uma relação de concordância com uma palavra que ocorre anteriormente. Essa palavra é:
  1. A“vida”.
  2. B“nascimento”.
  3. C“dia”.
  4. D“cara”.
  5. E“aliás”.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — “cara”.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Concordância Nominal: o referente de "parecida"

Gabarito: letra D. A palavra "parecida" concorda com "cara", termo que ocorre anteriormente no texto. A pista está no trecho: "Depois começa a ficar parecida" — o sujeito elíptico é "a nossa cara", retomado do período anterior: "os dois ou três dias depois do nascimento são os únicos dias da vida em que a nossa cara é só nossa". Como o adjetivo "parecida" se refere a "cara" (substantivo feminino singular), ele flexiona no feminino singular para concordar com esse núcleo.

O comando da questão

A questão pede que você identifique a palavra com a qual "parecida" estabelece relação de concordância. Isso é uma tarefa de análise sintática e coesão referencial: você precisa rastrear o referente do adjetivo, ou seja, descobrir a que termo ele se liga semanticamente. Não se trata de interpretar o texto, mas de aplicar a regra de concordância nominal — o adjetivo concorda em gênero e número com o substantivo a que se refere.

O texto e o movimento argumentativo

O cronista personifica o Tempo e discute como a "cara" (a aparência) muda ao longo da vida. No trecho-chave, ele afirma que, após o nascimento, a cara deixa de ser "só nossa" e começa a ficar parecida (com a de outras pessoas, como os pais). Veja o contexto imediato:

"Aliás, os dois ou três dias depois do nascimento são os únicos dias da vida em que a nossa cara é só nossa. Depois começa a ficar parecida."

Aqui, "a nossa cara" é o sujeito da primeira oração; na segunda, o sujeito é elíptico (oculto), mas o referente é o mesmo: a nossa cara. O adjetivo "parecida" concorda com esse núcleo feminino singular.

A regra de concordância nominal

A concordância nominal é a regra que determina que o adjetivo, o pronome adjetivo, o artigo e o numeral concordam em gênero (masculino/feminino) e número (singular/plural) com o substantivo a que se referem. No caso, "parecida" é um adjetivo que se liga ao substantivo "cara" — por isso está no feminino singular. Se o substantivo fosse masculino (ex.: "rosto"), diríamos "parecido".

Exemplo:

  • "A cara é parecida" (feminino singular)

  • "O rosto é parecido" (masculino singular)

  • "As caras são parecidas" (feminino plural)

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

"vida" aparece no trecho: "os únicos dias da vida em que a nossa cara é só nossa". Mas "vida" é um substantivo feminino singular que está dentro de uma locução adjetiva ("da vida") e não é o núcleo do sujeito da oração em que "parecida" ocorre. O adjetivo não se refere a "vida", mas a "cara". A banca tenta confundir com um termo que está próximo no texto, mas não é o referente.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"nascimento" é um substantivo masculino singular que aparece em "depois do nascimento". Se "parecida" concordasse com ele, seria "parecido". Além disso, "nascimento" é um adjunto adverbial de tempo, não o núcleo do sujeito. A concordância no feminino já indica que o referente não é esse.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"dia" é um substantivo masculino singular ("os únicos dias"). Se o referente fosse "dia", o adjetivo seria "parecido". Além disso, "dia" está no plural no texto ("os únicos dias"), o que descartaria a concordância no singular. A banca oferece um termo que aparece antes, mas não é o núcleo do sujeito.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"cara" é o núcleo do sujeito elíptico da oração "Depois começa a ficar parecida". O período anterior estabelece: "a nossa cara é só nossa". O adjetivo "parecida" retoma esse substantivo feminino singular, concordando em gênero e número. A prova está na substituição: "Depois [a nossa cara] começa a ficar parecida".

Alternativa E — ❌ Incorreta

"aliás" é um advérbio, não um substantivo. Não pode ser referente de um adjetivo, pois não possui gênero nem número. A banca inclui essa opção para testar se o candidato reconhece a classe gramatical da palavra.

Conclusão

A questão exige que você identifique o referente de um adjetivo, aplicando a regra de concordância nominal e a coesão referencial. A palavra "parecida" concorda com "cara", pois é o núcleo do sujeito elíptico. As demais opções são substantivos ou advérbios que não exercem essa função no trecho.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece substantivos que aparecem antes no texto ("vida", "nascimento", "dia") para induzir você a escolher um termo que não é o referente. A dica é sempre perguntar: "o que começa a ficar parecida?" — a resposta é "a nossa cara".

PEGA ESSA DICA!

Em questões de concordância, identifique o núcleo do sujeito da oração em que o adjetivo ocorre. Se o sujeito for elíptico, busque o referente no período anterior.

Gabarito: letra D

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