Questão de Medicina — Epidemiologia — Avança SP 2024
Medicina›Epidemiologia
Código
qg089872
Banca
Avança SP
Órgão
Prefeitura de Paraty - RJ
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Médico
As teorias de prevenção de doenças fornecem um arcabouço conceitual para o desenvolvimento de estratégias de promoção da saúde e controle de doenças. Qual das seguintes teorias se concentra na modificação de comportamentos individuais por meio da educação em saúde e da comunicação persuasiva?
ATeoria da Multicausalidade.
BModelo da História Natural da Doença.
CModelo de Crenças em Saúde.
DTeoria da Ação Racional.
EModelo PRECEDE-PROCEDE.
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GabaritoC — Modelo de Crenças em Saúde.
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Teorias de prevenção de doenças e mudança de comportamento
Gabarito: letra C. O Modelo de Crenças em Saúde (Health Belief Model) é a teoria que se concentra na modificação de comportamentos individuais por meio da educação em saúde e da comunicação persuasiva, ao explicar a adoção de comportamentos preventivos com base na percepção de suscetibilidade, gravidade, benefícios e barreiras. As demais alternativas representam modelos mais amplos (multicausalidade, história natural da doença) ou com foco em outros aspectos (ação racional, PRECEDE-PROCEED).
O Modelo de Crenças em Saúde (MCS) é uma das teorias mais clássicas da psicologia da saúde e da educação em saúde. Ele foi desenvolvido na década de 1950 por psicólogos sociais do Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos (Hochbaum, Rosenstock e Kegels) para explicar por que as pessoas não aderiam a programas de prevenção, como o rastreamento de tuberculose. A premissa central é que a decisão de adotar um comportamento preventivo depende de quatro percepções subjetivas do indivíduo: (1) suscetibilidade percebida — a crença de que se está vulnerável à doença; (2) gravidade percebida — a crença de que a doença teria consequências sérias; (3) benefícios percebidos — a crença de que a ação preventiva é eficaz; e (4) barreiras percebidas — a crença de que os custos/obstáculos da ação são superáveis. Além disso, o modelo incorpora os "estímulos para ação" (cues to action), que são gatilhos externos ou internos que disparam a decisão — como uma campanha de mídia, um conselho médico ou um sintoma — e, em versões mais recentes, a autoeficácia (confiança na própria capacidade de executar o comportamento).
A educação em saúde e a comunicação persuasiva atuam exatamente sobre esses construtos: uma campanha que mostra a prevalência da doença aumenta a suscetibilidade percebida; um depoimento sobre sequelas aumenta a gravidade percebida; a demonstração de que a vacina é segura e eficaz aumenta os benefícios percebidos; e a oferta de vacinação gratuita e acessível reduz as barreiras percebidas. Por isso, o MCS é a teoria que melhor se encaixa na descrição do enunciado: ele é um modelo de nível individual, focado em crenças e atitudes, e não em determinantes sociais ou estruturais.
Para diferenciar as teorias, é útil compará-las:
Teoria/Modelo
Foco principal
Nível de intervenção
Multicausalidade
Interação de múltiplos fatores (agente, hospedeiro, ambiente) na ocorrência de doenças
Populacional/ecológico
História Natural da Doença
Evolução da doença no tempo, do período pré-patogênico ao desfecho
Populacional/clínico
Crenças em Saúde
Percepções individuais (suscetibilidade, gravidade, benefícios, barreiras) que influenciam a adoção de comportamentos preventivos
Individual
Ação Racional
Decisão comportamental baseada em atitudes e normas subjetivas, com intenção como preditor
Individual (cognitivo)
PRECEDE-PROCEED
Planejamento de programas de saúde com diagnóstico educacional, epidemiológico e organizacional
Comunitário/populacional
A pegadinha da questão está em distinguir o MCS da Teoria da Ação Racional (TAR). A TAR também é um modelo individual, mas seu foco é a intenção comportamental, formada pela atitude em relação ao comportamento e pela norma subjetiva (percepção da pressão social). Ela não enfatiza a educação em saúde e a comunicação persuasiva como mecanismos centrais, mas sim o processo racional de decisão. Já o MCS é explicitamente voltado para a promoção de comportamentos preventivos por meio de intervenções educativas e persuasivas, o que o torna a resposta correta.
Guarde a fronteira entre os modelos de nível individual (Crenças em Saúde e Ação Racional) e os modelos de nível populacional/ecológico (Multicausalidade, História Natural, PRECEDE-PROCEED): é exatamente nela que as alternativas se dividem.
Modelos de prevenção
1Nível individual
Crenças em Saúde
percepções + educação persuasiva
Ação Racional
intenção + normas sociais
2Nível populacional
Multicausalidade
História Natural da Doença
PRECEDE-PROCEDE
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A Teoria da Multicausalidade (ou modelo ecológico) explica a ocorrência de doenças pela interação de múltiplos fatores — agente etiológico, hospedeiro e ambiente —, sendo um modelo de nível populacional. Ela não se concentra na modificação de comportamentos individuais por meio de educação em saúde, mas sim na compreensão da cadeia causal das doenças. O erro está em confundir um modelo explicativo da doença com um modelo de intervenção comportamental.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O Modelo da História Natural da Doença descreve a evolução temporal da doença, desde o período pré-patogênico (interação agente-hospedeiro-ambiente) até o período patogênico (com as fases de doença subclínica, clínica e desfecho). Ele serve de base para os níveis de prevenção (primária, secundária e terciária), mas não é uma teoria de modificação de comportamentos individuais. O erro está em confundir um modelo descritivo da evolução da doença com um modelo de intervenção educativa.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O Modelo de Crenças em Saúde é a teoria que se concentra na modificação de comportamentos individuais por meio da educação em saúde e da comunicação persuasiva. Ele postula que a adoção de comportamentos preventivos depende das percepções de suscetibilidade, gravidade, benefícios e barreiras, além dos estímulos para ação. A educação em saúde e a comunicação persuasiva atuam diretamente sobre essas percepções, tornando o MCS a resposta correta.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A Teoria da Ação Racional (TAR) é um modelo de nível individual, mas seu foco é a intenção comportamental, formada pela atitude em relação ao comportamento e pela norma subjetiva. Ela não enfatiza a educação em saúde e a comunicação persuasiva como mecanismos centrais, mas sim o processo racional de decisão baseado em crenças e avaliações. O erro está em confundir um modelo de decisão racional com um modelo de intervenção educativa.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O Modelo PRECEDE-PROCEED é um modelo de planejamento de programas de saúde em nível comunitário/populacional. Ele envolve um diagnóstico completo (social, epidemiológico, educacional, organizacional) e a implementação de intervenções em múltiplos níveis. Embora inclua componentes educacionais, seu foco é o planejamento estruturado de programas, não a modificação de comportamentos individuais por meio de comunicação persuasiva. O erro está em confundir um modelo de planejamento com um modelo de mudança de comportamento individual.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre o Modelo de Crenças em Saúde e a Teoria da Ação Racional — ambos são modelos de nível individual, mas o primeiro é explicitamente voltado para a educação em saúde e a comunicação persuasiva, enquanto o segundo foca na intenção racional. Ao ver "comportamentos individuais", o candidato pode ser tentado a marcar a TAR, mas a chave está em "educação em saúde e comunicação persuasiva", que é a marca registrada do MCS. Com treino, você enxerga essa distinção de longe 💪.
PEGA ESSA DICA!
Para diferenciar os modelos, pergunte-se: "qual é o nível de intervenção?" Modelos individuais (Crenças em Saúde, Ação Racional) focam na psicologia do indivíduo; modelos populacionais (Multicausalidade, História Natural, PRECEDE-PROCEED) focam na coletividade ou no processo de planejamento. E, entre os individuais, lembre-se: MCS = percepções + educação persuasiva; TAR = intenção + normas sociais.