Questão de Medicina — Hematologia — Avança SP 2024
Medicina›Hematologia
Código
qg090063
Banca
Avança SP
Órgão
Prefeitura de Paraty - RJ
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Médico Plantonista Clínico Socorrista
O exame físico e a identificação de sinais semiológicos são fundamentais na avaliação de um paciente com hipocalemia. Sobre os principais sinais que podem ser observados nesse contexto, é correto afirmar que:
AA hipocalemia não apresenta manifestações clínicas e, portanto, o exame físico não é relevante para o diagnóstico.
BA hipertensão arterial é um sinal comum na hipocalemia e deve ser monitorada com atenção.
CA presença de hiperreflexia é um sinal inespecífico e não está associado à hipocalemia.
DO aumento do tônus muscular é frequentemente observado em pacientes com hipocalemia, indicando a gravidade da condição.
EA fraqueza muscular, a arritmia e os cãibras são sinais típicos da hipocalemia.
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GabaritoE — A fraqueza muscular, a arritmia e os cãibras são sinais típicos da hipocalemia.
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Hipocalemia: manifestações clínicas e exame físico
Gabarito: letra E. A hipocalemia, especialmente quando moderada a grave, manifesta-se com fraqueza muscular, arritmias e cãibras — sinais típicos e diretamente proporcionais ao grau de depleção de potássio, conforme a fisiopatologia do distúrbio eletrolítico. As demais alternativas invertem ou negam esses achados, sendo distratores clássicos.
A hipocalemia é definida como potássio sérico abaixo de 3,5 mEq/L. Em níveis leves (3,0–3,5 mEq/L), o paciente pode ser assintomático ou apresentar apenas fadiga. Porém, à medida que a depleção se aprofunda, os sintomas neuromusculares e cardíacos tornam-se evidentes e podem ser graves. O potássio é crucial para o potencial de repouso da membrana celular, especialmente em tecidos excitáveis como músculo esquelético, músculo liso e miocárdio. A hipocalemia hiperpolariza a membrana, dificultando a despolarização e a contração muscular — daí a fraqueza, a hiporreflexia e a paralisia ascendente.
No exame físico, os achados neurológicos incluem fraqueza muscular (geralmente quando K+ < 2,5 mEq/L, mas pode ocorrer com níveis mais altos em instalação aguda), paralisia ascendente que simula Guillain-Barré, diminuição dos reflexos tendinosos profundos (hiporreflexia, não hiperreflexia) e cãibras. A depleção grave também pode causar rabdomiólise e mioglobinúria. As manifestações cardíacas são as arritmias — desde ectopias atriais e ventriculares até taquicardia ventricular e fibrilação ventricular — e alterações eletrocardiográficas como achatamento/inversão da onda T, depressão do segmento ST e onda U.
A pressão arterial merece atenção especial: a depleção de potássio pode aumentar a pressão arterial se a ingesta de sódio não for restrita, e a hipertensão pode levantar suspeita de hiperaldosteronismo primário, síndrome de Cushing ou excesso aparente de mineralocorticoide. Por outro lado, pressões reduzidas sugerem abuso de diuréticos, diarreia (hipovolemia), síndromes de Bartter e Gitelman. Portanto, a hipertensão não é um sinal "comum" da hipocalemia em si, mas um achado que orienta a investigação etiológica.
A pegadinha central desta questão é a inversão de sinais neurológicos: a banca troca a hiporreflexia (correta) por hiperreflexia, e a fraqueza/hipotonia por aumento do tônus muscular. O candidato que decora apenas "hipocalemia causa fraqueza" pode acertar a letra E, mas quem entende o mecanismo fisiopatológico (hiperpolarização → dificuldade de despolarização → fraqueza e hiporreflexia) reconhece os distratores com segurança. Guarde o par: hipocalemia → hiporreflexia + fraqueza + arritmia + cãibra; hipercalemia → hiperreflexia (em fases iniciais) + fraqueza também, mas por mecanismo diferente (despolarização sustentada).
Sinal semiológico
Comportamento na hipocalemia
Mecanismo fisiopatológico
Reflexos tendinosos profundos
Hiporreflexia (diminuídos)
Hiperpolarização da membrana → dificuldade de despolarização
Tônus muscular
Hipotonia (diminuído)
Mesmo mecanismo: dificuldade de contração muscular
Força muscular
Fraqueza (paralisia ascendente em casos graves)
Hiperpolarização → falha na geração de potencial de ação
Ritmo cardíaco
Arritmias (ectopias, TV, FV)
Alteração do potencial de repouso do miocárdio
Cãibras
Presentes (com rabdomiólise em casos graves)
Distúrbio da contratilidade muscular
Pressão arterial
Variável (pode aumentar se ingesta de Na⁺ não restrita)
Não é sinal típico; orienta investigação etiológica
Sinais típicos da hipocalemia: Neuromusculares (Fraqueza muscular, Cãibras, Hipotonia, Hiporreflexia); Cardíacos (Arritmias, Onda U no ECG); Distratores invertidos (Hiperreflexia, Hipertonia)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que a hipocalemia não apresenta manifestações clínicas e que o exame físico é irrelevante. É o oposto da realidade: a hipocalemia tem manifestações clínicas importantes — fraqueza, arritmias, cãibras, paralisia — e o exame físico é fundamental para avaliar a gravidade e orientar a investigação. Apenas hipocalemias leves (K+ > 3,0 mEq/L) podem ser assintomáticas; as moderadas a graves são sintomáticas.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Diz que a hipertensão arterial é um sinal comum da hipocalemia. Na verdade, a depleção de potássio pode aumentar a pressão arterial em certas condições (se a ingesta de sódio não for restrita), mas a hipertensão não é um sinal "comum" ou característico da hipocalemia — é um achado que sugere causas específicas como hiperaldosteronismo primário. O erro está em generalizar: a hipocalemia não cursa tipicamente com hipertensão; o achado de hipertensão deve levantar suspeita de etiologias específicas.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Afirma que a hiperreflexia é um sinal inespecífico e não associado à hipocalemia. Há dois erros: (1) o sinal associado à hipocalemia é a hiporreflexia (diminuição dos reflexos tendinosos profundos), não a hiperreflexia; (2) a hiperreflexia, quando presente, não é um sinal da hipocalemia — ela é mais característica de outras condições, como hipercalemia em fases iniciais ou lesões do neurônio motor superior. A banca troca o prefixo "hipo" por "hiper", invertendo o sinal.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Diz que o aumento do tônus muscular é frequentemente observado na hipocalemia. É o contrário: a hipocalemia causa diminuição do tônus muscular (hipotonia) e fraqueza, devido à hiperpolarização da membrana que dificulta a contração. O aumento do tônus (hipertonia) não é um achado da hipocalemia. A banca inverte o tônus muscular, explorando a confusão com outros distúrbios.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa está correta ao listar fraqueza muscular, arritmia e cãibras como sinais típicos da hipocalemia. A fraqueza muscular é um dos principais sintomas, ocorrendo geralmente com K+ < 2,5 mEq/L (ou em níveis mais altos na instalação aguda). As arritmias cardíacas são manifestações cardíacas bem documentadas, desde ectopias até fibrilação ventricular. As cãibras também são descritas na depleção grave de potássio, juntamente com rabdomiólise. Esses três sinais são diretamente proporcionais ao grau de hipocalemia e constituem o quadro clínico típico.
Gabarito: letra E — a única alternativa que descreve corretamente os sinais típicos da hipocalemia: fraqueza muscular, arritmias e cãibras.