Uma criança de 4 anos apresenta episódios súbitos de perda de tônus muscular, com quedas ao solo, sem perda de consciência. Os episódios duram poucos segundos, ocorrem várias vezes ao dia e são desencadeados por frustração ou contrariedade. O exame neurológico interictal é normal. Qual a principal hipótese diagnóstica e a conduta terapêutica inicial recomendada?
AEpilepsia atônica; iniciar ácido valproico.
BSíncope vasovagal; orientar sobre medidas preventivas e evitar gatilhos.
CCataplexia; iniciar oxibato de sódio.
DCrise de perda de fôlego; tranquilizar os pais e orientar sobre a benignidade do quadro.
ETranstorno de ansiedade de separação; psicoterapia e orientação familiar.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoD — Crise de perda de fôlego; tranquilizar os pais e orientar sobre a benignidade do quadro.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Crise de perda de fôlego na infância
Gabarito: letra D. O quadro descrito — criança de 4 anos com episódios súbitos de perda de tônus muscular, quedas ao solo, sem perda de consciência, durando poucos segundos, várias vezes ao dia, desencadeados por frustração ou contrariedade, com exame neurológico interictal normal — é a clássica apresentação da crise de perda de fôlego (breath-holding spell), em sua forma pálida/atônica. A conduta inicial é tranquilizar os pais e orientar sobre a benignidade do quadro, sem necessidade de medicação anticrise. O diagnóstico é essencialmente clínico, e a distinção das crises epilépticas (como a atônica) é o ponto central que a banca explora.
A crise de perda de fôlego é um fenômeno paroxístico não epiléptico, comum em lactentes e pré-escolares (tipicamente entre 6 meses e 4-5 anos), caracterizado por episódios desencadeados por um estímulo emocional — frustração, dor, medo ou contrariedade. Existem duas formas principais: a cianótica, mais comum, em que a criança chora vigorosamente e, no pico da expiração, fica apneica, tornando-se cianótica e podendo perder a consciência; e a pálida (atônica), em que o gatilho emocional leva a uma resposta vagal exagerada, com bradicardia ou assistolia breve, hipotensão e perda súbita do tônus muscular, com queda ao solo — exatamente o que o enunciado descreve. Em ambas, a criança recupera a consciência rapidamente, em segundos, e o exame neurológico entre os episódios é normal.
O mecanismo fisiopatológico envolve um reflexo vagal exacerbado (na forma pálida) ou uma apneia prolongada com hipoxemia (na forma cianótica). Não há atividade epileptiforme no EEG, e o prognóstico é excelente: a maioria das crianças resolve espontaneamente até os 5-6 anos de idade, sem sequelas neurológicas ou risco aumentado de epilepsia. A conduta é essencialmente educativa: tranquilizar os pais, explicar a benignidade, orientar a não recompensar o comportamento e, nos episódios, deitar a criança de lado e não colocar objetos na boca. Não há indicação de fármacos anticrise, e o uso de medicação (como valproato ou oxibato) seria um erro grave, pois não se trata de epilepsia nem de narcolepsia.
A distinção crucial que a banca explora é entre a crise atônica epiléptica e a crise de perda de fôlego atônica. Na epilepsia atônica, as quedas são abruptas, sem gatilho emocional claro, podem ocorrer durante o sono ou em vigília sem fator precipitante, e frequentemente há outras manifestações epilépticas associadas (ausências, mioclonias) ou alterações no EEG. Na crise de perda de fôlego, o gatilho emocional é a chave do diagnóstico, a criança permanece consciente (embora possa parecer desligada) e o EEG é normal. A cataplexia, por sua vez, é um sintoma de narcolepsia, associada a episódios de perda de tônus desencadeados por emoções fortes (riso, surpresa), mas em crianças mais velhas e com outros sintomas de narcolepsia (sonolência diurna excessiva, paralisia do sono, alucinações hipnagógicas) — não é o caso de uma criança de 4 anos com episódios múltiplos ao dia e exame normal. A síncope vasovagal também é um diagnóstico diferencial, mas costuma ocorrer em crianças maiores e adolescentes, com pródromos (náuseas, sudorese, visão turva) e em situações ortostáticas, não tipicamente desencadeada por frustração em pré-escolar. O transtorno de ansiedade de separação não cursa com perda de tônus muscular e quedas.
Guarde a fronteira decisiva: gatilho emocional + ausência de perda de consciência + EEG normal + idade pré-escolar = crise de perda de fôlego (benigna). É exatamente nesse critério que as alternativas se dividem.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A epilepsia atônica é uma crise generalizada motora que causa perda súbita de tônus e queda, mas não é desencadeada por frustração ou contrariedade — ocorre espontaneamente, muitas vezes durante o sono ou em vigília sem fator precipitante. Além disso, o exame neurológico interictal normal não exclui epilepsia, mas a ausência de gatilho emocional e a idade (epilepsia atônica costuma iniciar em crianças mais velhas ou associada a síndromes epilépticas) afastam essa hipótese. O ácido valproico é um anticonvulsivante de amplo espectro, indicado para crises generalizadas, mas não é a conduta inicial para crise de perda de fôlego, que é benigna e não requer medicação. A banca troca o diagnóstico correto (crise de perda de fôlego) por uma crise epiléptica, induzindo o candidato a medicar um quadro benigno.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A síncope vasovagal é uma perda transitória de consciência por hipoperfusão cerebral, geralmente em crianças maiores e adolescentes, com pródromos (palidez, sudorese, náuseas) e desencadeada por estresse emocional, dor ou ortostatismo prolongado. Na crise de perda de fôlego pálida, a criança não perde a consciência — apenas o tônus muscular — e o gatilho é a frustração, não o ortostatismo. A idade (4 anos) e a ausência de pródromos autonômicos típicos afastam a síncope. A conduta de medidas preventivas e evitar gatilhos é genérica e não aborda a especificidade do quadro, que é benigno e autolimitado.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A cataplexia é a perda súbita do tônus muscular desencadeada por emoções fortes (riso, surpresa, raiva), mas é um sintoma da narcolepsia, que cursa com sonolência diurna excessiva, paralisia do sono e alucinações hipnagógicas. Em uma criança de 4 anos, a narcolepsia é rara, e o quadro descrito não apresenta os demais sintomas. O oxibato de sódio é um medicamento usado no tratamento da cataplexia em narcolepsia, mas não é indicado para crise de perda de fôlego, que é benigna e não requer tratamento farmacológico. A banca explora a semelhança entre o gatilho emocional da cataplexia e o da crise de perda de fôlego, mas a idade, a ausência de sonolência diurna e a benignidade do quadro apontam para o diagnóstico correto.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A crise de perda de fôlego (breath-holding spell) é um fenômeno paroxístico não epiléptico, comum em pré-escolares, caracterizado por episódios desencadeados por frustração ou contrariedade, com perda súbita de tônus muscular (forma pálida/atônica) ou apneia com cianose (forma cianótica), sem perda de consciência, durando segundos, com recuperação rápida e exame neurológico interictal normal. A conduta inicial é tranquilizar os pais e orientar sobre a benignidade do quadro, explicando que os episódios tendem a desaparecer espontaneamente até os 5-6 anos, sem sequelas. Não há indicação de medicação anticrise, e o manejo é essencialmente educativo. A alternativa espelha exatamente o diagnóstico e a conduta corretos.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O transtorno de ansiedade de separação é caracterizado por ansiedade excessiva e inadequada quando a criança se separa das figuras de apego, manifestando-se com choro, recusa escolar, queixas somáticas e medo de perder os pais. Não cursa com perda de tônus muscular ou quedas ao solo. A psicoterapia e a orientação familiar são condutas para transtornos de ansiedade, mas não se aplicam ao quadro descrito, que é um fenômeno paroxístico benigno, não um transtorno psiquiátrico. A banca tenta confundir o gatilho emocional (frustração) com um componente psicológico, mas a apresentação clínica é típica de crise de perda de fôlego.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a semelhança entre a crise de perda de fôlego atônica e a epilepsia atônica (ambas causam queda súbita) e entre o gatilho emocional da cataplexia (ambas são desencadeadas por emoções). O candidato que não conhece a crise de perda de fôlego tende a escolher a letra A (epilepsia atônica) ou C (cataplexia). A chave é lembrar que, na crise de perda de fôlego, não há perda de consciência, o gatilho é a frustração, e o quadro é benigno e autolimitado — sem necessidade de medicação. Com treino, você reconhece esse padrão de longe 💪.
PEGA ESSA DICA!
Para diferenciar as causas de queda súbita em crianças, monte um quadro mental com os critérios: gatilho, perda de consciência, duração, EEG e idade. Na crise de perda de fôlego: gatilho emocional, sem perda de consciência, segundos, EEG normal, pré-escolar. Na epilepsia atônica: sem gatilho, pode haver perda de consciência, segundos, EEG alterado, qualquer idade. Na cataplexia: gatilho emocional, sem perda de consciência, segundos, EEG normal, mas associada a narcolepsia (sonolência diurna). Na síncope: gatilho ortostático, com perda de consciência, segundos a minutos, EEG normal, crianças maiores. Esse quadro resolve a maioria das questões sobre o tema.
Gabarito: letra D — crise de perda de fôlego; tranquilizar os pais e orientar sobre a benignidade do quadro.