Escalas de classificação de fraturas na ortopedia
Gabarito: letra D. A escala de Schatzker é, de fato, específica para fraturas do planalto tibial, e o Tipo VI descreve uma fratura com desvio e comprometimento da integridade cortical e medular — ou seja, uma fratura bicondilar com dissociação metafisária. As demais alternativas contêm erros conceituais: a Gustilo-Anderson Grau III não é "menos de 1 cm" (isso é Grau I), a Tscherne C3 não é a descrição correta para fraturas fechadas (o grau 3 é o mais grave, mas a descrição dada mistura elementos), a AO não se baseia exclusivamente em critérios radiológicos e não é universal para coluna, e a Neer de quatro partes tem alto, não baixo, risco de necrose avascular.
As escalas de classificação de fraturas são ferramentas essenciais na ortopedia, pois padronizam a comunicação entre médicos, orientam a escolha do tratamento e ajudam a prever o prognóstico. Cada uma foi desenvolvida para um tipo específico de fratura ou para avaliar um aspecto particular da lesão, como o grau de lesão de partes moles, a complexidade do traço ou o comprometimento articular. Compreender a finalidade e os critérios de cada escala é fundamental para aplicá-las corretamente na prática clínica.
A classificação de Gustilo-Anderson, por exemplo, é a mais utilizada para fraturas expostas. Ela leva em consideração a energia do trauma, o grau de lesão de partes moles e o grau de contaminação, dividindo-se em três graus principais. O Grau I é uma fratura puntiforme, com solução de continuidade da pele menor que 1 cm e pequeno grau de contaminação. O Grau II tem exposição maior que 1 cm, mas permite fechamento borda a borda, com contaminação moderada. O Grau III é o mais grave, com exposição maior que 10 cm, extensa perda de revestimento cutâneo, trauma de alta energia e elevado grau de contaminação, subdividido em IIIA, IIIB e IIIC conforme a integridade do revestimento ósseo e a presença de lesão vascular.
Já a escala de Tscherne é aplicada tanto para fraturas fechadas quanto para expostas, avaliando o grau de lesão dos tecidos moles. Para fraturas fechadas, o Grau 0 indica ausência de lesão de partes moles; o Grau 1, contusão superficial; o Grau 2, trauma direto com abrasão profunda, contaminação ou síndrome compartimental iminente; e o Grau 3, contusão extensa ou esmagamento, com dano muscular possivelmente extenso e dano vascular ou síndrome compartimental. A alternativa B erra ao afirmar que "C3 indica lesão extensa de tecidos moles, incluindo músculo, pele e neurovascular" — essa descrição se aproxima do Grau 3 da Tscherne, mas a nomenclatura correta é "Grau 3", não "C3", e a descrição é incompleta, pois não menciona a possibilidade de síndrome compartimental.
A classificação AO (Arbeitsgemeinschaft für Osteosynthesefragen) é um sistema abrangente que classifica fraturas de ossos longos com base na localização, morfologia e complexidade do traço, dividindo-as em tipos A, B e C, com subgrupos. Ela não se baseia exclusivamente em critérios radiológicos — embora a radiografia seja o principal exame, a avaliação clínica e a tomografia computadorizada também são utilizadas para uma classificação precisa. Além disso, a AO não é universalmente aplicada a todas as fraturas, incluindo as de coluna, que possuem classificações específicas, como a de Magerl ou a de AO Spine.
A classificação de Schatzker, mencionada na alternativa D, é específica para fraturas do planalto tibial, dividindo-as em seis tipos. O Tipo I é uma fratura em cunha pura, sem depressão; o Tipo II é uma fratura em cunha com depressão; o Tipo III é uma depressão central pura; o Tipo IV é uma fratura do côndilo medial; o Tipo V é uma fratura bicondilar; e o Tipo VI é uma fratura com dissociação metafisária, ou seja, com desvio e comprometimento da integridade cortical e medular. Essa classificação é fundamental para o planejamento cirúrgico, pois cada tipo exige uma abordagem e um método de fixação diferentes.
Por fim, a classificação de Neer é utilizada para fraturas do úmero proximal, baseando-se no número de partes deslocadas (cabeça, tubérculo maior, tubérculo menor e diáfise). Uma fratura de quatro partes, como o próprio nome indica, envolve o deslocamento de todas as quatro partes, o que compromete severamente a vascularização da cabeça do úmero, resultando em alto risco de necrose avascular. A alternativa E erra ao afirmar que há "baixo risco de necrose avascular" — na verdade, o risco é alto, e essa é uma das principais complicações desse tipo de fratura.
A pegadinha central desta questão é a troca de características entre as escalas e a inversão de valores numéricos. O candidato que confunde o Grau I da Gustilo-Anderson (menos de 1 cm) com o Grau III, ou que não sabe que a fratura de quatro partes da Neer tem alto risco de necrose, acaba errando a questão. É essencial memorizar os critérios de cada escala e suas particularidades para responder corretamente.
Escala | Especificidade | Tipo/Grau citado | Descrição correta do tipo/grau |
|---|
Gustilo-Anderson | Fraturas expostas | Grau III | Exposição > 10 cm, trauma de alta energia, contaminação extensa (não "menos de 1 cm") |
Tscherne | Fraturas fechadas (e expostas) | Grau 3 (não "C3") | Contusão extensa/esmagamento, dano muscular extenso, possível síndrome compartimental |
AO | Ossos longos (não universal, não coluna) | Tipos A, B, C | Baseia-se em localização, morfologia e complexidade (não só radiológicos) |
Schatzker | Fraturas do planalto tibial | Tipo VI | Fratura com dissociação metafisária, desvio e comprometimento cortical e medular |
Neer | Fraturas do úmero proximal | Quatro partes | Alto risco de necrose avascular (não baixo) |
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a classificação de Gustilo-Anderson Grau III indica "uma lesão com menos de 1cm de exposição óssea e contaminação mínima". Isso está errado: o Grau III é o mais grave, com exposição maior que 10 cm, extensa perda de revestimento cutâneo, trauma de alta energia e elevado grau de contaminação. A descrição de "menos de 1 cm" e "contaminação mínima" corresponde ao Grau I, não ao Grau III. A banca inverteu os critérios entre os graus.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a escala de Tscherne é aplicada para fraturas fechadas, classificando-as em função do grau de lesão dos tecidos moles, onde "C3 indica lesão extensa de tecidos moles, incluindo músculo, pele e neurovascular". Há dois erros: primeiro, a nomenclatura correta é "Grau 3", não "C3"; segundo, a descrição é incompleta, pois o Grau 3 da Tscherne para fraturas fechadas também inclui a possibilidade de síndrome compartimental, além de dano muscular extenso e dano vascular. A alternativa simplifica demais e usa uma nomenclatura incorreta.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a classificação AO é utilizada universalmente para todas as fraturas, incluindo as de coluna, baseando-se exclusivamente em critérios radiológicos. Isso é falso por dois motivos: primeiro, a AO não é universal para todas as fraturas — as fraturas de coluna possuem classificações específicas, como a de Magerl ou AO Spine; segundo, a AO não se baseia exclusivamente em critérios radiológicos, pois a avaliação clínica e a tomografia computadorizada também são importantes para uma classificação precisa. A alternativa generaliza e simplifica demais o sistema AO.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa afirma que a escala de Schatzker é específica para fraturas do planalto tibial, e que uma classificação Tipo VI indica uma fratura com desvio e comprometimento da integridade cortical e medular. Isso está correto: a classificação de Schatzker é, de fato, específica para fraturas do planalto tibial, dividindo-as em seis tipos. O Tipo VI é uma fratura com dissociação metafisária, ou seja, com desvio e comprometimento da integridade cortical e medular, sendo a mais grave e complexa. A alternativa descreve corretamente a escala e o Tipo VI.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a classificação de Neer é utilizada para fraturas do úmero proximal, onde uma fratura de quatro partes indica uma fratura intracapsular com baixo risco de necrose avascular da cabeça do úmero. O erro está na última parte: uma fratura de quatro partes da Neer tem alto risco de necrose avascular, não baixo. Isso ocorre porque o deslocamento das quatro partes compromete severamente a vascularização da cabeça do úmero, que é suprida principalmente pela artéria circunflexa anterior. A alternativa inverte o risco, o que é uma pegadinha clássica.
Gabarito: letra D