Seu Manuel era português e tinha um
açougue. Acordava cedo e trabalhava duro e foi
assim que educou os filhos e conseguiu até que
Joaquim, o Joca, se formasse em economia na
PUC e fizesse mestrado em Harvard. Nem no dia
da chegada do Joca dos Estados Unidos, onde
ganhara nota altíssima com sua dissertação de
mestrado Viés restritivo diagonal e viés
distensivo horizontal nas economias emergentes,
o seu Manuel deixou de trabalhar. Tanto que,
depois da recepção no aeroporto, o Joca foi direto
para o açougue abraçar o pai, nem se importando
com o avental sujo de sangue contra o seu
Armani.
Ficou contando do sucesso da sua
dissertação para o seu Manuel enquanto este
continuava a servir a freguesia, pois era um dia
movimentado no açougue. Foi quando Joca viu,
horrorizado, que toda vez que colocava a carne
na balança, seu Manuel fingia distração e
pressionava o prato da balança com seu facão,
aumentando o peso. Não quis fazer uma cena na
frente dos fregueses mas, assim que pôde,
protestou. Que imoralidade era aquela? O pai não
via que aquilo era desonesto? E, mesmo, o
aumento no peso era tão pequeno que não
compensava o risco de um freguês descobrir e
fazer um escândalo. O pai não tinha vergonha?
Ó desgraçado, estás a cagare no prato em
que comes — ponderou seu Manuel. E explicou
que eram aquela pequena pressão do facão e
aquele pequeno aumento no peso, repetidos
várias vezes ao dia, durante anos, que tinham
pago os estudos do Joca, inclusive o mestrado em
Harvard e o Armani. Ou, continuou seu Manuel
(em outras palavras, é claro), ele acreditava que
cobrando preços justos, contentando-se com
lucros honestos e, acima de tudo, tendo
vergonha, o Brasil teria produzido a elite que
produzira, inclusive economistas tão bons e tão elegantes para lhe dizer o que fazer? O Joca podia
escolher entre trabalhar no açougue ou no
governo. Seria rico e feliz, desde que nunca mais
questionasse o facão.
Joca, apesar de fictício, hoje é
funcionário do Banco Central, onde sempre
justifica algum episódio de cegueira conveniente
ou moral relativa lembrando a pressão do facão
do seu Manuel no prato da balança. Que ele
chama de viés conjuntural perpendicular.
VERISSIMO, L. F. Verissimo antológico: meio
século de crônicas, ou coisa parecida. São Paulo:
Objetiva, 2020.
A palavra “seu”, utilizada para se referir ao personagem Manuel no texto — “Seu Manuel era português e tinha um açougue.” —, desempenha a função de:
Aum conectivo intraoracional.
Buma forma de tratamento.
Cum qualificador nominal.
Dum modificador verbal.
Eum denotador de ação.
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GabaritoB — uma forma de tratamento.
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Função da Palavra "Seu" no Texto
Gabarito: letra B. No trecho "Seu Manuel era português e tinha um açougue", a palavra "seu" funciona como forma de tratamento — um pronome de tratamento usado de maneira cerimoniosa e respeitosa para se referir a uma pessoa, equivalente a "senhor". A pista decisiva está no próprio texto, que apresenta o personagem como "Seu Manuel", um tratamento típico da língua portuguesa para homens mais velhos ou de respeito, e que se repete ao longo da crônica: "o seu Manuel deixou de trabalhar", "abraçar o pai", "para o seu Manuel enquanto este continuava a servir a freguesia".
O Comando da Questão
A questão pede que se identifique a função que a palavra "seu" desempenha no contexto específico do texto. Isso é diferente de pedir a classificação morfológica isolada. Aqui, o foco está no uso que o autor faz da palavra: não se trata de um pronome possessivo (que indicaria posse, como em "seu carro"), mas de um pronome de tratamento, que tem a função de tratar ou referir-se a alguém de forma respeitosa. O comando "desempenha a função de" direciona o olhar para o papel semântico-pragmático no texto, não para a classe gramatical em abstrato.
O Texto e a Pista Decisiva
O texto de Luis Fernando Verissimo apresenta "Seu Manuel" como um personagem português, dono de um açougue. O uso de "Seu" antes do nome próprio é uma marca de tratamento respeitoso e afetuoso, comum no português brasileiro, especialmente para se referir a pessoas mais velhas ou de uma certa posição social. Essa leitura é confirmada pelo contexto: o filho, Joca, formado e com mestrado em Harvard, chama o pai de "seu Manuel", e o narrador também o trata assim. A repetição do tratamento ao longo do texto — "o seu Manuel deixou de trabalhar", "para o seu Manuel enquanto este continuava a servir a freguesia" — reforça que "seu" não indica posse, mas sim uma forma de tratamento.
"Seu Manuel era português e tinha um açougue."
A função de tratamento é evidenciada pela possibilidade de substituição por "senhor": "O senhor Manuel era português...". Essa substituição mantém o sentido e o tom de respeito, o que não ocorreria se "seu" fosse possessivo ("o Manuel dele") ou qualquer outra classe.
A Técnica para Resolver
A armadilha central desta questão é a polissemia da palavra "seu". Em português, "seu" pode ser:
Pronome possessivo (de 3ª pessoa): indica posse (ex.: "Ele pegou seu livro").
Forma de tratamento (abreviação de "senhor"): usada antes de nome próprio ou cargo (ex.: "Seu José", "Seu doutor").
A banca explora exatamente essa ambiguidade. As alternativas A, C, D e E oferecem funções que não se aplicam a "seu" no contexto, tentando confundir o candidato que não percebe o uso específico. A chave é analisar o contexto: "seu" está antes de um nome próprio (Manuel), o que é uma característica típica do tratamento, e não antes de um substantivo comum que indicaria posse.
Análise das Alternativas
"Seu" (polissemia)
1Pronome possessivo
Indica posse
Ex.: "pegou seu livro"
2Forma de tratamento
Equivale a "senhor"
Antes de nome próprio
Ex.: "Seu Manuel"
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: troca de conceito. Um conectivo intraoracional é uma palavra que liga orações ou termos dentro de uma frase (como "e", "mas", "porque"). "Seu" não estabelece nenhuma conexão sintática entre termos; ele apenas acompanha o nome "Manuel". A alternativa confunde a função de um conectivo com a de um pronome de tratamento.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Forma de tratamento. Como demonstrado, "Seu" antes de "Manuel" é uma forma respeitosa de se referir ao personagem, equivalente a "senhor". O texto confirma essa função ao usar o tratamento de forma consistente e ao permitir a substituição por "senhor" sem alteração de sentido.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: troca de conceito. Um qualificador nominal é um termo que atribui uma qualidade ao substantivo, como um adjetivo (ex.: "homem bom"). "Seu" não atribui uma qualidade a Manuel; ele apenas o trata de forma respeitosa. A alternativa confunde a função de um adjetivo com a de um pronome de tratamento.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: troca de conceito. Um modificador verbal é um termo que altera o sentido do verbo, como um advérbio (ex.: "corre rapidamente"). "Seu" não modifica nenhum verbo; ele está ligado ao substantivo próprio "Manuel". A alternativa confunde a função de um advérbio com a de um pronome de tratamento.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: troca de conceito. Um denotador de ação é um termo que indica uma ação, como um verbo (ex.: "correr", "pular"). "Seu" não indica nenhuma ação; ele é uma palavra invariável que acompanha um nome. A alternativa confunde a função de um verbo com a de um pronome de tratamento.
Conclusão
A questão testa a capacidade de identificar o uso contextual de uma palavra polissêmica. A palavra "seu" pode ser possessiva ou de tratamento, e o contexto — antes de um nome próprio, com tom de respeito — determina a função correta. Ao analisar as alternativas, a única que se sustenta é a letra B, pois "Seu Manuel" é claramente uma forma de tratamento.
PEGA ESSA DICA!
Ao encontrar palavras polissêmicas (como "seu", "que", "como"), sempre verifique o contexto para determinar a função. Pergunte: "essa palavra indica posse, tratamento, qualidade, ação ou conexão?" A resposta estará no uso que o autor faz dela no texto.