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Questão de Português — Interpretação de Textos — Avança SP 2024

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
qg096805
Banca
Avança SP
Órgão
CISBRA - SP
Ano
2024
Nível
Superior

Leia o texto a seguir para responder a questão. 



O facão do seu Manuel



        Seu Manuel era português e tinha um açougue. Acordava cedo e trabalhava duro e foi assim que educou os filhos e conseguiu até que Joaquim, o Joca, se formasse em economia na PUC e fizesse mestrado em Harvard. Nem no dia da chegada do Joca dos Estados Unidos, onde ganhara nota altíssima com sua dissertação de mestrado Viés restritivo diagonal e viés distensivo horizontal nas economias emergentes, o seu Manuel deixou de trabalhar. Tanto que, depois da recepção no aeroporto, o Joca foi direto para o açougue abraçar o pai, nem se importando com o avental sujo de sangue contra o seu Armani.



        Ficou contando do sucesso da sua dissertação para o seu Manuel enquanto este continuava a servir a freguesia, pois era um dia movimentado no açougue. Foi quando Joca viu, horrorizado, que toda vez que colocava a carne na balança, seu Manuel fingia distração e pressionava o prato da balança com seu facão, aumentando o peso. Não quis fazer uma cena na frente dos fregueses mas, assim que pôde, protestou. Que imoralidade era aquela? O pai não via que aquilo era desonesto? E, mesmo, o aumento no peso era tão pequeno que não compensava o risco de um freguês descobrir e fazer um escândalo. O pai não tinha vergonha?



        Ó desgraçado, estás a cagare no prato em que comes — ponderou seu Manuel. E explicou que eram aquela pequena pressão do facão e aquele pequeno aumento no peso, repetidos várias vezes ao dia, durante anos, que tinham pago os estudos do Joca, inclusive o mestrado em Harvard e o Armani. Ou, continuou seu Manuel (em outras palavras, é claro), ele acreditava que cobrando preços justos, contentando-se com lucros honestos e, acima de tudo, tendo vergonha, o Brasil teria produzido a elite que produzira, inclusive economistas tão bons e tão elegantes para lhe dizer o que fazer? O Joca podia escolher entre trabalhar no açougue ou no governo. Seria rico e feliz, desde que nunca mais questionasse o facão.



        Joca, apesar de fictício, hoje é funcionário do Banco Central, onde sempre justifica algum episódio de cegueira conveniente ou moral relativa lembrando a pressão do facão do seu Manuel no prato da balança. Que ele chama de viés conjuntural perpendicular.


VERISSIMO, L. F. Verissimo antológico: meio século de crônicas, ou coisa parecida. São Paulo: Objetiva, 2020. 

Os excertos a seguir, retirados do texto, narram acontecimentos de diferentes formas. Analise-os e assinale a alternativa em que a narração ocorre em discurso indireto livre.
  1. AFicou contando do sucesso da sua dissertação para o seu Manuel enquanto este continuava a servir a freguesia, pois era um dia movimentado no açougue.
  2. BNão quis fazer uma cena na frente dos fregueses mas, assim que pôde, protestou. Que imoralidade era aquela? O pai não via que aquilo era desonesto?
  3. CÓ desgraçado, estás a cagare no prato em que comes — ponderou seu Manuel.
  4. DE explicou que eram aquela pequena pressão do facão e aquele pequeno aumento no peso, repetidos várias vezes ao dia, durante anos, que tinham pago os estudos do Joca, inclusive o mestrado em Harvard e o Armani.
  5. EQue ele chama de viés conjuntural perpendicular.
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GabaritoB — Não quis fazer uma cena na frente dos fregueses mas, assim que pôde, protestou. Que imoralidade era aquela? O pai não via que aquilo era desonesto?

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Discurso Indireto Livre na Crônica de Verissimo

Gabarito: letra B. O trecho em discurso indireto livre é aquele em que a fala ou o pensamento da personagem se funde à voz do narrador, sem verbos introdutórios (como "disse", "perguntou") nem travessões ou aspas. Na alternativa B, as perguntas "Que imoralidade era aquela? O pai não via que aquilo era desonesto?" são os pensamentos de Joca, mas aparecem sem nenhum marcador de discurso direto ou indireto — é o narrador que as apresenta diretamente, como se fossem dele, caracterizando o discurso indireto livre. Como se lê no texto: "Não quis fazer uma cena na frente dos fregueses mas, assim que pôde, protestou. Que imoralidade era aquela? O pai não via que aquilo era desonesto?" — as interrogações são o pensamento do personagem, mas não há "pensou" ou "perguntou" antes delas.

O Comando

A questão pede que você identifique, entre cinco excertos, aquele em que a narração ocorre em discurso indireto livre. Isso é uma questão de conceito aplicado ao texto: você precisa saber a definição de discurso indireto livre e reconhecer suas marcas no trecho. Não é uma questão de compreensão literal (o que o texto diz), mas de classificação do discurso — ou seja, de gramática textual aplicada.

O Texto

A crônica narra a história de seu Manuel, um açougueiro português que, para pagar os estudos do filho Joca (economista formado em Harvard), adulterava a balança pressionando o prato com o facão. O conflito central é a discussão entre pai e filho sobre a moralidade desse ato. O trecho da alternativa B está no momento em que Joca, recém-chegado dos EUA, flagra a fraude e protesta com o pai. As perguntas "Que imoralidade era aquela? O pai não via que aquilo era desonesto?" são os pensamentos de Joca, mas o narrador as apresenta sem nenhum verbo de elocução (como "pensou" ou "perguntou") e sem aspas ou travessão. É exatamente essa fusão entre a voz do narrador e a voz da personagem que caracteriza o discurso indireto livre.

A Técnica que Decide

Para resolver, você precisa dominar as três formas de discurso:

  • Discurso direto: o narrador dá a palavra à personagem, com verbos de elocução ("disse", "perguntou") e travessão ou aspas. Ex.: "Ó desgraçado, estás a cagare no prato em que comes — ponderou seu Manuel."

  • Discurso indireto: o narrador reproduz a fala da personagem com suas próprias palavras, usando verbos de elocução e conjunções integrantes ("que", "se"). Ex.: "E explicou que eram aquela pequena pressão do facão..."

  • Discurso indireto livre: o narrador incorpora a fala ou o pensamento da personagem sem nenhum marcador formal. Não há verbo de elocução, não há travessão, não há aspas. A voz da personagem se confunde com a do narrador. É o que ocorre em "Que imoralidade era aquela? O pai não via que aquilo era desonesto?" — as perguntas são de Joca, mas o narrador as apresenta diretamente, como se fossem dele.

A pegadinha central é confundir discurso indireto livre com discurso direto (que tem travessão) ou com discurso indireto (que tem verbo de elocução). A alternativa B é a única que não tem nenhum desses marcadores, mas ainda assim expressa o pensamento da personagem.

Análise das Alternativas

Formas de discurso
  • 1Direto
    • Verbo de elocução ("disse", "ponderou")
    • Travessão ou aspas
    • Ex.: "Ó desgraçado... — ponderou seu Manuel"
  • 2Indireto
    • Verbo de elocução + conjunção "que"
    • Narrador reproduz com suas palavras
    • Ex.: "E explicou que eram aquela pequena pressão..."
  • 3Indireto livre
    • Sem verbo de elocução
    • Sem travessão ou aspas
    • Voz da personagem funde-se à do narrador
    • Ex.: "Que imoralidade era aquela? O pai não via..."
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Alternativa A — ❌ Incorreta

"Ficou contando do sucesso da sua dissertação para o seu Manuel enquanto este continuava a servir a freguesia, pois era um dia movimentado no açougue."

Este trecho é uma narração pura, sem discurso direto ou indireto. O narrador apenas descreve a ação de Joca (contar o sucesso da dissertação) e o contexto (dia movimentado). Não há fala ou pensamento da personagem sendo reproduzido. Erro: não há discurso algum, apenas narração.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Não quis fazer uma cena na frente dos fregueses mas, assim que pôde, protestou. Que imoralidade era aquela? O pai não via que aquilo era desonesto?"

Aqui, o narrador relata a ação de Joca (não quis fazer cena, protestou) e, em seguida, insere as perguntas "Que imoralidade era aquela? O pai não via que aquilo era desonesto?" — que são os pensamentos de Joca. Não há verbo de elocução (como "pensou" ou "perguntou"), não há travessão, não há aspas. A voz da personagem se funde à do narrador, caracterizando o discurso indireto livre. É a única alternativa que apresenta essa fusão.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Ó desgraçado, estás a cagare no prato em que comes — ponderou seu Manuel."

Este é um exemplo clássico de discurso direto: a fala de seu Manuel é reproduzida literalmente, com travessão e verbo de elocução ("ponderou"). Erro: é discurso direto, não indireto livre.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"E explicou que eram aquela pequena pressão do facão e aquele pequeno aumento no peso, repetidos várias vezes ao dia, durante anos, que tinham pago os estudos do Joca, inclusive o mestrado em Harvard e o Armani."

Este é um exemplo de discurso indireto: o narrador reproduz a fala de seu Manuel com suas próprias palavras, usando o verbo de elocução "explicou" e a conjunção integrante "que". Erro: é discurso indireto, não indireto livre.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Que ele chama de viés conjuntural perpendicular."

Este trecho é uma narração com uma oração adjetiva ("que ele chama"). Não há fala ou pensamento de personagem sendo reproduzido. É apenas a voz do narrador explicando como Joca chama a pressão do facão. Erro: não há discurso direto, indireto ou indireto livre — apenas narração.

Conclusão

A alternativa B é a única que apresenta discurso indireto livre, pois as perguntas "Que imoralidade era aquela? O pai não via que aquilo era desonesto?" são os pensamentos de Joca, mas aparecem sem verbo de elocução, travessão ou aspas, fundindo-se à voz do narrador. As demais alternativas ou são narração pura (A e E), ou discurso direto (C), ou discurso indireto (D).

PEGA ESSA DICA!

Para identificar discurso indireto livre, procure por trechos em que a fala ou o pensamento da personagem aparece sem marcadores formais (verbo de elocução, travessão, aspas). Se houver "disse", "perguntou", "ponderou" ou travessão, não é indireto livre.

Gabarito: letra B

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