A púrpura tíria foi um pigmento roxo
criado na Fenícia há 3,5 mil anos e usado por
fenícios, gregos e romanos – bem como por
outras civilizações que vieram depois no
Meditarrâneo – até o século 15. Apesar de ter se
tornado a marca registrada da nobreza, tem uma
origem pouco glamourosa.
Para os padrões da época, sua fabricação
exigia conhecimentos avançados de química e
biologia, e uma matéria-prima exótica: o muco
de moluscos chamados búzios. A extração de 1,4
g de pigmento – quantidade suficiente para tingir
apenas o acabamento de uma única peça de roupa
–, exigia 12 mil búzios.
Na hora de coletar o muco, havia duas
opções: “ordenhar” o bicho, uma opção
trabalhosa, mas sustentável – porque era possível
reaproveitá-los –, ou simplesmente esmagá-los.
O líquido obtido inicialmente é transparente.
Mas, ao ser exposto ao Sol, chega a uma cor
arroxeada.
A tonalidade final da púrpura tíria variava
entre violeta e vinho, a depender da espécie de
búzio, de variações no processo de produção e do
número de vezes que se tingia o tecido. Depois
de prontas, as peças não desbotavam facilmente
– na verdade, conta-se que ficavam mais
brilhantes com o tempo. Até existiam imitações
de baixo custo, mas as peculiaridades do
pigmento original tornavam fácil reconhecê-las.
Uma dessas peculiaridades era o cheiro
insuportável de peixe podre, que impregnava as
vestes por anos. Mesmo as regiões litorâneas
onde a púrpura tíria era produzida acabavam
infestadas pelo fedor dos moluscos macerados
apodrecendo em tanques – não ajudava que
alguns preparos levassem também urina e
fungos.
Mesmo com todo esse processo
desagradável – ou, na verdade, justamente por
causa dele – o pigmento entrou para história como o mais caro já fabricado: chegou a valer
mais do que seu peso em ouro.
Qualquer coisa tingida de púrpura era um
grande marcador de riqueza. Aliás, é por isso que
não existem bandeiras antigas com essa cor: uma
bandeira precisa, por definição, ser facilmente
replicável – coisa que é impossível se você
depende do pigmento mais caro do mundo.
LOBATO, B. Púrpura tíria: o pigmento que fedia peixe podre e custava seu peso em ouro. Revista Superinteressante (Adaptado). Disponível em <https://super.abril.com.br/historia/purpura-tiria-opigmento-que-fedia-peixe-podre-e-custava-seu-peso-emouro/>
O excerto a seguir é introduzido por uma oração subordinada adverbial concessiva: “Apesar de ter se tornado a marca registrada da nobreza, tem uma origem pouco glamourosa.” Assinale a alternativa em que ocorre a substituição da locução “apesar de” por outra expressão de mesmo valor, com todas as modificações necessárias para manter a adequação da sentença.
AEmbora ter se tornado a marca registrada da nobreza, tem uma origem pouco glamourosa.
BConsoante tenha se tornado a marca registrada da nobreza, tem uma origem pouco glamourosa.
CAinda que tenha se tornado a marca registrada da nobreza, tem uma origem pouco glamourosa.
DAlém de ter se tornado a marca registrada da nobreza, tem uma origem pouco glamourosa.
EContudo tenha se tornado a marca registrada da nobreza, tem uma origem pouco glamourosa.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoC — Ainda que tenha se tornado a marca registrada da nobreza, tem uma origem pouco glamourosa.
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Substituição de locução concessiva: "apesar de" → "ainda que"
Gabarito: letra C. A alternativa C substitui corretamente "apesar de" por "ainda que", mantendo o valor concessivo e ajustando o verbo para o subjuntivo ("tenha se tornado"), como exige a norma culta. As demais alternativas ou empregam conjunções de outro valor semântico (conformidade, adição, adversidade) ou mantêm o verbo no infinitivo, o que torna a construção inadequada.
O comando da questão
O enunciado pede uma substituição da locução "apesar de" por outra expressão de mesmo valor — ou seja, que preserve a relação de concessão (fato que não impede o que se declara na oração principal). Além disso, exige que sejam feitas "todas as modificações necessárias para manter a adequação da sentença". Isso significa que não basta trocar a conjunção: é preciso também ajustar a forma verbal, pois "apesar de" rege infinitivo, enquanto as conjunções concessivas (embora, ainda que, conquanto) exigem o subjuntivo.
O texto e a oração em análise
No texto-base, a frase é:
"Apesar de ter se tornado a marca registrada da nobreza, tem uma origem pouco glamourosa."
A oração "Apesar de ter se tornado a marca registrada da nobreza" é uma subordinada adverbial concessiva reduzida de infinitivo: expressa uma ideia que contrasta com a principal ("tem uma origem pouco glamourosa"), mas não a impede. O valor concessivo é o núcleo da questão.
A técnica: valor semântico das conjunções
Para resolver, é preciso conhecer o valor semântico das principais conjunções:
Conjunção
Valor
Exemplo
apesar de, ainda que, embora, conquanto
Concessão (fato que não impede a principal)
Ainda que chova, irei.
consoante, conforme, segundo
Conformidade (de acordo com)
Consoante o relatório, tudo está certo.
além de
Adição (soma)
Além de estudar, trabalho.
contudo, porém, todavia
Adversidade (oposição, mas coordenativa)
Estudei, contudo não passei.
A pegadinha da banca está em oferecer conjunções de outros valores (B, D, E) e em manter o verbo no infinitivo (A), o que quebra a adequação da sentença.
Análise das alternativas
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: troca de vocábulo + inadequação verbal. "Embora" é concessiva, mas exige verbo no subjuntivo ("tenha se tornado"), não no infinitivo ("ter se tornado"). A frase "Embora ter se tornado..." é agramatical. A banca trocou a locução, mas não fez a modificação necessária no verbo.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: troca de valor semântico. "Consoante" é conjunção de conformidade ("de acordo com"), não de concessão. A frase "Consoante tenha se tornado..." indicaria que a origem pouco glamourosa está em conformidade com o fato de ter se tornado marca da nobreza — o que inverte o sentido original.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Correta. "Ainda que" é conjunção concessiva e exige verbo no subjuntivo ("tenha se tornado"). A substituição preserva o valor de concessão e a adequação gramatical. Compare:
Original: "Apesar de ter se tornado..." (infinitivo)
Substituída: "Ainda que tenha se tornado..." (subjuntivo)
Ambas expressam que o fato de ter se tornado marca da nobreza não impede a origem pouco glamourosa.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: troca de valor semântico. "Além de" é conjunção de adição (soma), não de concessão. A frase "Além de ter se tornado..." indicaria que a origem pouco glamourosa é somada ao fato de ter se tornado marca da nobreza, e não que contrasta com ele.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: troca de valor semântico + inadequação sintática. "Contudo" é conjunção adversativa (oposição), mas é coordenativa, não subordinativa. Não pode introduzir uma oração subordinada adverbial. Além disso, exigiria verbo no indicativo ou subjuntivo, mas a construção "Contudo tenha se tornado..." é inadequada.
Conclusão
A única alternativa que mantém o valor concessivo e faz as modificações necessárias é a letra C. Para questões de substituição, teste sempre: (1) o valor semântico da conjunção é o mesmo? (2) a forma verbal foi ajustada à nova conjunção? (3) a construção é gramatical? Se qualquer resposta for não, a alternativa está errada.
PEGA ESSA DICA!
Memorize as conjunções concessivas: embora, ainda que, conquanto, mesmo que, se bem que, apesar de. Todas exigem verbo no subjuntivo (exceto "apesar de", que exige infinitivo).