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Questão de Português — Interpretação de Textos — Avança SP 2024

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
qg097533
Banca
Avança SP
Órgão
Prefeitura de Cabreúva - SP
Ano
2024
Nível
Superior

Leia o texto a seguir para responder à questão.


O suicida e o computador 


    Depois de fazer o laço da forca e colocar uma cadeira embaixo, o escritor sentou-se atrás da sua mesa de trabalho, ligou o computador e digitou: “No fundo, no fundo, os escritores passam o tempo todo redigindo a sua nota de suicida. Os que se suicidam mesmo são os que a terminam mais cedo.” 

    

    Levantou-se, subiu na cadeira sob a forca e colocou a forca no pescoço. Depois retirou a forca do pescoço, desceu da cadeira, voltou ao computador e apagou o segundo “no fundo”. Ficava mais enxuto. Mais categórico. Releu a nota e achou que estava curta. Pensou um pouco, depois acrescentou: “Há os que se suicidam antes para escapar da terrível agonia de encontrar um final para a nota. O suicídio substitui o final. O suicídio é o final.” 


    Levantou-se, subiu na cadeira, colocou a forca no pescoço e ficou pensando. Lembrou-se de uma frase de Borges. Encaixa, pensou, retirando a corda do pescoço, descendo da cadeira e voltando ao computador. Digitou: “Borges disse que o escritor publica seus livros para livrar-se deles, senão passaria o resto da vida reescrevendo-os. O suicídio substitui a publicação. O suicídio é a publicação. No caso, o livro livra-se do escritor.” 


    Levantou-se, subiu na cadeira, mas desceu da cadeira antes de colocar a forca no pescoço. Lembrara-se de outra coisa. Voltou ao computador e, entre o penúltimo e o último parágrafo, inseriu: “Há escritores que escrevem um grande livro, ou uma grande nota de suicida, e depois nunca mais conseguem escrever outro. Atribuem a um bloqueio, ao medo do fracasso. Não é nada disso. É que escreveram a nota, mas esqueceram-se de se suicidar. Passam o resto da vida sabendo que faltou alguma coisa na sua obra e não sabendo o que é. Faltou o suicídio.” 


    Levantou-se, ficou olhando a tela do computador, depois sentou-se de novo. Digitou: “No fundo, no fundo, a agonia é saber quando se terminou. Há os que não sabem quando chegaram ao final da sua nota de suicida. Geralmente, são escritores de uma obra extensa. A crítica elogia sua prolixidade, a sua experimentação com formas diversas. Não sabe que ele não consegue é terminar a nota.” Dessa vez não se levantou. Ficou olhando para a tela, pensando. Depois acrescentou: “É claro que o computador agravou a agonia. Talvez uma nota de suicida definitiva só possa ser manuscrita ou datilografada à moda antiga, quando o medo de borrar o papel com correções e deixar uma impressão de desleixo para a posteridade leva o autor a ser preciso e sucinto. Tese: é impossível escrever uma nota de suicida num computador.”  Era isso? Ele releu o que tinha escrito. Apagou o segundo “no fundo”. Era isso. Por via das dúvidas, guardou o texto na memória do computador. No dia seguinte o revisaria. E foi dormir.


VERISSIMO, L. F. Verissimo antológico: meio século de crônicas, ou coisa parecida. São Paulo: Objetiva, 2020. 

Ao dizer que “é impossível escrever uma nota de suicida num computador”, o personagem principal:
  1. Aconclui a nota que estava escrevendo e se vê pronto para se suicidar.
  2. Bconsidera que o meio utilizado para a escrita de sua nota dificulta chegar à resolução final desejada.
  3. Cconsidera que o fato de a nota ter sido escrita no computador é indiferente para o suicídio.
  4. Ddepende exclusivamente de uma nota escrita à moda antiga para concluir seu suicídio.
  5. Econclui que nem todas as notas finalizadas levam seus autores ao suicídio.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — considera que o meio utilizado para a escrita de sua nota dificulta chegar à resolução final desejada.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A fala do personagem sobre a nota de suicida no computador

Gabarito: letra B. Ao dizer que “é impossível escrever uma nota de suicida num computador”, o personagem considera que o meio utilizado para a escrita de sua nota dificulta chegar à resolução final desejada. A fala é uma tese que ele desenvolve ao longo do texto: o computador, por permitir infinitas correções, impede que o escritor chegue a um final definitivo. A passagem que ancora essa leitura está no trecho em que ele escreve: “É claro que o computador agravou a agonia. Talvez uma nota de suicida definitiva só possa ser manuscrita ou datilografada à moda antiga, quando o medo de borrar o papel com correções e deixar uma impressão de desleixo para a posteridade leva o autor a ser preciso e sucinto. Tese: é impossível escrever uma nota de suicida num computador.”

O comando da questão é de interpretação: pede-se o que o personagem quer dizer com aquela frase, não uma paráfrase literal. A banca quer que você perceba que a frase não é uma constatação absoluta, mas uma opinião fundamentada na natureza do meio de escrita. O personagem não está dizendo que é literalmente impossível digitar uma nota; está dizendo que o computador, por sua fluidez, torna difícil terminar a nota — o que é o tema central da crônica: a eterna insatisfação do escritor com o final.

A técnica para resolver é localizar a passagem em que a ideia aparece e verificar o que ela sustenta. A frase “é impossível escrever uma nota de suicida num computador” vem logo após a explicação de que, no computador, o medo de borrar o papel não existe, então o autor não é forçado a ser preciso e sucinto. Ou seja, o meio dificulta a finalização, não a torna impossível em termos absolutos. A alternativa B capta exatamente essa nuance: o meio dificulta chegar à resolução final.

As demais alternativas falham por extrapolar ou contradizer o texto. A letra A diz que ele conclui a nota e se vê pronto para se suicidar, mas o texto mostra que ele não se suicida: “Dessa vez não se levantou. Ficou olhando para a tela, pensando. Depois acrescentou: ... E foi dormir.” A letra C afirma que o meio é indiferente, mas o texto diz exatamente o contrário: o computador agrava a agonia. A letra D afirma que ele depende exclusivamente de nota manuscrita, mas o texto diz apenas que “talvez” uma nota definitiva só possa ser manuscrita — é uma possibilidade, não uma dependência. A letra E diz que nem todas as notas finalizadas levam ao suicídio, mas o texto não discute isso; ele fala da dificuldade de terminar a nota, não do que acontece depois.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação — transforma uma possibilidade (“talvez”) em dependência (“exclusivamente”) e uma opinião sobre o meio em fato absoluto. Fique atento a palavras como “exclusivamente”, “sempre”, “nunca”, que geralmente sinalizam exagero.

PEGA ESSA DICA!

Ao interpretar uma fala, pergunte-se: o que o personagem quer dizer com isso? Não se apegue ao sentido literal. Aqui, “impossível” é uma hipérbole para “muito difícil”, e o contexto imediato explica o porquê.

Tese do personagem
  • 1Computador agrava a agonia
    • Permite infinitas correções
    • Dificulta chegar ao final
  • 2Nota manuscrita/datilografada
    • Medo de borrar o papel
    • Força precisão e concisão
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que o personagem “conclui a nota que estava escrevendo e se vê pronto para se suicidar”. Mas o texto mostra o oposto: ele não se suicida. No final, lemos: “Dessa vez não se levantou. Ficou olhando para a tela, pensando. Depois acrescentou: ... E foi dormir.” Ele não conclui a nota de forma definitiva — ele a guarda para revisar no dia seguinte: “Por via das dúvidas, guardou o texto na memória do computador. No dia seguinte o revisaria.” Portanto, a alternativa inverte o desfecho da narrativa.

Alternativa B — ✅ Correta

Fundamento no texto. A fala “é impossível escrever uma nota de suicida num computador” é uma tese que o personagem desenvolve ao longo do texto. Ele explica que o computador agrava a agonia porque permite infinitas correções, enquanto o papel manuscrito ou datilografado, pelo medo de borrar, força o autor a ser preciso e sucinto. Veja o trecho:

“É claro que o computador agravou a agonia. Talvez uma nota de suicida definitiva só possa ser manuscrita ou datilografada à moda antiga, quando o medo de borrar o papel com correções e deixar uma impressão de desleixo para a posteridade leva o autor a ser preciso e sucinto. Tese: é impossível escrever uma nota de suicida num computador.”

Ou seja, o meio dificulta chegar à resolução final desejada — exatamente o que a alternativa B afirma. Ela é uma paráfrase fiel da ideia central.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que o meio é “indiferente para o suicídio”. Mas o texto diz o contrário: o computador agrava a agonia. O personagem escreve: “É claro que o computador agravou a agonia.” Portanto, o meio não é indiferente; ele é um fator central na dificuldade de finalizar a nota.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. A alternativa afirma que o personagem “depende exclusivamente de uma nota escrita à moda antiga para concluir seu suicídio”. O texto, porém, usa o advérbio “talvez”: “Talvez uma nota de suicida definitiva só possa ser manuscrita ou datilografada à moda antiga.” A palavra “talvez” indica possibilidade, não dependência. Além disso, o personagem não chega a concluir o suicídio — ele vai dormir. A alternativa restringe indevidamente o alcance da fala.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: fuga ao tema. A alternativa afirma que “nem todas as notas finalizadas levam seus autores ao suicídio”. O texto não discute isso. Ele trata da dificuldade de terminar a nota, não do que acontece depois de terminada. A alternativa tangencia o tema, trazendo uma ideia que não está no texto.

Conclusão: a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto é a letra B, pois ela parafraseia a tese central do personagem: o computador, por permitir infinitas correções, dificulta chegar à resolução final desejada. As demais ou contradizem o texto (A, C) ou extrapolam (D) ou fogem ao tema (E).

Gabarito: letra B

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