Questão de Português — Tipos de Discurso: Direto, Indireto e Indireto Livre — Avança SP 2024
Português›Tipos de Discurso: Direto, Indireto e Indireto Livre
Código
qg097714
Banca
Avança SP
Órgão
Prefeitura de Caçapava - SP
Ano
2024
Nível
Superior
Leia o texto para responder à questão.
Bobagem
Emocionado e um pouco bêbado, aos cinco minutos do Ano-Novo ele resolveu telefonar para o velho desafeto.
— Alô?
— Alô. Sou eu.
— Eu quem?
— Eu, pô.
O outro fez silêncio. Depois disse:
— Ah. É você.
— Olha aqui, cara. Eu estou telefonando pra te desejar um feliz Ano-Novo. Entendeu?
— Obrigado.
— Obrigado não. Olha aqui. Sei lá, pô...
— Feliz Ano-Novo pra você também.
— Eu nem me lembro mais por que nós brigamos. Juro que não lembro.
— Eu também não lembro.
— Então, grande. Como vai Vivinha?
— Bem, bem. Quer dizer, mais ou menos. As enxaquecas...
Ele ficou engasgado. De repente se deu conta de que tinha saudade até das enxaquecas da Vivinha. Como podiam ter passado tantos anos sem se ver? Como tinham deixado uma bobagem afastá-los daquela maneira? As pessoas precisavam se reaproximar. Aquele seria o seu projeto para o fim do milênio. Reaproximar-se das pessoas. Só dar importância ao que aproximava. Puxa! Estava tão enternecido com as enxaquecas da Vivinha que mal podia falar.
— A vida é muito curta. Você está me entendendo? Assim não dá.
Era como se estivesse reclamando com o fornecedor. A vida vinha com a carga muito pequena. Era preciso um botijão maior, senão não dava mesmo. E ainda desperdiçavam vida com bobagem.
Ele quis marcar um encontro para ontem. No Lucas, como antigamente. O outro foi mais sensato e contrapropôs hoje, prevendo que ontem seria um dia de ressaca e segundos pensamentos. E tinha razão. Ontem à noite, ele voltou a telefonar. Falou secamente. Pediu desculpas, disse que não poderia ir ao encontro e despediu-se com um formal “Melhoras para a Vivinha”. Tinha se lembrado da bobagem que motivara a briga.
VERISSIMO, L. F. Verissimo antológico: meio século de crônicas, ou coisa parecida. São Paulo: Objetiva, 2020.
A transposição do excerto “— Eu nem me lembro mais por que nós brigamos. Juro que não lembro.”, que está em discurso direto, para discurso indireto resultaria em:
AEle disse que nem se lembrava mais por que eles brigaram, e que jura que não se lembra.
BEle disse que nem se lembra mais por que eles brigavam. Jura que não se lembra.
CEle disse que nem se lembra mais por que eles brigaram. Jurava que não lembrava.
DEle disse que nem se lembrava mais por que eles tinham brigado, e que jurava que não se lembrava.
EEle disse que nem se lembra mais por que eles brigam. Jura que não lembra.
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GabaritoD — Ele disse que nem se lembrava mais por que eles tinham brigado, e que jurava que não se lembrava.
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Transposição de Discurso Direto para Indireto
Gabarito: letra D. A alternativa correta é a D, pois aplica corretamente as duas regras essenciais da transposição: converte os verbos do presente do indicativo para o pretérito imperfeito do indicativo ("lembro" → "lembrava", "juro" → "jurava") e o pretérito perfeito para o pretérito mais-que-perfeito composto ("brigamos" → "tinham brigado"). A passagem que sustenta a conversão é a fala original: "— Eu nem me lembro mais por que nós brigamos. Juro que não lembro."
O Comando
A questão pede uma reescritura — transpor o trecho do discurso direto para o indireto. Isso não é interpretação nem inferência: é aplicar regras gramaticais de conversão. O comando "resultaria em" indica que você deve buscar a paráfrase que preserva o sentido e obedece à correlação verbal exigida pelo discurso indireto.
O Texto e a Técnica
No discurso direto, a fala é reproduzida literalmente, com os verbos na 1ª pessoa e nos tempos originais. No discurso indireto, o narrador reporta a fala, e há um recuo temporal obrigatório: o presente do indicativo vira pretérito imperfeito; o pretérito perfeito vira pretérito mais-que-perfeito (simples ou composto).
Além disso, os pronomes de 1ª pessoa ("eu", "nós") passam para 3ª pessoa ("ele", "eles"), e a conjunção integrante "que" introduz a oração subordinada substantiva objetiva direta.
Análise das Alternativas
1Presente → Pretérito imperfeito
2Pretérito perfeito → Mais-que-perfeito composto
31ª pessoa → 3ª pessoa
4Conjunção integrante 'que'
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: Mantém "jura" no presente do indicativo, sem o recuo temporal obrigatório. O correto seria "jurava". Além disso, "brigaram" deveria ser "tinham brigado" para indicar anterioridade em relação ao verbo principal.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: Mantém "lembra" e "jura" no presente, e "brigavam" no pretérito imperfeito, o que não reflete a anterioridade correta. O pretérito perfeito "brigamos" deve virar mais-que-perfeito composto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: Mantém "lembra" no presente, e "brigaram" no pretérito perfeito simples, sem a forma composta "tinham brigado". Apenas "jurava" está corretamente convertido.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Correta: Aplica corretamente todas as conversões: "lembrava" (pretérito imperfeito), "tinham brigado" (mais-que-perfeito composto) e "jurava" (pretérito imperfeito). A conjunção "que" introduz as orações subordinadas, e os pronomes estão na 3ª pessoa.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: Mantém "lembra", "brigam" e "jura" no presente, sem qualquer recuo temporal. É a alternativa mais distante da conversão correta.
Conclusão: A transposição correta exige o recuo temporal de todos os verbos e a mudança de pessoa. A única alternativa que cumpre integralmente essas regras é a D.