Questão de Português — Interpretação de Textos — Avança SP 2024
Português›Interpretação de Textos
Código
qg098291
Banca
Avança SP
Órgão
Prefeitura de Sete Barras - SP
Ano
2024
Nível
Fundamental
Leia o texto a seguir para responder à questão.
O zelador do labirinto
Tem também a história do zelador do
labirinto. Todos os dias ele saía de casa cedo,
com sua marmita, e entrava no labirinto. Seu
trabalho era percorrer todo o labirinto,
inspecionando as paredes e o chão, vendo onde
precisava um retoque, talvez uma mão de tinta
etc.
Era um homem metódico. Pela manhã,
fazia a ronda do labirinto, anotando tudo que
havia para ser consertado, depois saía do
labirinto, almoçava, descansava um pouquinho, e
entrava de novo no labirinto, agora com o
material de que necessitaria para seu trabalho.
Quando não havia nada para ser consertado, ele
apenas varria todo o labirinto e, ao anoitecer, ia
para casa.
Um dia, enquanto fazia a sua ronda, o
zelador encontrou um grupo de pessoas
apavoradas. Queriam saber como sair dali. O
zelador não entendeu bem.
— Como sair?
— A saída! Onde fica a saída?
— É por ali — apontou o zelador,
achando estranha a agitação do grupo.
Mais tarde, no mesmo dia, enquanto
varria um dos corredores, o zelador encontrou o
mesmo grupo. Não tinham encontrado a saída.
Estavam ainda mais apavorados. Alguns
choravam. Alguém precisava lhes mostrar a
saída!
Com uma certa impaciência, o zelador
começou a dar a direção. Era fácil.
— Saiam por ali e virem à esquerda.
Depois à direita, depois à esquerda, esquerda
outra vez, direita, direita, esquerda...
— Espere! — gritou alguém. — Ponha
isso num papel.
Sacudindo a cabeça com divertida
resignação, o zelador pegou seu caderno de notas
e o toco de lápis e começou a escrever.
— Deixa ver. Esquerda, direita, esquerda,
esquerda... Hesitou. — Não, direita. É isso.
Direita, direita, esquerda... Ou direita outra vez?
O zelador atirou o papel e o lápis no chão
como se estivessem pegando fogo. Saiu
correndo, com todo o grupo atrás. Também
estava apavorado. Aquilo era terrível. Ele nunca
tinha se dado conta de como aquilo era terrível.
Corredores davam para corredores que davam
para corredores que davam numa parede. Era
preciso voltar pelos mesmos corredores, mas
como saber se eram os mesmos corredores? A
saída! Onde ficava a saída?
A administração do labirinto teve que
procurar um novo zelador, depois que o
desaparecimento do outro completou um mês.
Podiam adivinhar o que tinha acontecido. O novo
zelador não devia ter muita imaginação. Era
preferível que nem soubesse ler e escrever. E em
hipótese alguma devia falar com estranhos.
VERISSIMO, L. F. Verissimo antológico: meio
século de crônicas, ou coisa parecida. São Paulo:
Objetiva, 2020.
Segundo o texto, o zelador se apavorou porque:
AA administração do labirinto era muito rígida.
BEle se deparou com pessoas estranhas no labirinto.
CEle percebeu a complexidade do labirinto ao tentar explicar como encontrar a saída às pessoas que estavam perdidas.
DAs pessoas o ameaçaram caso não conseguissem sair do labirinto.
EO labirinto não tinha uma saída de verdade.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoC — Ele percebeu a complexidade do labirinto ao tentar explicar como encontrar a saída às pessoas que estavam perdidas.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
O apavoramento do zelador: inferência a partir das pistas do texto
Gabarito: letra C. O zelador se apavorou porque, ao tentar explicar o caminho da saída, percebeu a complexidade do labirinto — como se lê no trecho em que ele hesita ao ditar as direções e, em seguida, "atirou o papel e o lápis no chão como se estivessem pegando fogo". A alternativa C é a única que sintetiza com precisão a sequência de eventos narrada: a tentativa de explicar o caminho revela a ele o labirinto como um emaranhado de corredores que se repetem, e é essa tomada de consciência que o apavora.
O comando: compreensão ou inferência?
O enunciado pergunta "Segundo o texto, o zelador se apavorou porque...". A palavra "porque" indica que se busca a causa do apavoramento. Essa causa não está dita de forma direta — o texto narra os fatos, mas não afirma explicitamente "o zelador se apavorou porque percebeu a complexidade do labirinto". Portanto, a questão exige inferência: você precisa deduzir a causa a partir das pistas deixadas pelo narrador. A resposta correta é uma paráfrase que reorganiza as informações do texto, mas não acrescenta nada que não esteja lá.
O texto: a virada do zelador
O texto apresenta o zelador como um homem metódico, que percorre o labirinto diariamente sem se dar conta de sua complexidade. Ele conhece o caminho de cor, mas nunca precisou explicá-lo a ninguém. Quando o grupo de pessoas perdidas pede a direção, ele começa a ditar o caminho com naturalidade:
"Saiam por ali e virem à esquerda. Depois à direita, depois à esquerda, esquerda outra vez, direita, direita, esquerda..."
Até aí, ele não está apavorado. O pânico surge no momento em que ele tenta registrar o caminho por escrito e percebe que não consegue reproduzir a sequência com exatidão:
"Deixa ver. Esquerda, direita, esquerda, esquerda... Hesitou. — Não, direita. É isso. Direita, direita, esquerda... Ou direita outra vez?"
A hesitação é a pista central. É ela que revela a complexidade do labirinto — corredores que se repetem, voltas que se confundem. O texto explicita essa tomada de consciência logo em seguida:
"Corredores davam para corredores que davam para corredores que davam numa parede. Era preciso voltar pelos mesmos corredores, mas como saber se eram os mesmos corredores?"
Essa passagem autoriza a alternativa C: o zelador se apavora porque, ao tentar explicar o caminho, percebe a complexidade do labirinto — algo que ele nunca havia notado, pois sempre o percorreu de forma mecânica.
A técnica: inferência com pista, não extrapolação
A questão mistura compreensão (localizar os fatos) com inferência (deduzir a causa). A causa não está escrita com todas as letras, mas está pressuposta na sequência: hesitação → pânico → reflexão sobre os corredores. A alternativa C é a única que traduz essa sequência em uma causa lógica. As demais ou extrapolam (A, B, D) ou contradizem o texto (E).
NÃO CAIA NESSA!
A banca oferece alternativas que parecem plausíveis, mas que acrescentam informações que o texto não traz. A letra B, por exemplo, diz que ele se apavorou por "se deparar com pessoas estranhas", mas o texto mostra que ele não estranhou o grupo — apenas achou "estranha a agitação". A letra E afirma que "o labirinto não tinha saída de verdade", mas o texto mostra que havia saída — o zelador a conhecia e a indicou.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto não menciona que a administração era "rígida". A única referência à administração está no final, quando ela "teve que procurar um novo zelador" — e isso é uma consequência do desaparecimento, não uma causa do apavoramento. A alternativa inventa uma característica (rigidez) que não está no texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto mostra que o zelador não se assustou com as pessoas. Ele "achou estranha a agitação do grupo", mas isso é curiosidade, não medo. O pânico só surge depois, quando ele tenta explicar o caminho. A alternativa desloca a causa para um elemento que o texto não sustenta.
Alternativa C — ✅ Correta
Fundamento: a sequência hesitação → pânico → reflexão sobre os corredores. O texto diz:
"Corredores davam para corredores que davam para corredores que davam numa parede. Era preciso voltar pelos mesmos corredores, mas como saber se eram os mesmos corredores?"
Essa passagem prova que o zelador percebeu a complexidade do labirinto ao tentar explicar o caminho. A alternativa C é uma paráfrase fiel dessa ideia.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto não menciona ameaça alguma. As pessoas estavam "apavoradas" e "alguns choravam", mas não há nenhuma indicação de que tenham ameaçado o zelador. A alternativa acrescenta um elemento de violência que não existe no texto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. O texto mostra que o labirinto tinha saída — o zelador a conhecia e a indicou: "É por ali — apontou o zelador". A alternativa inverte essa informação, afirmando que não havia saída. Além disso, o pânico do zelador não é por não haver saída, mas por não conseguir explicar o caminho.
Conclusão
A questão ensina uma lição valiosa: inferência não é invenção. A resposta correta deve ser deduzida das pistas do texto, não acrescentada de fora. Teste cada alternativa perguntando: "o texto autoriza isto, ou exige que eu complete com o que não está escrito?". A letra C é a única que se sustenta inteiramente no texto.