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Questão de Medicina — Farmacologia e Anestesiologia — FUNDATEC 2024

MedicinaFarmacologia e Anestesiologia
Código
qg163927
Banca
FUNDATEC
Órgão
GHC-RS
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Médico - Anestesiologia Cardiovascular
Qual das medicações abaixo pode ser indicada para o tratamento da insuficiência aórtica grave, agindo em mais de uma variável fisiopatológica?
  1. AEnalapril.
  2. BCarvedilol.
  3. CLevosimendan.
  4. DMetaraminol.
  5. ENifedipina.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Nifedipina.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Insuficiência aórtica grave: manejo farmacológico

Gabarito: letra E. A nifedipina, um bloqueador dos canais de cálcio di-hidropiridínico, é indicada no tratamento da insuficiência aórtica grave por atuar em mais de uma variável fisiopatológica: promove vasodilatação arterial periférica (reduzindo a pós-carga e, consequentemente, o volume regurgitante) e, por ser um cronotrópico negativo, reduz a frequência cardíaca, aumentando o tempo diastólico e diminuindo o refluxo aórtico. Essa dupla ação é o diferencial que a questão explora.

A insuficiência aórtica (IAo) é uma valvopatia em que a valva aórtica não coapta adequadamente, permitindo que o sangue retorne da aorta para o ventrículo esquerdo (VE) durante a diástole. Isso gera uma sobrecarga de volume no VE, que, para compensar, dilata e hipertrofia. O tratamento clínico da IAo grave, especialmente em pacientes sintomáticos ou com disfunção ventricular, visa reduzir o volume regurgitante e a sobrecarga hemodinâmica. As estratégias farmacológicas baseiam-se em dois pilares: reduzir a pós-carga (vasodilatação) e reduzir a frequência cardíaca (aumentar o tempo diastólico).

A nifedipina, um bloqueador de canal de cálcio do tipo di-hidropiridina, atua em ambos os pilares. Ao bloquear os canais de cálcio na musculatura lisa vascular, causa vasodilatação arterial periférica, diminuindo a resistência vascular sistêmica e, portanto, a pós-carga. Com menor pós-carga, a pressão aórtica diastólica diminui, e o gradiente de pressão entre a aorta e o VE durante a diástole é reduzido, o que diminui o volume de sangue que regurgita. Além disso, a nifedipina, embora seja um vasodilatador potente, também possui efeito cronotrópico negativo direto (embora o reflexo simpático possa aumentar a FC, em uso crônico e em doses adequadas, o efeito líquido é de redução ou manutenção da FC). Uma frequência cardíaca mais baixa aumenta a duração da diástole, o que, paradoxalmente, poderia aumentar o tempo de regurgitação. No entanto, o efeito benéfico da redução da pós-carga supera esse efeito, e a redução da FC também diminui o consumo de oxigênio pelo miocárdio. Na prática, a nifedipina é uma opção para pacientes com IAo grave que não são candidatos imediatos à cirurgia, com o objetivo de retardar a progressão da disfunção ventricular.

As demais alternativas apresentam mecanismos de ação que não se encaixam na proposta de atuar em mais de uma variável fisiopatológica da IAo grave, ou que são contraindicadas ou menos indicadas nesse contexto. O enalapril (IECA) é um vasodilatador que reduz a pós-carga, mas não tem efeito cronotrópico negativo significativo. O carvedilol é um betabloqueador com ação vasodilatadora, mas seu uso na IAo grave é controverso e não é a primeira escolha, pois a bradicardia pode aumentar o tempo diastólico e, teoricamente, o volume regurgitante. O levosimendan é um inotrópico utilizado em IC aguda descompensada, não no manejo crônico da IAo. O metaraminol é um vasopressor, que aumenta a pós-carga, sendo contraindicado na IAo.

A pegadinha da questão está em reconhecer que a nifedipina, apesar de ser um anti-hipertensivo, tem um papel específico na IAo grave, atuando em duas frentes: vasodilatação e cronotropismo negativo. O candidato pode ser levado a escolher o enalapril por ser um vasodilatador clássico, mas ele não atua na frequência cardíaca. A chave é a combinação de efeitos.

Insuficiência aórtica grave — manejo farmacológico
  • 1Pilares do tratamento
    • Reduzir pós-carga (vasodilatação)
    • Reduzir frequência cardíaca (aumentar diástole)
  • 2Nifedipina (gabarito)
    • Vasodilatação arterial
      • ↓ pós-carga → ↓ volume regurgitante
    • Cronotropismo negativo (↑ tempo diastólico → ↓ refluxo)
  • 3Enalapril (IECA)
    • Vasodilatação (↓ pós-carga)
    • Sem efeito cronotrópico negativo
  • 4Carvedilol (betabloqueador)
    • Vasodilatação + ↓ FC
    • Uso controverso na IAo
      • bradicardia ↑ tempo de regurgitação
  • 5Levosimendan (inotrópico)
    • Não indicado na IAo (↑ gradiente → ↑ regurgitação)
  • 6Metaraminol (vasopressor)
    • ↑ Pós-carga → contraindicação
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Alternativa A — ❌ Incorreta

O enalapril é um inibidor da enzima conversora de angiotensina (IECA) que promove vasodilatação arterial e venosa, reduzindo a pós-carga. Embora a redução da pós-carga seja benéfica na IAo, o enalapril não atua na frequência cardíaca (não é cronotrópico negativo). Portanto, ele age em apenas uma variável fisiopatológica (pós-carga), não se enquadrando no critério de "agir em mais de uma variável". Além disso, em pacientes com IAo grave, o uso de IECA pode causar hipotensão significativa, e seu benefício é menos estabelecido que o dos vasodilatadores com ação cronotrópica negativa.

Alternativa B — ❌ Incorreta

O carvedilol é um betabloqueador não seletivo com ação vasodilatadora adicional (bloqueio alfa-1). Ele reduz a frequência cardíaca e a contratilidade, diminuindo o consumo de oxigênio. No entanto, na insuficiência aórtica grave, o uso de betabloqueadores é controverso. A bradicardia aumenta o tempo diastólico, o que, teoricamente, poderia aumentar o volume regurgitante. Embora o carvedilol tenha efeito vasodilatador, o benefício líquido na IAo não é claro, e ele não é considerado uma das principais opções para o manejo clínico dessa condição. A questão pede uma medicação que "pode ser indicada" e que aja em "mais de uma variável fisiopatológica". O carvedilol age em duas variáveis (FC e pós-carga), mas sua indicação na IAo grave não é consensual, sendo a nifedipina a opção mais clássica e estudada.

Alternativa C — ❌ Incorreta

O levosimendan é um sensibilizador dos canais de cálcio que aumenta a contratilidade cardíaca (efeito inotrópico positivo) e promove vasodilatação periférica (abre canais de potássio ATP-dependentes). É utilizado no tratamento da insuficiência cardíaca aguda descompensada, especialmente em pacientes com baixo débito cardíaco. Na insuficiência aórtica grave, o uso de inotrópicos não é indicado, pois pode aumentar o gradiente de pressão e o volume regurgitante. Além disso, o levosimendan não é uma medicação de uso crônico para manejo ambulatorial de valvopatias.

Alternativa D — ❌ Incorreta

O metaraminol é um agonista alfa-adrenérgico que causa vasoconstrição periférica, aumentando a resistência vascular sistêmica e a pressão arterial. É utilizado como vasopressor em situações de choque hipotensivo. Na insuficiência aórtica grave, o aumento da pós-carga é prejudicial, pois aumenta o gradiente de pressão entre a aorta e o ventrículo esquerdo, exacerbando o refluxo sanguíneo. Portanto, o metaraminol é contraindicado nessa condição, agindo de forma oposta ao desejado.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A nifedipina é um bloqueador dos canais de cálcio do tipo di-hidropiridina. Seus efeitos na insuficiência aórtica grave são duplos: (1) vasodilatação arterial periférica, reduzindo a pós-carga e, consequentemente, o volume regurgitante; e (2) efeito cronotrópico negativo direto, que, apesar do reflexo simpático, em uso crônico tende a reduzir ou estabilizar a frequência cardíaca, aumentando o tempo diastólico e diminuindo o refluxo. Essa combinação de ações em duas variáveis fisiopatológicas distintas (pós-carga e frequência cardíaca) é o que a torna a medicação indicada para o tratamento da IAo grave, especialmente em pacientes sintomáticos ou com disfunção ventricular que não são candidatos imediatos à cirurgia. Estudos clássicos demonstraram que a nifedipina pode retardar a necessidade de cirurgia em pacientes com IAo grave assintomática.

Gabarito: letra E

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