Questão de Medicina — Medicina Intensiva — FUNDATEC 2024
- Código
- qg163984
- Banca
- FUNDATEC
- Órgão
- GHC-RS
- Ano
- 2024
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico - Medicina de Emergência - UPA
- AApenas I.
- BApenas II.
- CApenas I e II.
- DApenas I e III.
- EI, II e III.
GabaritoC — Apenas I e II.
Gabarito: letra C — estão corretas apenas as assertivas I e II. O diagnóstico de sepse, segundo o Sepsis 3.0, exige infecção suspeita ou confirmada associada a aumento de 2 ou mais pontos no escore SOFA (assertiva I correta); a antibioticoterapia deve ser iniciada precocemente, idealmente na primeira hora, embora o benefício dessa meta rígida de 1 hora ainda seja alvo de debate na literatura (assertiva II correta); e o lactato elevado é um marcador de gravidade e preditor de mortalidade, contrariando a assertiva III.
A sepse é uma síndrome clínica definida como uma resposta inflamatória desregulada do hospedeiro a uma infecção, levando a disfunção orgânica ameaçadora à vida. O conceito evoluiu ao longo do tempo: o antigo Sepsis 1.0 (1992) utilizava os critérios de SIRS (síndrome da resposta inflamatória sistêmica), enquanto o Sepsis 3.0 (2016), atualmente aceito, abandonou a SIRS como critério diagnóstico e passou a exigir a presença de disfunção orgânica, mensurada pelo escore SOFA (Sequential Organ Failure Assessment). Essa mudança é crucial: a SIRS continua sendo útil apenas como ferramenta de triagem, mas não define mais sepse.
O escore SOFA avalia seis sistemas — respiratório, coagulação, fígado, cardiovascular, neurológico e renal — atribuindo de 0 a 4 pontos para cada um. O diagnóstico de sepse é estabelecido quando há infecção presumida ou confirmada e aumento de 2 ou mais pontos no SOFA, assumindo-se escore 0 em pacientes sem disfunção orgânica preexistente conhecida. O qSOFA (quick SOFA), por sua vez, não serve para diagnosticar sepse, mas sim para identificar pacientes com infecção e alto risco de óbito ou maior tempo de permanência na UTI, utilizando três critérios clínicos: taquipneia (FR ≥ 22 irpm), alteração do nível de consciência e hipotensão sistólica (PAS < 100 mmHg).
Quanto ao tratamento, a antibioticoterapia deve ser iniciada precocemente, idealmente na primeira hora após a identificação da sepse, direcionada ao foco suspeito da infecção. Essa recomendação da Campanha Sobrevivendo a Sepse (SSC) é amplamente difundida, mas o benefício da meta estrita de 1 hora ainda é controverso na literatura, pois os estudos que a embasaram apresentam limitações metodológicas e diferenças populacionais. O que se sabe é que o atraso na administração de antibióticos está associado a piores desfechos, mas a discussão sobre o tempo exato permanece em aberto.
O lactato é um marcador de gravidade e preditor de mortalidade na sepse. Embora a hiperlactatemia possa ocorrer na ausência de hipóxia tecidual (como na insuficiência hepática, disfunção mitocondrial ou uso de drogas vasopressoras), sua expressão clínica é de mau prognóstico. A SSC recomenda que o lactato seja medido em todos os pacientes com suspeita de sepse e, quando elevado, nova aferição deve ser realizada em até 4 horas após a ressuscitação volêmica. O lactato também faz parte da definição de choque séptico: necessidade de vasopressor para manter PAM ≥ 65 mmHg associada a lactato > 2 mmol/L (18 mg/dL) persistente após ressuscitação volêmica adequada.
A pegadinha desta questão está na assertiva III, que inverte completamente o papel do lactato: ele não apenas se correlaciona com o risco de mortalidade, como é um dos principais marcadores prognósticos e guia de ressuscitação na sepse. A banca explora a confusão entre o lactato como critério diagnóstico (que não faz parte do SOFA) e sua importância prognóstica (que é inequívoca). Guarde essa distinção: o lactato não está no SOFA, mas é fundamental para avaliar gravidade e resposta ao tratamento.
O diagnóstico de sepse é feito quando há infecção suspeita ou confirmada e aumento de 2 ou mais pontos no escore SOFA. Essa é a definição do Sepsis 3.0, a mais aceita e utilizada atualmente. O material de apoio confirma: "O diagnóstico de sepse é feito quando há infecção presumida ou confirmada e aumento de 2 ou mais pontos no escore SOFA (Sequential Sepsis-related Organ Failure Assessment)".
A recomendação de administrar antibioticoterapia em até 1 hora da apresentação na emergência é amplamente difundida pela Campanha Sobrevivendo a Sepse, mas o benefício dessa meta rígida ainda é controverso na literatura. O material de apoio afirma que "a antibioticoterapia deve ser iniciada precocemente, idealmente na primeira hora após a identificação da sepse", e a discussão sobre o tempo exato permanece em aberto, com estudos apresentando limitações metodológicas. A assertiva está correta ao reconhecer tanto a recomendação quanto a controvérsia.
O lactato elevado se correlaciona fortemente com o risco de mortalidade na sepse. O material de apoio é claro: "o nível sérico de lactato é resultado de múltiplos mecanismos, mas sua expressão clínica é de mau prognóstico para o paciente" e "o aumento do lactato é um marcador de estresse fisiológico e a sua concentração sérica é um bom marcador de gravidade e preditor de mortalidade". A assertiva inverte completamente esse conceito, sendo, portanto, incorreta.
Conclusão: corretas apenas as assertivas I e II, o que corresponde à letra C.
Gabarito: letra C
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