Questão de Medicina — Epidemiologia — FUNDATEC 2024
Medicina›Epidemiologia
Código
qg170867
Banca
FUNDATEC
Órgão
Prefeitura de Cruz Alta - RS
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Médico ESF
Sobre a profilaxia pós-exposição à raiva, qual é a abordagem mais apropriada?
AAdministração imediata de uma única dose de vacina antirrábica, sem a necessidade de imunoglobulina antirrábica.
BUtilização exclusiva de imunoglobulina antirrábica, sem a necessidade de vacinação em casos de exposição a animais potencialmente raivosos.
CAdministração simultânea de imunoglobulina antirrábica e da primeira dose da vacina antirrábica no local da exposição, com esquema completo subsequente.
DRetardo na administração de imunoglobulina antirrábica até que a avaliação laboratorial do animal seja concluída.
EAbordagem individualizada, com a escolha entre a administração exclusiva de vacina antirrábica ou imunoglobulina antirrábica, dependendo da gravidade da exposição e do estado vacinal prévio do paciente.
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GabaritoE — Abordagem individualizada, com a escolha entre a administração exclusiva de vacina antirrábica ou imunoglobulina antirrábica, dependendo da gravidade da exposição e do estado vacinal prévio do paciente.
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Profilaxia pós-exposição à raiva: abordagem individualizada
Gabarito: letra E. A profilaxia pós-exposição (PPE) à raiva não é um protocolo fixo: a conduta depende da classificação do acidente (leve, grave) e do estado vacinal prévio do paciente, podendo variar entre apenas a vacina, a vacina associada à imunoglobulina/soro, ou até mesmo a não indicação de profilaxia — exatamente o que a alternativa E descreve. Essa lógica está alinhada às diretrizes do Ministério da Saúde e da OMS, que estruturam a decisão conforme o tipo de exposição e o histórico de vacinação.
A raiva é uma zoonose viral quase sempre fatal após o início dos sintomas, o que torna a profilaxia pós-exposição uma medida de urgência. O vírus é transmitido pela saliva de animais infectados, geralmente por mordedura, arranhadura ou lambedura de mucosas. A profilaxia combina duas estratégias: a imunização ativa (vacina, que estimula o próprio sistema imunológico a produzir anticorpos) e a imunização passiva (imunoglobulina ou soro antirrábico, que fornece anticorpos prontos e neutraliza o vírus no local da inoculação enquanto a vacina começa a fazer efeito).
A decisão sobre qual combinação usar é o coração da questão. O Ministério da Saúde adota, desde 2017, o esquema de quatro doses da vacina de cultura celular (dias 0, 3, 7 e 14) para a PPE. A imunoglobulina (ou soro) é indicada em acidentes graves, como mordeduras profundas, ferimentos na cabeça/pescoço/mãos ou em pacientes não vacinados. Em acidentes leves, com animal observável, pode-se iniciar apenas a vacina. Já para pacientes previamente vacinados com esquema completo, a conduta pode ser simplificada, muitas vezes sem necessidade de imunoglobulina. Por outro lado, em exposições de baixo risco (como contato com roedores urbanos), a profilaxia pode nem ser indicada.
A tabela abaixo resume a lógica de decisão, que é o critério que separa as alternativas:
Situação
Conduta típica
Acidente leve, animal observável, paciente não vacinado
Tratamento local + vacina (dias 0, 3, 7, 14)
Acidente grave, animal raivoso/desaparecido, paciente não vacinado
Tratamento local + vacina + imunoglobulina/soro
Paciente previamente vacinado (esquema completo)
Tratamento local + reforço vacinal (2 doses), geralmente sem imunoglobulina
Exposição de baixo risco (roedores urbanos)
Tratamento local, sem profilaxia antirrábica
A pegadinha da banca está em apresentar condutas fixas e absolutas ("sempre vacina", "sempre imunoglobulina", "sempre os dois") quando a realidade é uma avaliação individualizada. A alternativa E captura exatamente essa essência: a escolha entre vacina e/ou imunoglobulina depende da gravidade da exposição e do estado vacinal prévio. Guarde esse critério — é ele que vai separar as alternativas corretas das incorretas.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que uma única dose de vacina, sem imunoglobulina, é suficiente. Erro duplo: o esquema padrão de PPE é de quatro doses (dias 0, 3, 7 e 14), não uma única; e, em acidentes graves, a imunoglobulina é indispensável para neutralizar o vírus antes que a resposta imune da vacina se desenvolva. Uma dose isolada não confere proteção adequada.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Propõe o uso exclusivo de imunoglobulina, sem vacinação. A imunoglobulina fornece anticorpos passivos e temporários, mas não estimula a imunidade duradoura. Sem a vacina, o paciente fica desprotegido após o efeito da imunoglobulina cessar. A profilaxia ativa (vacina) é sempre necessária quando há indicação de imunização, exceto em situações muito específicas de reexposição em pacientes já imunizados.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Descreve a administração simultânea de imunoglobulina e vacina no local da exposição. Embora a associação seja correta em acidentes graves, a técnica é específica: a imunoglobulina deve ser infiltrada no local da mordedura (para neutralizar o vírus no sítio de inoculação), mas a vacina é administrada por via intramuscular em local anatômico distante (geralmente deltoide), justamente para evitar que os anticorpos passivos neutralizem os antígenos vacinais. Além disso, a conduta não é universal — depende da gravidade e do estado vacinal.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Sugere retardar a imunoglobulina até a avaliação laboratorial do animal. Isso contraria o princípio da urgência: a raiva é quase sempre fatal, e a profilaxia deve ser iniciada imediatamente após a exposição, sem aguardar exames. A observação do animal (10 dias para cães e gatos) é uma estratégia para evitar profilaxia desnecessária em casos de baixo risco, mas, quando há indicação, o tratamento não pode ser adiado.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Esta é a abordagem correta porque reflete a individualização da conduta. A PPE varia conforme a classificação do acidente (leve, grave) e o estado vacinal prévio do paciente. Em acidentes leves com animal observável, pode-se iniciar apenas a vacina; em acidentes graves, associa-se a imunoglobulina; em pacientes previamente vacinados, o esquema é simplificado. A alternativa E sintetiza exatamente essa lógica de decisão clínica, que é o que as diretrizes do Ministério da Saúde e da OMS preconizam.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta fazer o candidato escolher uma conduta "padrão-ouro" única (sempre vacina, sempre imunoglobulina, sempre os dois). A armadilha é que a PPE à raiva é individualizada: a decisão depende da gravidade da exposição e do estado vacinal prévio. A alternativa C parece tecnicamente correta (associação de vacina e imunoglobulina), mas erra ao generalizar e ao detalhar a técnica de forma incorreta. Fique atento: quando a questão falar de profilaxia pós-exposição, procure a alternativa que reconhece a necessidade de avaliação caso a caso.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de profilaxia pós-exposição, monte mentalmente o fluxo: (1) avaliar o tipo de exposição (leve/grave) e o animal (observável/raivoso/desconhecido); (2) checar o estado vacinal prévio do paciente; (3) decidir entre vacina, vacina + imunoglobulina, ou nenhuma profilaxia. Essa sequência resolve a maioria das questões sobre o tema.