Sobre o tratamento da Infecção do Trato Urinário (ITU) na Atenção Primária, analise as assertivas abaixo:I. A presença de nitritos na urina é um forte indicador de ITU causada por bactérias produtoras de nitrato redutase.II. A cistite não complicada em mulheres pode ser tratada empiricamente, sem a necessidade de urocultura prévia.III. A pielonefrite aguda deve sempre ser tratada com hospitalização e antibióticos intravenosos. IV. Em homens jovens e saudáveis, a ITU é comum e geralmente não requer investigação adicional.V. A recorrência de ITU em mulheres pode estar associada ao uso de espermicidas.Quais estão corretas?
AApenas II e V.
BApenas I, II e V.
CApenas I, III e IV.
DApenas III, IV e V.
EApenas I, II, III e V.
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GabaritoB — Apenas I, II e V.
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Infecção do Trato Urinário (ITU) na Atenção Primária
Gabarito: letra B — estão corretas as assertivas I, II e V. A presença de nitritos indica bactérias produtoras de nitrato redutase (como a E. coli), a cistite não complicada em mulheres permite tratamento empírico sem urocultura prévia, e o uso de espermicidas é fator de risco reconhecido para ITU recorrente. As assertivas III e IV estão incorretas: a pielonefrite aguda nem sempre exige hospitalização, e a ITU em homens jovens é incomum e sempre requer investigação adicional.
A ITU é a infecção bacteriana mais comum na prática clínica, definida pela presença de patógenos microbianos no trato urinário, que normalmente é estéril. Ela se classifica pelo sítio (cistite na bexiga, pielonefrite no rim, bacteriúria na urina) e pela presença ou não de alterações estruturais ou funcionais do trato urinário — o que a divide em complicada e não complicada. Essa distinção é central para o manejo: a ITU não complicada, típica de mulheres jovens saudáveis, tem abordagem simplificada e baseada em dados clínicos, enquanto a complicada exige investigação mais aprofundada.
O diagnóstico da ITU não complicada é essencialmente clínico. Os sintomas clássicos de cistite — disúria, polaciúria, urgência miccional e dor suprapúbica — têm alto valor preditivo positivo, dispensando exames complementares na maioria dos casos. O exame de urina (urina tipo 1) pode auxiliar, mas a urocultura fica reservada para situações específicas, como falha terapêutica, suspeita de pielonefrite, gestação ou infecções recorrentes. Essa lógica de custo-efetividade é o que sustenta a assertiva II.
A fisiopatologia explica os fatores de risco. Na mulher, a uretra mais curta e a proximidade com o ânus facilitam a ascensão bacteriana a partir da flora fecal. A atividade sexual e o uso de espermicidas aumentam a colonização vaginal por E. coli, o principal uropatógeno (75-95% dos casos). Os espermicidas alteram a flora vaginal protetora, favorecendo a aderência bacteriana — por isso são fator de risco reconhecido para ITU recorrente, como afirma a assertiva V.
A pielonefrite aguda, por sua vez, é uma ITU alta com comprometimento do parênquima renal, manifestando-se com febre, dor em flanco e sinal de Giordano positivo. Embora seja uma infecção mais grave que a cistite, a maioria dos casos pode ser tratada ambulatorialmente com antibióticos orais, desde que o paciente esteja estável, hidratado e sem sinais de sepse. A hospitalização fica reservada para casos com critérios de gravidade — o que torna a assertiva III incorreta ao afirmar que "sempre" deve haver internação.
Nos homens, a ITU é considerada complicada por definição, pois frequentemente está associada a anormalidades estruturais ou funcionais, como a hipertrofia prostática. Diferentemente das mulheres, a ITU em homens jovens é incomum e, quando ocorre, exige investigação adicional do trato urinário, geralmente iniciada com ultrassonografia. A assertiva IV erra ao afirmar que a ITU é comum em homens jovens e que não requer investigação.
A pegadinha central desta questão está na generalização indevida: a banca apresenta condutas que valem para um grupo específico (mulheres com cistite não complicada) como se valessem para todos, e inverte a frequência da ITU entre os sexos. O candidato que não domina a distinção entre ITU complicada e não complicada, e entre os diferentes perfis de pacientes, tende a marcar as assertivas III e IV como corretas.
ITU na Atenção Primária
1Classificação
Não complicada
Mulher jovem saudável
Tratamento empírico
Complicada
Homem (por definição)
Gestante, imunossuprimido
Exige investigação
2Diagnóstico
Cistite: clínico
Nitritos (fita)
Indica bactéria com nitrato redutase
Negativo não exclui ITU
3Tratamento
Cistite não complicada
Empírico, sem urocultura
Pielonefrite aguda
Ambulatorial na maioria
Hospitalização só se grave
4Fatores de risco
Uretra curta (mulher)
Atividade sexual
Espermicidas
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Assertiva I — ✅ Correta
A presença de nitritos na urina é um forte indicador de ITU por bactérias produtoras de nitrato redutase, como a Escherichia coli e outras enterobactérias. Essas bactérias convertem o nitrato urinário em nitrito, que é detectado pela fita reagente do exame de urina. É um teste rápido, específico, mas com sensibilidade limitada — um resultado negativo não exclui ITU, especialmente por microrganismos que não produzem a enzima, como Enterococcus e Staphylococcus saprophyticus.
Assertiva II — ✅ Correta
A cistite não complicada em mulheres pode ser tratada empiricamente, sem urocultura prévia. O diagnóstico é clínico, baseado em disúria, polaciúria e urgência miccional, e o tratamento é iniciado com antibióticos orais de primeira linha, como nitrofurantoína, sulfametoxazol-trimetoprima ou fosfomicina. A urocultura fica reservada para casos de falha terapêutica, recorrência frequente, gestação ou suspeita de complicação.
Assertiva III — ❌ Incorreta
A pielonefrite aguda não deve "sempre" ser tratada com hospitalização e antibióticos intravenosos. A maioria dos casos pode ser manejada ambulatorialmente com antibióticos orais, desde que o paciente esteja clinicamente estável, sem sinais de sepse, com boa tolerância oral e hidratação adequada. A internação é indicada para pacientes com critérios de gravidade, como instabilidade hemodinâmica, vômitos persistentes, imunossupressão, gestação ou falha do tratamento oral. O erro está na generalização indevida — a palavra "sempre" torna a assertiva incorreta.
Assertiva IV — ❌ Incorreta
Em homens jovens e saudáveis, a ITU é incomum, não comum. Quando ocorre, é considerada complicada por definição e sempre requer investigação adicional do trato urinário, geralmente iniciada com ultrassonografia, para afastar anormalidades estruturais ou funcionais, como obstrução, refluxo ou prostatite. A assertiva erra duplamente: ao afirmar que a ITU é comum e ao dispensar a investigação.
Assertiva V — ✅ Correta
A recorrência de ITU em mulheres pode estar associada ao uso de espermicidas. Esses agentes alteram a flora vaginal, reduzindo os lactobacilos protetores e favorecendo a colonização por uropatógenos como a E. coli. Esse é um fator de risco reconhecido e modificável, e a orientação sobre sua suspensão ou troca de método contraceptivo faz parte do manejo da ITU recorrente.
Conclusão: corretas as assertivas I, II e V — portanto, o gabarito é a letra B.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de ITU, memorize o tripé que decide a maioria das assertivas: (1) ITU não complicada em mulher jovem = tratamento empírico, sem urocultura; (2) ITU em homem = sempre complicada, exige investigação; (3) pielonefrite = tratar por 10-14 dias, mas nem sempre hospitalizar. Palavras como "sempre", "nunca" e "todos" são gatilhos de alerta para generalizações indevidas.