Questão de Medicina — Farmacologia e Anestesiologia — FUNDATEC 2024
Medicina›Farmacologia e Anestesiologia
Código
qg175059
Banca
FUNDATEC
Órgão
Prefeitura de Passo Fundo - RS
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Médico
Homem, 74 anos, com insuficiência cardíaca congestiva (classe II NYHA) e doença renal crônica (TFG 30 mL/min), foi recentemente diagnosticado com fibrilação atrial paroxística. Qual dos seguintes anticoagulantes orais é a escolha mais apropriada para esse paciente, considerando sua função renal?
ADabigatrana.
BRivaroxabana.
CApixabana.
DEdoxabana.
ENenhuma das alternativas anteriores está correta.
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GabaritoC — Apixabana.
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Anticoagulantes orais na fibrilação atrial com doença renal crônica
Gabarito: letra C (Apixabana). Em paciente com fibrilação atrial não valvar e TFG de 30 mL/min (doença renal crônica estágio 3B), a apixabana é o anticoagulante oral direto (DOAC) mais apropriado, pois apresenta a menor dependência de excreção renal (cerca de 27%) e é o único DOAC com evidência robusta de segurança e eficácia nessa faixa de função renal, inclusive com redução de dose. Os demais DOACs (dabigatrana, rivaroxabana e edoxabana) têm maior eliminação renal ou exigem ajustes mais complexos nesse cenário.
A escolha do anticoagulante oral em pacientes com fibrilação atrial (FA) e doença renal crônica (DRC) é um desafio clínico frequente, pois a maioria dos anticoagulantes orais diretos (DOACs) tem eliminação renal parcial, e o acúmulo do fármaco pode aumentar o risco de sangramento. A função renal, avaliada pela taxa de filtração glomerular (TFG), é um dos principais determinantes na seleção do fármaco e na sua dose. Nesse contexto, é essencial conhecer a farmacocinética de cada DOAC e as recomendações das diretrizes para ajuste de dose.
Os DOACs disponíveis no Brasil para FA não valvar são: dabigatrana (inibidor direto da trombina), rivaroxabana, apixabana e edoxabana (inibidores do fator Xa). Cada um tem um perfil de eliminação renal distinto: a dabigatrana é a que mais depende da função renal (cerca de 80% de excreção renal), seguida pela edoxabana (cerca de 50%), rivaroxabana (cerca de 35%) e, por fim, a apixabana (cerca de 27%). Essa diferença é crucial: quanto maior a dependência renal, maior o risco de acúmulo e sangramento em pacientes com DRC.
As diretrizes brasileiras de fibrilação atrial (SBC) recomendam que, antes de prescrever um DOAC, a função renal seja avaliada. Para pacientes com TFG entre 30 e 50 mL/min, a apixabana é frequentemente a escolha preferida, pois os estudos clínicos (como o ARISTOTLE) incluíram pacientes com TFG ≥ 25 mL/min e demonstraram benefício consistente. A rivaroxabana, embora aprovada, tem recomendação de cautela em TFG < 50 mL/min, e a dabigatrana é contraindicada em TFG < 30 mL/min. A edoxabana, por sua vez, requer redução de dose em TFG entre 15 e 50 mL/min.
Na prática, para um paciente com TFG de 30 mL/min, a apixabana é a opção mais segura e eficaz, com dose ajustada (5 mg 2x/dia, ou 2,5 mg 2x/dia se preencher critérios de redução). A dabigatrana está contraindicada nessa faixa de função renal, e a rivaroxabana e a edoxabana, embora possam ser usadas com ajuste, têm evidências menos robustas e maior risco de acúmulo. A escolha deve sempre considerar o risco tromboembólico (CHA2DS2-VASc) e o risco de sangramento (HAS-BLED), mas a função renal é um fator decisivo na seleção do fármaco.
A pegadinha desta questão está em associar a doença renal crônica com a necessidade de evitar fármacos com alta excreção renal. O candidato pode ser tentado a escolher a dabigatrana por ser um inibidor direto da trombina, mas ela é justamente a mais contraindicada nesse cenário. A apixabana, por ter a menor dependência renal, é a escolha mais apropriada. Guarde essa hierarquia: em DRC, prefira apixabana; evite dabigatrana; use rivaroxabana e edoxabana com cautela e ajuste de dose.
Anticoagulante
Excreção renal
Uso em TFG 30 mL/min
Justificativa
Dabigatrana
~80%
Contraindicado
Alto risco de acúmulo e sangramento
Rivaroxabana
~35%
Cautela
Evidências menos robustas; maior variabilidade
Apixabana
~27%
Escolha preferida
Menor dependência renal; evidência robusta (ARISTOTLE)
Edoxabana
~50%
Cautela
Requer ajuste; maior dependência renal que apixabana
Alternativa A — ❌ Incorreta
A dabigatrana é um inibidor direto da trombina com cerca de 80% de excreção renal. Em pacientes com TFG < 30 mL/min, seu uso é contraindicado devido ao alto risco de acúmulo e sangramento. A bula e as diretrizes recomendam evitar a dabigatrana em DRC avançada, sendo esta a alternativa mais inadequada para o paciente do caso.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A rivaroxabana é um inibidor do fator Xa com cerca de 35% de excreção renal. Embora possa ser usada em TFG ≥ 30 mL/min, as evidências de segurança e eficácia são menos robustas que as da apixabana nessa faixa de função renal. Além disso, a rivaroxabana tem maior variabilidade farmacocinética e exige cautela em pacientes com DRC, não sendo a escolha mais apropriada quando se compara com a apixabana.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A apixabana é um inibidor do fator Xa com a menor dependência de excreção renal entre os DOACs (cerca de 27%). Estudos clínicos, como o ARISTOTLE, incluíram pacientes com TFG ≥ 25 mL/min e demonstraram redução de AVC, mortalidade e sangramento. Para TFG de 30 mL/min, a apixabana é a escolha mais apropriada, com dose ajustada (5 mg 2x/dia ou 2,5 mg 2x/dia se critérios de redução). É a opção mais segura e eficaz nesse cenário.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A edoxabana é um inibidor do fator Xa com cerca de 50% de excreção renal. Embora seja aprovada para FA não valvar, requer redução de dose em TFG entre 15 e 50 mL/min e tem evidências menos robustas que a apixabana em pacientes com DRC. Além disso, a edoxabana não deve ser usada se a TFG for > 95 mL/min, o que não é o caso, mas sua maior dependência renal a torna menos apropriada que a apixabana.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E afirma que nenhuma das anteriores está correta, o que é falso, pois a apixabana (alternativa C) é uma escolha apropriada e amplamente recomendada para pacientes com FA e TFG de 30 mL/min. Portanto, a alternativa E está incorreta.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a associação entre doença renal e anticoagulação. O candidato pode ser tentado a escolher a dabigatrana por ser um inibidor direto da trombina, mas ela é justamente a mais contraindicada em DRC (TFG < 30 mL/min). A apixabana, por ter a menor excreção renal, é a escolha mais segura. Lembre-se: em DRC, prefira apixabana; evite dabigatrana.
PEGA ESSA DICA!
Para memorizar a ordem de excreção renal dos DOACs, use o mnemônico "DREA": Dabigatrana (80%) > Rivaroxabana (35%) > Edoxabana (50%) > Apixabana (27%). Quanto maior a excreção renal, maior a contraindicação em DRC. Em TFG < 30 mL/min, a dabigatrana é contraindicada; a apixabana é a escolha preferida.