Questão de Medicina — Cardiologia e Alterações Vasculares — FUNDATEC 2024
Medicina›Cardiologia e Alterações Vasculares
Código
qg177162
Banca
FUNDATEC
Órgão
Prefeitura de Segredo - RS
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Médico
Um dos temas mais desafiadores no tratamento de doenças cardíacas agudas é o tratamento de pacientes com Insuficiência Cardíaca Aguda (ICA). São pacientes frequentes nas unidades de emergência, sendo cerca de 30% dos atendimentos por causas cardiológicas. Acerca do tratamento da ICA, analise as assertivas abaixo e assinale V, se verdadeiras, ou F, se falsas.( ) Em pacientes com perfil B, a presença de hipotensão, ainda que discreta, é uma contraindicação ao uso de vasodilatadores.( ) Em pacientes com perfil C, a abordagem deve ter como objetivo melhorar apenas o inotropismo, não sendo indicado o uso de diuréticos.( ) A furosemida deve ser administrada sempre por via intravenosa na fase descompensada.( ) Durante o tratamento da ICA, deve-se suspender o uso de betabloqueador de todos os pacientes.A ordem correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é:
AV – V – F – V.
BV – F – V – F.
CV – V – F – F.
DF – V – V – V.
EF – F – V – F.
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GabaritoE — F – F – V – F.
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Insuficiência Cardíaca Aguda (ICA): perfis hemodinâmicos e tratamento
Gabarito: letra E (F – F – V – F). A sequência correta é: primeira assertiva falsa (hipotensão discreta não contraindica vasodilatadores no perfil B, desde que a PAS seja mantida acima de 90 mmHg), segunda falsa (no perfil C, além de inotrópicos, diuréticos são indicados para congestão), terceira verdadeira (furosemida IV na fase descompensada) e quarta falsa (betabloqueador não deve ser suspenso rotineiramente, apenas em situações específicas como choque cardiogênico). A base é a classificação hemodinâmica dos perfis B, C, L e a abordagem terapêutica da Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Aguda.
A Insuficiência Cardíaca Aguda (ICA) é uma síndrome clínica caracterizada pelo início rápido ou piora dos sinais e sintomas de IC, sendo a principal causa de hospitalização em pacientes acima de 65 anos. O manejo inicial exige a classificação do paciente em perfis hemodinâmicos, baseados na presença de congestão (úmido vs. seco) e na perfusão periférica (quente vs. frio). Essa classificação é fundamental porque direciona as intervenções: vasodilatadores, diuréticos, inotrópicos e, em casos refratários, suporte mecânico.
Os perfis são definidos por dois eixos: congestão (pressões de enchimento elevadas) e perfusão (débito cardíaco). O perfil B (quente e úmido) é o mais comum, caracterizado por congestão pulmonar e sistêmica, mas com perfusão periférica preservada. O perfil C (frio e úmido) apresenta congestão associada a baixo débito e má perfusão, configurando o choque cardiogênico. O perfil L (frio e seco) tem baixo débito sem congestão, frequentemente decorrente de terapia diurética excessiva.
A abordagem terapêutica da ICA segue algoritmos específicos para cada perfil. No perfil B, o objetivo é aliviar a congestão com diuréticos de alça e vasodilatadores, monitorando a pressão arterial. No perfil C, além dos diuréticos, são necessários inotrópicos para melhorar o débito cardíaco. A furosemida, diurético de alça, é o pilar do tratamento da congestão, sendo administrada por via intravenosa na fase aguda para garantir efeito rápido e previsível. Os betabloqueadores, embora fundamentais na IC crônica, devem ser manejados com cautela na fase aguda, mas não suspensos rotineiramente.
A pegadinha desta questão está na generalização indevida: a banca tenta fazer o candidato acreditar que hipotensão discreta contraindica vasodilatadores no perfil B, que diuréticos não são usados no perfil C, e que betabloqueadores devem ser suspensos em todos os pacientes. Na prática, a decisão é individualizada, baseada na PAS e na presença de congestão. A suspensão do betabloqueador só é indicada em situações de choque cardiogênico ou instabilidade hemodinâmica grave, não como regra geral.
Guarde a fronteira entre os perfis hemodinâmicos e as indicações terapêuticas: é exatamente nela que as alternativas se dividem. A seguir, a análise de cada assertiva.
Assertiva
V/F
Justificativa
Em pacientes com perfil B, a presença de hipotensão, ainda que discreta, é uma contraindicação ao uso de vasodilatadores.
F
Hipotensão discreta (PAS 90–100 mmHg) não contraindica vasodilatadores; a contraindicação é PAS < 90 mmHg ou choque.
Em pacientes com perfil C, a abordagem deve ter como objetivo melhorar apenas o inotropismo, não sendo indicado o uso de diuréticos.
F
No perfil C (frio e úmido) há congestão + baixo débito; são indicados inotrópicos e diuréticos.
A furosemida deve ser administrada sempre por via intravenosa na fase descompensada.
V
Via IV é padrão na fase aguda por efeito rápido e previsível.
Durante o tratamento da ICA, deve-se suspender o uso de betabloqueador de todos os pacientes.
F
Suspensão apenas em casos específicos (choque cardiogênico, bradicardia sintomática); não é regra geral.
Assertiva 1 — ❌ Falsa
A assertiva afirma que, em pacientes com perfil B, a presença de hipotensão, ainda que discreta, é contraindicação ao uso de vasodilatadores. Isso é falso. No perfil B (quente e úmido), a congestão é o problema central, e os vasodilatadores são indicados para reduzir a pré-carga e a pós-carga, desde que a pressão arterial sistólica (PAS) seja mantida acima de 90 mmHg. A hipotensão discreta (PAS entre 90 e 100 mmHg) não contraindica o uso, mas exige monitorização cuidadosa e titulação da dose. A contraindicação absoluta ocorre apenas em hipotensão significativa (PAS < 90 mmHg) ou choque. Portanto, a assertiva está incorreta.
Assertiva 2 — ❌ Falsa
A assertiva afirma que, em pacientes com perfil C, a abordagem deve ter como objetivo melhorar apenas o inotropismo, não sendo indicado o uso de diuréticos. Isso é falso. O perfil C (frio e úmido) é caracterizado por congestão E baixo débito. Portanto, a abordagem deve incluir tanto inotrópicos para melhorar a contratilidade quanto diuréticos para aliviar a congestão. A combinação é essencial para estabilizar o paciente. A assertiva está incorreta ao excluir os diuréticos.
Assertiva 3 — ✅ Verdadeira
A assertiva afirma que a furosemida deve ser administrada sempre por via intravenosa na fase descompensada. Isso é verdadeiro. Na ICA, a congestão é o principal alvo terapêutico, e a furosemida intravenosa garante efeito rápido, previsível e com maior biodisponibilidade em comparação à via oral, que pode ter absorção prejudicada pela congestão intestinal e pela redução do fluxo esplâncnico. A via IV é o padrão na fase aguda, com doses iniciais de 20 a 40 mg, podendo ser titulada conforme a resposta. A assertiva está correta.
Assertiva 4 — ❌ Falsa
A assertiva afirma que, durante o tratamento da ICA, deve-se suspender o uso de betabloqueador de todos os pacientes. Isso é falso. Os betabloqueadores são fundamentais no tratamento da IC crônica e não devem ser suspensos rotineiramente na fase aguda. A suspensão só é indicada em situações específicas, como choque cardiogênico, bradicardia sintomática ou broncoespasmo grave. Na maioria dos casos, o betabloqueador deve ser mantido, com ajuste de dose se necessário. A assertiva está incorreta ao generalizar a suspensão para todos os pacientes.
Conclusão: Corretas: apenas a terceira assertiva (V). Portanto, a sequência é F – F – V – F, correspondente à letra E.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a generalização indevida: transforma exceções em regras. No perfil B, hipotensão discreta não contraindica vasodilatadores (a contraindicação é PAS < 90 mmHg). No perfil C, diuréticos são sim indicados, pois há congestão. E betabloqueador não é suspenso em todos os pacientes, apenas em choque ou instabilidade grave. Fique atento a termos como "sempre", "todos" e "apenas" — eles costumam sinalizar a pegadinha.
PEGA ESSA DICA!
Para memorizar os perfis hemodinâmicos, use o mnemônico "Quente e Úmido = B (Bom débito, congestão)", "Frio e Úmido = C (Congestão + baixo débito)", "Frio e Seco = L (Low output, sem congestão)". Associe cada perfil à terapia: B → diuréticos + vasodilatadores; C → inotrópicos + diuréticos; L → prova de volume. Essa associação direta resolve a maioria das questões sobre o tema.