Residência Médica e Multiprofissional em Saúde - Anestesiologia
Um paciente de 50 anos apresenta cefaleia unilateral, de início súbito e intensidade severa, acompanhada de ptose palpebral e miose ipsilateral. A dor é descrita como em pontadas e dura cerca de 30 minutos, ocorrendo várias vezes ao dia. Considerando o diagnóstico diferencial de cefaleias, qual é a hipótese diagnóstica mais provável?
AEnxaqueca com aura.
BCefaleia do tipo tensional.
CCefaleia em salvas.
DCefaleia por hipertensão intracraniana idiopática.
ENeuralgia do trigêmeo.
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GabaritoC — Cefaleia em salvas.
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Gabarito: letra C. O quadro descrito — cefaleia unilateral de início súbito, intensidade severa, em pontadas, com duração de cerca de 30 minutos, várias crises ao dia, acompanhada de ptose e miose ipsilaterais — é o protótipo da cefaleia em salvas, uma cefaleia trigêmino-autonômica. Os critérios diagnósticos da ICHD-3 (International Classification of Headache Disorders, 3ª edição) exigem dor unilateral forte/muito forte, de 15 a 180 minutos, acompanhada de pelo menos um sintoma autonômico ipsilateral (miose e/ou ptose, lacrimejamento, congestão nasal, etc.), com frequência de 1 a cada 2 dias até 8 crises/dia.
A cefaleia em salvas (cluster headache) é a forma mais comum das cefaleias trigêmino-autonômicas, um grupo de cefaleias primárias caracterizadas por dor unilateral intensa e sinais autonômicos cranianos ipsilaterais. A fisiopatologia envolve a ativação de uma via trigêmino-parassimpática, com hipermetabolismo hipotalâmico ipsilateral à dor durante as crises. É mais prevalente em homens (85% dos casos), com início entre a 3ª e 5ª décadas de vida, e as crises tendem a ocorrer em surtos (salvas) sazonais, frequentemente no mesmo horário do dia, podendo despertar o paciente à noite. A duração típica da crise é de 15 a 180 minutos (habitualmente 45 a 90 minutos), e a frequência varia de 1 crise a cada 2 dias até 8 crises por dia. Os sintomas autonômicos ipsilaterais incluem hiperemia conjuntival, lacrimejamento, congestão nasal, rinorreia, sudorese frontal/facial, miose, ptose e edema palpebral. Durante a crise, o paciente fica agitado, inquieto, incapaz de deitar-se, andando de um lado para o outro.
O diagnóstico diferencial com outras cefaleias primárias é essencial. A enxaqueca com aura (alternativa A) é precedida por sintomas neurológicos focais (visuais, sensitivos, motores), com dor pulsátil unilateral, duração de 4 a 72 horas, frequentemente acompanhada de náuseas, vômitos, fotofobia e fonofobia, e piora com atividade física. A cefaleia do tipo tensional (alternativa B) é bilateral, em pressão/aperto, de intensidade leve a moderada, sem piora com atividade física, sem náuseas/vômitos, e pode durar de 30 minutos a 7 dias. A cefaleia por hipertensão intracraniana idiopática (alternativa D) é uma cefaleia secundária, geralmente difusa, progressiva, que piora ao deitar e pode estar associada a papiledema, alterações visuais e outras manifestações de hipertensão intracraniana. A neuralgia do trigêmeo (alternativa E) é uma dor facial paroxística, em choque, de curta duração (segundos a 2 minutos), desencadeada por estímulos táteis em zonas-gatilho, sem sintomas autonômicos.
A pegadinha central desta questão é a presença de ptose e miose ipsilaterais, que podem sugerir erroneamente uma síndrome de Horner (como na dissecção de carótida) ou outra causa secundária. No entanto, no contexto de cefaleia em salvas, esses sinais são manifestações autonômicas ipsilaterais típicas, decorrentes da ativação do reflexo trigêmino-parassimpático. A banca explora exatamente essa associação: o candidato que não conhece os critérios da ICHD-3 pode confundir com enxaqueca (pela unilateralidade) ou com neuralgia do trigêmeo (pela dor em pontadas), mas a duração de 30 minutos, a frequência de várias crises ao dia e os sintomas autonômicos ipsilaterais fecham o diagnóstico de cefaleia em salvas.
Para fixar o diagnóstico diferencial, compare as principais características:
Critério
Cefaleia em salvas
Enxaqueca
Tensional
Neuralgia do trigêmeo
Lateralidade
Unilateral, sempre do mesmo lado
Unilateral ou bilateral
Bilateral
Unilateral (face)
Caráter da dor
Pontada, muito intensa
Pulsátil, latejante
Pressão, aperto
Choque, lancinante
Duração
15–180 min
4–72 h
30 min–7 dias
Segundos a 2 min
Sintomas autonômicos
Sim (ipsilaterais)
Raros
Não
Não
Frequência
1/2 dias a 8/dia
Episódica
Variável
Paroxística
Comportamento
Agitação, inquietude
Prefere repouso
Normal
Imobilidade
Guarde a tríade que decide a questão: dor unilateral muito intensa + duração curta (15–180 min) + sintomas autonômicos ipsilaterais (miose, ptose, lacrimejamento). É exatamente essa combinação que separa a cefaleia em salvas das demais alternativas.
Cefaleias trigêmino-autonômicas
1Cefaleia em salvas
Dor unilateral muito intensa
Duração 15–180 min
Sintomas autonômicos ipsilaterais
Agitação/inquietude
2Outras formas
Hemicraniana paroxística
SUNCT/SUNA
3Diagnóstico diferencial
Enxaqueca
Pulsátil, 4–72 h
Náuseas, foto/fonofobia
Tensional
Bilateral, pressão/aperto
Leve a moderada
Neuralgia do trigêmeo
Choque, segundos a 2 min
Zonas-gatilho
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A enxaqueca com aura é precedida por sintomas neurológicos focais reversíveis (aura visual, sensitiva ou motora), com dor pulsátil, duração de 4 a 72 horas, e frequentemente acompanhada de náuseas, vômitos, fotofobia e fonofobia. No caso, não há aura, a dor é em pontadas (não pulsátil), dura apenas 30 minutos e há ptose/miose ipsilaterais — sinais autonômicos que não são típicos da enxaqueca. A duração curta e a frequência de várias crises ao dia afastam o diagnóstico.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A cefaleia do tipo tensional é bilateral, em pressão/aperto, de intensidade leve a moderada, sem piora com atividade física, e não apresenta sintomas autonômicos como ptose e miose. A dor em pontadas, de intensidade severa, unilateral e com duração de 30 minutos, não se encaixa no perfil tensional. Além disso, a cefaleia tensional não costuma ocorrer várias vezes ao dia com essa intensidade.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A cefaleia em salvas é a hipótese mais provável. Os critérios da ICHD-3 incluem: pelo menos 5 crises com dor forte/muito forte unilateral (orbitária, supraorbitária ou temporal), durando 15–180 minutos, acompanhadas de pelo menos um sintoma autonômico ipsilateral (miose e/ou ptose, hiperemia conjuntival, lacrimejamento, congestão nasal, rinorreia, sudorese frontal/facial, edema palpebral) ou sensação de inquietude/agitação, com frequência de 1 a cada 2 dias até 8 crises/dia. O caso preenche todos esses critérios: dor unilateral severa em pontadas, duração de 30 minutos, várias crises ao dia, ptose e miose ipsilaterais.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A cefaleia por hipertensão intracraniana idiopática (pseudotumor cerebral) é uma cefaleia secundária, geralmente difusa, progressiva, que piora ao deitar e pode estar associada a papiledema, alterações visuais (diplopia, escotomas), zumbido e náuseas. Não apresenta o padrão de crises curtas, unilaterais, com sintomas autonômicos ipsilaterais. A ausência de sinais de hipertensão intracraniana (papiledema, déficits neurológicos) e o padrão temporal das crises afastam essa hipótese.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A neuralgia do trigêmeo é caracterizada por dor facial paroxística, em choque, de curta duração (segundos a 2 minutos), desencadeada por estímulos táteis em zonas-gatilho (falar, mastigar, tocar o rosto). Não há sintomas autonômicos ipsilaterais como ptose e miose, e a dor não dura 30 minutos nem ocorre várias vezes ao dia de forma contínua. A localização periorbital e a presença de sinais autonômicos são típicas da cefaleia em salvas, não da neuralgia.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a associação de ptose e miose ipsilaterais, que pode levar o candidato a pensar em síndrome de Horner ou em causas secundárias (dissecção de carótida). No contexto de cefaleia em salvas, esses sinais são manifestações autonômicas ipsilaterais típicas, decorrentes da ativação do reflexo trigêmino-parassimpático. Fique atento: a presença de ptose/miose em uma cefaleia unilateral de curta duração e alta frequência é um forte indicativo de cefaleia trigêmino-autonômica, não de uma emergência vascular.
PEGA ESSA DICA!
Para o diagnóstico diferencial das cefaleias, memorize a tríade da cefaleia em salvas: dor unilateral muito intensa + duração de 15–180 min + sintomas autonômicos ipsilaterais. Compare sempre com a enxaqueca (duração 4–72 h, pulsátil, sem sintomas autonômicos) e com a neuralgia do trigêmeo (dor em choque, segundos, sem sintomas autonômicos). Na prova, leia atentamente a duração e a presença de sinais autonômicos — são os critérios que mais frequentemente separam as alternativas.