Questão de Medicina — Clínica Médica Humana — FUNDATEC 2024
Medicina›Clínica Médica Humana
Código
qg179207
Banca
FUNDATEC
Órgão
SES-RJ
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica e Multiprofissional em Saúde - Anestesiologia
Um paciente de 60 anos é admitido com quadro de diarreia crônica e perda de peso. Os exames laboratoriais revelam acidose metabólica com ânion gap normal e elevação de cloro sérico. Qual das opções abaixo explica corretamente a causa da acidose hiperclorêmica nesse paciente?
AAumento da produção de corpos cetônicos.
BPerda excessiva de bicarbonato pelo trato gastrointestinal.
CAcúmulo de lactato devido à hipoperfusão tecidual.
DProdução excessiva de ácido úrico.
EAcúmulo de ácidos orgânicos pela insuficiência hepática.
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GabaritoB — Perda excessiva de bicarbonato pelo trato gastrointestinal.
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Acidose metabólica hiperclorêmica: mecanismos e causas
Gabarito: letra B. A perda excessiva de bicarbonato pelo trato gastrointestinal, como ocorre na diarreia crônica, é a causa clássica de acidose metabólica com ânion gap normal e hipercloremia — exatamente o quadro do paciente. As demais alternativas descrevem causas de acidose metabólica com ânion gap aumentado, não hiperclorêmica.
A acidose metabólica é um distúrbio caracterizado pela redução do pH sanguíneo e do bicarbonato sérico. Para entender a causa, o primeiro passo é calcular o ânion gap (AG), que é a diferença entre os cátions e ânions mensuráveis no plasma: AG = Na⁺ − (Cl⁻ + HCO₃⁻). O valor normal é de aproximadamente 8 a 12 mEq/L. Quando o AG está normal (acidose hiperclorêmica), significa que a queda do bicarbonato é acompanhada por um aumento equivalente do cloro, mantendo o equilíbrio eletroquímico. Isso ocorre em duas situações principais: perda de bicarbonato (pelo trato gastrointestinal ou pelos rins) ou incapacidade renal de excretar ácidos (como na acidose tubular renal).
No caso apresentado, o paciente tem diarreia crônica e perda de peso. A diarreia é a causa mais comum de acidose metabólica hiperclorêmica. O trato gastrointestinal, especialmente o intestino delgado e o cólon, secreta bicarbonato em troca de cloro. Na diarreia, há perda excessiva de bicarbonato nas fezes, levando à acidose. O rim, em resposta, retém sódio e cloro para manter o volume, o que resulta em hipercloremia. O AG permanece normal porque não há acúmulo de ácidos orgânicos.
As causas de acidose metabólica com AG aumentado são diferentes: produção excessiva de ácidos endógenos (cetoácidos, lactato), acúmulo de ácidos exógenos (intoxicações) ou insuficiência renal avançada. Nesses casos, o ânion que acompanha o hidrogênio não é o cloro, mas sim um ânion não mensurável (cetoácido, lactato, sulfato, fosfato), o que aumenta o AG. A distinção entre AG normal e aumentado é o passo fundamental para a investigação etiológica.
A pegadinha desta questão está em associar a diarreia a um mecanismo de AG aumentado. O candidato pode pensar que a perda de líquidos leva à hipoperfusão e acidose láctica, mas a diarreia crônica, sem sinais de choque, causa perda direta de bicarbonato. A banca explora exatamente essa confusão entre os dois grandes grupos de acidose metabólica.
Guarde o critério decisivo: acidose hiperclorêmica (AG normal) = perda de HCO₃⁻ ou defeito de excreção de ácido; acidose com AG aumentado = acúmulo de ácido. É nessa fronteira que as alternativas se dividem.
Acidose metabólica
1Ânion gap normal (hiperclorêmica)
Perda de HCO₃⁻ (diarreia, TGI)
Defeito de excreção de ácido (ATR)
2Ânion gap aumentado
Cetoacidose
Lactato
Insuficiência renal
Tóxicos
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Alternativa A — ❌ Incorreta
O aumento da produção de corpos cetônicos (cetoacidose) causa acidose metabólica com ânion gap aumentado, pois os cetoácidos (acetoacetato e β-hidroxibutirato) são ânions não mensuráveis que elevam o AG. Não se encaixa no quadro de AG normal e hipercloremia.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A perda excessiva de bicarbonato pelo trato gastrointestinal, como na diarreia crônica, é a causa clássica de acidose metabólica hiperclorêmica. O bicarbonato é perdido nas fezes, e o rim retém cloro para manter o equilíbrio eletroquímico, resultando em AG normal e hipercloremia.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O acúmulo de lactato (acidose láctica) ocorre por hipoperfusão tecidual e causa acidose metabólica com ânion gap aumentado, pois o lactato é um ânion não mensurável. Não há evidência de hipoperfusão no caso descrito.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A produção excessiva de ácido úrico não é uma causa reconhecida de acidose metabólica. A hiperuricemia pode ocorrer em condições como a síndrome de lise tumoral, mas não é um mecanismo primário de acidose. Além disso, o ácido úrico não é um ânion que se acumula na acidose metabólica.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O acúmulo de ácidos orgânicos pela insuficiência hepática não é um mecanismo típico de acidose metabólica. A insuficiência hepática pode causar acidose láctica em casos graves, mas não é a causa mais comum e não se relaciona diretamente com o quadro de diarreia crônica. Além disso, a acidose láctica cursaria com AG aumentado.