Questão de Medicina — Cirurgia Geral — FUNDATEC 2024
Medicina›Cirurgia Geral
Código
qg179395
Banca
FUNDATEC
Órgão
SES-RJ
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica e Multiprofissional em Saúde - Cirurgia Pediátrica
De acordo com o ATLS – 10ª edição, a respeito do atendimento ao paciente vítima de queimadura grave, é correto afirmar que:
AHá sempre indicação de antibioticoprofilaxia no atendimento inicial do paciente grande queimado.
BEm paciente vítima de queimadura química, há indicação de lavar as feridas com agentes neutralizantes das soluções causadoras da queimadura.
CLesões elétricas geralmente resultam em contratura da extremidade afetada, um membro contraído com uma pequena ferida de entrada elétrica exclui a possibilidade de que se tenha lesão tecidual mais profunda, sendo apenas a ferida superficial.
DA ressuscitação volêmica exagerada resulta em edema, o que pode levar a complicações, como progressão da profundidade da queimadura ou síndrome compartimental abdominal ou de membros.
ENão há necessidade de revisão do status vacinal antitétano.
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GabaritoD — A ressuscitação volêmica exagerada resulta em edema, o que pode levar a complicações, como progressão da profundidade da queimadura ou síndrome compartimental abdominal ou de membros.
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Atendimento ao paciente grande queimado: ressuscitação volêmica e complicações
Gabarito: letra D. A ressuscitação volêmica exagerada no grande queimado é um erro clássico: o excesso de fluidos gera edema que pode aprofundar a queimadura e desencadear síndrome compartimental, tanto de membros quanto abdominal. As demais alternativas contrariam as diretrizes do ATLS – 10ª edição, que orientam contra a antibioticoprofilaxia de rotina, contra agentes neutralizantes em queimaduras químicas, alertam para a gravidade oculta das lesões elétricas e exigem a revisão do status vacinal antitetânico.
A queimadura grave é uma das situações mais desafiadoras do trauma, pois combina lesão cutânea extensa com resposta inflamatória sistêmica e perda volêmica maciça. O ATLS – 10ª edição (American College of Surgeons) estrutura o atendimento inicial em torno do ABCDE, e a letra C (circulation) é justamente o momento em que se inicia a reanimação volêmica precoce, com acesso venoso periférico calibroso. A fórmula de Parkland (4 mL × peso × %SCQ nas primeiras 24h) é a base do cálculo, mas o que a banca explora aqui é o outro lado da moeda: a ressuscitação volêmica não é inofensiva, e o excesso de fluido é uma complicação iatrogênica temida.
O edema resultante da hiper-hidratação não é apenas um problema estético. No paciente queimado, o edema intersticial disseminado já é uma consequência natural da lesão térmica, devido ao aumento da permeabilidade capilar. Quando a ressuscitação é exagerada, esse edema se intensifica e pode: (1) aumentar a pressão tissular a ponto de comprometer a perfusão capilar, convertendo uma queimadura de espessura parcial em uma de espessura total (progressão da profundidade); (2) elevar a pressão dentro de compartimentos osteofasciais, causando síndrome compartimental de membros; e (3) elevar a pressão intra-abdominal, levando à síndrome compartimental abdominal, que compromete a perfusão renal e visceral. É exatamente essa cadeia fisiopatológica que a alternativa D descreve com precisão.
A conduta correta, portanto, é titular a infusão de fluidos pelos parâmetros clínicos — diurese (0,5 mL/kg/h no adulto), frequência cardíaca, pressão arterial e nível de consciência — e não simplesmente infundir o volume calculado de forma cega. O ATLS enfatiza que a fórmula de Parkland é um ponto de partida, não uma ordem inquestionável, e que o paciente deve ser reavaliado continuamente para ajustar a velocidade de infusão. Essa é a pegadinha central da questão: muitos candidatos decoram a fórmula e esquecem que a ressuscitação volêmica é um processo dinâmico, com riscos reais de super-hidratação.
As demais alternativas exploram outros erros comuns no manejo inicial do queimado: o uso indiscriminado de antibióticos, a lavagem com neutralizantes em queimaduras químicas, a subestimação das lesões elétricas e o esquecimento da profilaxia antitetânica. Cada uma delas será analisada em detalhe a seguir, mas o fio condutor é o mesmo: o ATLS preconiza condutas baseadas em evidências, que evitam tanto a omissão quanto o excesso terapêutico.
Alternativa
Afirmação
Análise (ATLS – 10ª edição)
A
Antibioticoprofilaxia de rotina no grande queimado
❌ Incorreta — não há indicação de antibiótico sistêmico de rotina; usa-se antimicrobiano tópico
B
Lavar queimadura química com agentes neutralizantes
❌ Incorreta — deve-se lavar com água corrente em abundância; neutralizantes podem causar reação exotérmica
C
Pequena ferida de entrada elétrica exclui lesão profunda
❌ Incorreta — lesão elétrica pode ser extensa e profunda, mesmo com ferida cutânea mínima
D
Ressuscitação volêmica exagerada causa edema e complicações
✅ Correta — edema pode aprofundar a queimadura e causar síndrome compartimental abdominal ou de membros
E
Não há necessidade de revisão do status vacinal antitetânico
❌ Incorreta — é obrigatório verificar e atualizar a vacinação antitetânica
Ressuscitação volêmica no grande queimado: Fórmula de Parkland (4 mL × peso × %SCQ, 24 horas); Titulação pela diurese (0,5 mL/kg/h no adulto); Risco do excesso (Edema generalizado, Progressão da profundidade, Síndrome compartimental de membros, Síndrome compartimental abdominal)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A afirmação de que "há sempre indicação de antibioticoprofilaxia no atendimento inicial do paciente grande queimado" é falsa. O ATLS e as diretrizes atuais de tratamento de queimaduras não recomendam antibioticoprofilaxia sistêmica de rotina na admissão, pois não há evidência de que ela reduza a incidência de infecção ou melhore a sobrevida — pelo contrário, pode selecionar bactérias resistentes e expor o paciente a efeitos adversos desnecessários. A antibioticoterapia é reservada para casos de infecção estabelecida ou para profilaxia cirúrgica no perioperatório de desbridamento e enxertia, por no máximo 24 horas. O cuidado inicial da ferida envolve limpeza, desbridamento e curativos com antimicrobianos tópicos, como a sulfadiazina de prata, e não antibióticos sistêmicos de rotina.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que em queimaduras químicas há indicação de lavar as feridas com agentes neutralizantes. Isso é incorreto e perigoso: o ATLS orienta que a lavagem deve ser feita com água corrente em abundância, e não com soluções neutralizantes. Os agentes neutralizantes podem gerar reação exotérmica (liberação de calor) no contato com o agente químico, agravando a lesão térmica. Além disso, a neutralização química é imprevisível e pode não ser completa, dando falsa sensação de segurança. A conduta correta é remover as roupas contaminadas e irrigar a área com água em grande volume, por tempo prolongado, enquanto se avalia a necessidade de transferência para centro de queimados.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa comete um erro grave ao afirmar que uma pequena ferida de entrada elétrica com membro contraído exclui a possibilidade de lesão tecidual mais profunda. Na verdade, lesões elétricas são notoriamente traiçoeiras: a ferida de entrada pode ser mínima, mas a corrente elétrica percorre os tecidos de alta condutividade (nervos, vasos, músculos), causando destruição extensa e profunda, muito além do que sugere a lesão cutânea superficial. A contratura da extremidade é um sinal de alerta, não de tranquilidade — pode indicar lesão muscular grave, rabdomiólise e risco de síndrome compartimental. O ATLS enfatiza que a extensão da lesão interna em queimaduras elétricas é frequentemente subestimada, e o paciente deve ser avaliado com atenção para lesões musculares profundas, necessidade de fasciotomia e monitorização cardíaca.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Esta é a alternativa correta, pois descreve com precisão uma complicação reconhecida da ressuscitação volêmica excessiva. O ATLS – 10ª edição alerta que a reanimação volêmica exagerada leva a edema generalizado, que pode: (1) aumentar a profundidade da queimadura, pois o edema eleva a pressão intersticial e compromete a microcirculação, convertendo zonas de queimadura parcial em espessura total; (2) causar síndrome compartimental de membros, pela elevação da pressão dentro dos compartimentos osteofasciais, com risco de isquemia e necrose muscular; e (3) causar síndrome compartimental abdominal, com elevação da pressão intra-abdominal, comprometendo a perfusão renal, hepática e intestinal. Por isso, a monitorização da diurese e a titulação cuidadosa dos fluidos são fundamentais — o volume calculado pela fórmula de Parkland é apenas um guia inicial, e a infusão deve ser ajustada continuamente à resposta clínica do paciente.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A afirmação de que "não há necessidade de revisão do status vacinal antitetânico" é flagrantemente incorreta. O ATLS e todas as diretrizes de trauma enfatizam que a queimadura é uma situação ideal para a proliferação do Clostridium tetani, o bacilo causador do tétano. Portanto, é obrigatório verificar o estado vacinal do paciente e administrar a vacina antitetânica e/ou a imunoglobulina conforme o esquema de profilaxia recomendado. A conduta depende do histórico de vacinação: pacientes com esquema completo e reforço há menos de 5 anos não precisam de reforço; entre 5 e 10 anos, recebem reforço; e mais de 10 anos ou esquema incompleto, recebem vacina e imunoglobulina. Esquecer essa etapa é um erro que pode custar a vida do paciente.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a tendência do candidato de decorar a fórmula de Parkland e esquecer que a ressuscitação volêmica tem riscos. A alternativa D inverte a lógica: em vez de perguntar "quanto infundir", pergunta "o que acontece se infundir demais". O erro clássico é marcar a alternativa A (antibioticoprofilaxia), que parece "protetora", mas contraria a diretriz de não usar antibióticos de rotina. Lembre-se: no ATLS, a regra é titular fluidos pela resposta clínica, não infundir cegamente o volume calculado.
NÃO CAIA NESSA!
Para questões de ATLS sobre queimaduras, memorize os pilares do atendimento inicial: (1) via aérea — risco de edema e intubação precoce; (2) circulação — acesso venoso calibroso e reanimação volêmica com fórmula de Parkland, titulada pela diurese; (3) feridas — limpeza com água e clorexidina, curativos com antimicrobiano tópico, sem antibiótico sistêmico de rotina; (4) química — lavar com água em abundância, nunca neutralizantes; (5) elétrica — lesão interna pode ser muito maior que a ferida cutânea; (6) tétano — sempre revisar e atualizar a vacinação. Essa lista cobre quase todas as pegadinhas da banca.
Gabarito: letra D — a ressuscitação volêmica exagerada causa edema, com risco de progressão da profundidade da queimadura e síndrome compartimental abdominal ou de membros.