Pular para o conteúdo principal

Questão de Medicina — Medicina Intensiva — FUNDATEC 2024

MedicinaMedicina Intensiva
Código
qg179396
Banca
FUNDATEC
Órgão
SES-RJ
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica e Multiprofissional em Saúde - Endocrinologia e Metabologia
Um paciente de 50 anos, admitido na UTI com Síndrome da Angústia Respiratória do Adulto (SARA) após uma pneumonia grave, apresenta hipoxemia refratária e requer suporte ventilatório. Durante o manejo, qual das seguintes intervenções é considerada a mais apropriada para melhorar a oxigenação e minimizar os danos pulmonares?
  1. AVentilação mecânica com volumes correntes altos para garantir a ventilação.
  2. BUtilização de oxigenoterapia de alto fluxo sem suporte ventilatório.
  3. CVentilação mecânica com pressão positiva expiratória final (PEEP) adequada.
  4. DAdministração de corticosteroides em doses altas.
  5. EVentilação não invasiva como primeira linha de tratamento.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Ventilação mecânica com pressão positiva expiratória final (PEEP) adequada.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo (SDRA/SARA): manejo ventilatório

Gabarito: letra C. Na SDRA, a estratégia mais apropriada para melhorar a oxigenação e minimizar danos pulmonares é a ventilação mecânica protetora com PEEP adequada, associada a baixos volumes correntes (4–8 mL/kg de peso predito) e pressão de platô < 30 cmH2O. Essa abordagem é o padrão-ouro, conforme as diretrizes atuais e o estudo ARDSNet, que demonstrou redução de mortalidade com essa estratégia.

A SDRA é uma síndrome de insuficiência respiratória aguda caracterizada por hipoxemia refratária e infiltrados bilaterais, decorrente de um processo inflamatório pulmonar difuso que aumenta a permeabilidade alveolar-capilar, levando a edema pulmonar não cardiogênico. O pulmão na SDRA é heterogêneo: há áreas colapsadas (atelectásicas), áreas consolidadas e áreas relativamente preservadas. Essa heterogeneidade é a chave para entender o dano pulmonar induzido pelo ventilador (VILI). Quando ventilamos com volumes correntes altos, o ar tende a seguir para as áreas mais complacentes (as preservadas), hiperdistendendo-as, enquanto as áreas colapsadas permanecem fechadas. Isso gera estresse e strain mecânico, lesão por atelectrauma (abertura e fechamento cíclico) e liberação de mediadores inflamatórios (biotrauma), perpetuando a lesão pulmonar.

A ventilação protetora, portanto, tem dois pilares: (1) baixo volume corrente (4–8 mL/kg de peso predito) para evitar a hiperdistensão alveolar e manter a pressão de platô < 30 cmH2O; e (2) PEEP adequada para recrutar alvéolos colapsados, melhorar a relação ventilação/perfusão e reduzir o shunt intrapulmonar, melhorando a oxigenação. A PEEP também previne o atelectrauma ao manter os alvéolos abertos ao final da expiração. A titulação da PEEP deve ser individualizada, frequentemente guiada por tabelas de PEEP/FiO2 ou por métodos de recrutamento, buscando o melhor equilíbrio entre recrutamento alveolar e hiperdistensão.

Na prática, após a intubação, ajusta-se o volume corrente inicial em 8 mL/kg e reduz-se para 6 mL/kg conforme tolerado, com frequência respiratória em torno de 30 ipm para compensar a redução do volume minuto, PEEP inicial de 10 cmH2O e FiO2 para manter SpO2 ≥ 90–95%. A gasometria deve ser coletada cerca de 30 minutos após os ajustes iniciais. Se o paciente permanecer com hipoxemia refratária (SpO2 < 90% com FiO2 > 80%), outras estratégias de resgate são consideradas, como posição prona, bloqueio neuromuscular, óxido nítrico inalatório e ECMO. A posição prona, por exemplo, melhora a oxigenação ao recrutar áreas dorsais do pulmão e é recomendada para pacientes com relação PaO2/FiO2 < 150 mmHg.

A distinção crucial aqui é entre a ventilação protetora (baixo volume corrente + PEEP) e as estratégias não protetoras ou de resgate. A alternativa correta (C) captura exatamente o pilar da ventilação protetora. As demais alternativas representam erros conceituais ou estratégias inadequadas como primeira linha. A banca explora a confusão entre o que é a base do tratamento (ventilação protetora com PEEP) e o que são terapias adjuvantes ou mesmo prejudiciais. Guarde: na SDRA, o cuidado padrão é a ventilação mecânica protetora com baixo volume corrente e PEEP adequada — é nesse critério que as alternativas se dividem.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Volumes correntes altos são exatamente o oposto da estratégia protetora. Na SDRA, o pulmão é heterogêneo e complacente em apenas parte de sua extensão; ventilar com volumes altos hiperdistende as áreas saudáveis, causando lesão pulmonar induzida pelo ventilador (VILI), com aumento de estresse e strain, atelectrauma e biotrauma. O estudo ARDSNet demonstrou que a ventilação com volume corrente de 6 mL/kg de peso predito reduz a mortalidade em comparação com 12 mL/kg. Portanto, volumes altos não apenas não melhoram a oxigenação de forma sustentada, como aumentam os danos pulmonares.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A oxigenoterapia de alto fluxo (CNAF) é uma opção para insuficiência respiratória hipoxêmica leve a moderada, sem indicação imediata de intubação. No entanto, o paciente do enunciado já está na UTI com SDRA e hipoxemia refratária, o que indica falência da oxigenoterapia convencional e necessidade de suporte ventilatório invasivo. O CNAF gera apenas uma PEEP discreta (3–5 cmH2O), insuficiente para recrutar alvéolos colapsados na SDRA grave. Além disso, o atraso na intubação pode ser prejudicial. A alternativa erra ao propor uma terapia de suporte não invasivo como substituta da ventilação mecânica em um cenário de hipoxemia refratária.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A ventilação mecânica com PEEP adequada é o componente central da estratégia protetora na SDRA. A PEEP recruta alvéolos colapsados, melhora a relação ventilação/perfusão, reduz o shunt e, consequentemente, melhora a oxigenação. Associada a baixos volumes correntes (4–8 mL/kg de peso predito) e pressão de platô < 30 cmH2O, a PEEP minimiza o dano pulmonar induzido pelo ventilador, prevenindo tanto a hiperdistensão quanto o atelectrauma. Essa é a recomendação das principais diretrizes e do estudo ARDSNet, sendo o cuidado padrão no manejo da SDRA.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Corticosteroides em doses altas não são recomendados como primeira linha na SDRA. Embora haja racional para seu uso (inibir a resposta inflamatória), os estudos são inconsistentes quanto ao benefício clínico, e doses altas podem aumentar o risco de infecções e outras complicações. As diretrizes atuais sugerem, no máximo, o uso de corticosteroides em doses moderadas em casos selecionados (ex.: SDRA moderada a grave precoce, especialmente na COVID-19), mas nunca como substitutos da ventilação protetora. A alternativa erra ao colocar os corticosteroides como a intervenção mais apropriada para melhorar a oxigenação, quando na verdade o pilar é a ventilação mecânica.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A ventilação não invasiva (VNI) não é recomendada como primeira linha na SDRA grave. A SDRA é uma forma de insuficiência respiratória hipoxêmica com alta taxa de falha da VNI (em torno de 50%), especialmente em pacientes com hipoxemia refratária. O uso de VNI pode atrasar a intubação e piorar o prognóstico. A VNI é mais indicada em condições como DPOC exacerbado com acidose respiratória ou edema agudo de pulmão cardiogênico. Na SDRA, a via aérea definitiva com ventilação mecânica invasiva protetora é a abordagem padrão.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre o que é a base do tratamento (ventilação protetora com PEEP) e o que são terapias adjuvantes (corticosteroides, VNI, CNAF) ou estratégias prejudiciais (volumes altos). O candidato pode ser tentado a escolher a alternativa D (corticosteroides) por ser um tratamento "farmacológico" que parece mais específico, ou a alternativa E (VNI) por ser menos invasiva. No entanto, na SDRA com hipoxemia refratária, a prioridade é a ventilação mecânica protetora com PEEP adequada. Lembre-se: o enunciado pede a intervenção "mais apropriada para melhorar a oxigenação e minimizar os danos pulmonares" — isso descreve exatamente a ventilação protetora.

NÃO CAIA NESSA!

Para questões de SDRA, memorize a tríade da ventilação protetora: baixo volume corrente (4–8 mL/kg), PEEP adequada e pressão de platô < 30 cmH2O. Se a alternativa mencionar qualquer uma dessas, é forte candidata a correta. E desconfie de alternativas que propõem volumes altos, VNI como primeira linha ou corticosteroides em doses altas como terapia principal — todas são armadilhas clássicas.

Gabarito: letra C

Link permanente: /questoes/qg179396