Questão de Medicina — Aspectos de Ética na Pesquisa, Ética Médica e Perícia Médica — FUNDATEC 2024
Medicina›Aspectos de Ética na Pesquisa, Ética Médica e Perícia Médica
Código
qg180423
Banca
FUNDATEC
Órgão
UFCSPA - RS
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área: Medicina do Trabalho
A respeito dos potenciais vieses, limitações e das vantagens da metodologia de estudo epidemiológico de caso-controle, analise as seguintes assertivas:I. Não há possibilidade de pareamento ou matching.II. Constitui uma vantagem importante na abordagem inicial ideal para testar a associação de uma doença com múltiplas possíveis variáveis independentes.III. Não fornece medidas diretas de risco.IV. Apresenta dificuldade ou impossibilidade de determinação de uma relação temporal clara entre o fator suspeito e a doença.Quais estão corretas?
AApenas I e II.
BApenas I e III.
CApenas II e IV.
DApenas III e IV.
EApenas II, III e IV.
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GabaritoE — Apenas II, III e IV.
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Estudo de caso-controle: vieses, limitações e vantagens
Gabarito: letra E — estão corretas as assertivas II, III e IV. O estudo de caso-controle é um delineamento observacional retrospectivo que parte do desfecho (doença) em direção à exposição, o que lhe confere vantagens (testar múltiplas exposições) e limitações (não mede risco diretamente, dificuldade de estabelecer temporalidade), mas o pareamento é perfeitamente possível e até recomendado — por isso a assertiva I é falsa.
O estudo de caso-controle é um dos delineamentos epidemiológicos mais utilizados, especialmente para investigar doenças raras ou com longo período de latência. Para compreendê-lo, é essencial dominar sua lógica: seleciona-se um grupo de indivíduos com a doença (casos) e um grupo sem a doença (controles), e compara-se a frequência de exposição a fatores suspeitos entre os dois grupos. Essa estrutura "retrospectiva" (do efeito para a causa) é a chave para entender tanto suas vantagens quanto suas limitações.
A principal vantagem do delineamento é a eficiência: como se parte de casos já diagnosticados, é possível estudar doenças raras sem acompanhar milhares de pessoas por anos, como seria necessário em um estudo de coorte. Além disso, por ser relativamente rápido e barato, é frequentemente a abordagem inicial ideal para gerar hipóteses — testando a associação de uma doença com múltiplas variáveis independentes simultaneamente (assertiva II correta). É um estudo "gerador de hipóteses", não "confirmatório".
As limitações decorrem da mesma lógica retrospectiva. Primeiro, como não há acompanhamento prospectivo, não se pode calcular diretamente a incidência da doença nos expostos e não expostos — logo, não se obtém risco relativo ou diferença de risco; a medida de associação é o odds ratio (razão de chances), que estima indiretamente o risco (assertiva III correta). Segundo, a informação sobre a exposição é coletada após o desfecho, o que dificulta ou impossibilita estabelecer uma relação temporal clara entre o fator suspeito e a doença — não se sabe se a exposição precedeu ou foi consequência da doença (assertiva IV correta). Terceiro, há risco de vieses de memória (recordação) e de seleção.
O pareamento (matching) é uma técnica de controle de confundimento que consiste em selecionar controles com características semelhantes aos casos (idade, sexo, etc.). É plenamente possível e recomendado em estudos de caso-controle — a assertiva I, que nega essa possibilidade, está incorreta. A confusão pode surgir porque o pareamento é mais associado a ensaios clínicos, mas é um recurso válido e comum em estudos observacionais.
A pegadinha da banca está na assertiva I: o candidato pode pensar que, por ser um estudo observacional, o pareamento não se aplica. Na verdade, o pareamento é uma ferramenta de design disponível em qualquer estudo comparativo, incluindo caso-controle. Guarde a fronteira entre o que o estudo pode fazer (testar múltiplas exposições, ser eficiente para doenças raras) e o que ele não pode fazer (medir risco diretamente, estabelecer temporalidade) — é exatamente nessa fronteira que as assertivas se dividem.
Assertiva
Afirmação
Correta?
I
Não há possibilidade de pareamento ou matching.
❌ Incorreta
II
Vantagem: abordagem inicial ideal para testar associação com múltiplas variáveis independentes.
✅ Correta
III
Não fornece medidas diretas de risco.
✅ Correta
IV
Dificuldade/impossibilidade de relação temporal clara entre fator suspeito e doença.
✅ Correta
Estudo caso-controle: Vantagens (Doenças raras, Testa múltiplas exposições, Rápido e barato); Limitações (Sem medida direta de risco, Temporalidade incerta, Vieses de memória/seleção); Pareamento (matching) (Controle de confundimento, Possível e recomendado)
Assertiva I — ❌ Incorreta
A assertiva afirma que "não há possibilidade de pareamento ou matching". Isso é falso: o pareamento é uma técnica amplamente utilizada em estudos de caso-controle, na qual os controles são selecionados para serem semelhantes aos casos em características como idade, sexo e outras variáveis de confusão. O objetivo é reduzir o viés de confundimento e aumentar a eficiência estatística. A banca explora a confusão entre "estudo observacional" e "impossibilidade de pareamento" — mas o pareamento é um recurso de design disponível em qualquer estudo comparativo.
Assertiva II — ✅ Correta
A assertiva afirma que o estudo de caso-controle "constitui uma vantagem importante na abordagem inicial ideal para testar a associação de uma doença com múltiplas possíveis variáveis independentes". Isso está correto: por ser um delineamento relativamente rápido, barato e eficiente, é frequentemente a primeira abordagem para explorar associações entre uma doença e diversas exposições simultaneamente, gerando hipóteses que poderão ser confirmadas em estudos de coorte ou ensaios clínicos.
Assertiva III — ✅ Correta
A assertiva afirma que o estudo de caso-controle "não fornece medidas diretas de risco". Correto: como os participantes são selecionados com base no desfecho (doença), não é possível calcular diretamente a incidência da doença nos expostos e não expostos. A medida de associação utilizada é o odds ratio (razão de chances), que estima indiretamente o risco, mas não é uma medida direta de risco como o risco relativo obtido em estudos de coorte.
Assertiva IV — ✅ Correta
A assertiva afirma que o estudo de caso-controle "apresenta dificuldade ou impossibilidade de determinação de uma relação temporal clara entre o fator suspeito e a doença". Correto: por ser um estudo retrospectivo, a exposição é avaliada após o desfecho, o que dificulta estabelecer se a exposição precedeu a doença ou se foi consequência dela. Essa limitação é inerente ao delineamento e é uma das principais críticas a ele.
Conclusão: corretas as assertivas II, III e IV — portanto, o gabarito é a letra E.