Questão de Medicina — Epidemiologia — FUNDATEC 2024
- Código
- qg180868
- Banca
- FUNDATEC
- Órgão
- GHC-RS
- Ano
- 2024
- Nível
- Superior
- AApenas I.
- BApenas III.
- CApenas I e II.
- DApenas II e III.
- EI, II e III.
GabaritoB — Apenas III.
Gabarito: letra B — apenas a assertiva III está correta. As razões de verossimilhança (RV ou likelihood ratios) são uma métrica que expressa a relação entre sensibilidade e especificidade de um teste, e uma de suas principais vantagens é justamente poder ser aplicada a múltiplos níveis de resultados, não apenas ao resultado dicotômico positivo/negativo. A assertiva I erra a fórmula de conversão de chances em probabilidade, e a assertiva II apresenta valores aproximados incorretos para o aumento da probabilidade pós-teste.
As razões de verossimilhança (RV) são uma ferramenta da medicina baseada em evidências que quantifica o quanto um resultado de teste altera a probabilidade de o paciente ter a doença. Elas derivam diretamente da sensibilidade e da especificidade: a RV positiva (RV+) é calculada como sensibilidade dividida por (1 − especificidade), e a RV negativa (RV−) como (1 − sensibilidade) dividida por especificidade. O grande valor prático das RV está em permitir o uso do teorema de Bayes para transformar uma probabilidade pré-teste (estimada pela prevalência ou pelo julgamento clínico) em uma probabilidade pós-teste, sem a necessidade de montar tabelas de contingência a cada vez.
O fluxo do raciocínio probabilístico é: primeiro, estima-se a probabilidade pré-teste; depois, converte-se essa probabilidade em chances (odds); aplica-se a RV correspondente ao resultado do teste; e, por fim, converte-se as chances pós-teste de volta em probabilidade. A fórmula correta para converter probabilidade em chances é: chances = probabilidade / (1 − probabilidade). A assertiva I inverte essa relação ao escrever chances = prevalência / (1 + prevalência), o que está matematicamente errado — o denominador correto é (1 − prevalência), não (1 + prevalência).
Quanto à assertiva II, ela afirma que RVs positivas de 5 e 10 aumentam a probabilidade de doença em aproximadamente 40% e 80%, respectivamente. Isso é uma aproximação grosseira e incorreta. O aumento real da probabilidade pós-teste depende da probabilidade pré-teste — não é um valor fixo. Por exemplo, com uma probabilidade pré-teste de 20%, uma RV+ de 5 eleva a probabilidade para cerca de 56% (aumento de 36 pontos percentuais); com RV+ de 10, para cerca de 71% (aumento de 51 pontos). Já com uma pré-teste de 50%, RV+ de 5 leva a 83% e RV+ de 10 a 91%. Portanto, não existe um aumento fixo de 40% ou 80% — o impacto da RV é sempre modulado pela probabilidade pré-teste.
A assertiva III está correta e é o ponto central da questão. As RV podem ser calculadas para cada nível de um teste que não é dicotômico — por exemplo, para faixas de valores contínuos (como pressão arterial ou NT-proBNP), escalas ordinais (como 0, 1, 2) ou intervalares (como a escala de coma de Glasgow). Isso é uma vantagem enorme, pois aproveita melhor a informação do teste e aumenta a acurácia da probabilidade pós-teste, em vez de forçar uma dicotomização artificial que perde informação.
A pegadinha da banca está em misturar uma fórmula errada (assertiva I) e valores aproximados incorretos (assertiva II) com uma afirmação verdadeira (assertiva III), testando se o candidato domina tanto a matemática das RV quanto suas aplicações práticas. O candidato que decora apenas que "RV+ de 10 é muito bom" pode aceitar a assertiva II sem fazer a conta, e o que não domina a conversão probabilidade-chances cai na assertiva I.
A fórmula apresentada está errada. A conversão correta de probabilidade (P) para chances (odds) é: chances = P / (1 − P). A assertiva escreve chances = prevalência / (1 + prevalência), com sinal de adição no denominador, o que é matematicamente incorreto. Por exemplo, se a prevalência (probabilidade pré-teste) é 0,2 (20%), as chances corretas são 0,2 / 0,8 = 0,25, e não 0,2 / 1,2 ≈ 0,167. O erro está no sinal: deve ser subtração, não adição.
Os valores aproximados de aumento de probabilidade estão incorretos. O aumento da probabilidade pós-teste não é um valor fixo dependente apenas da RV — ele depende crucialmente da probabilidade pré-teste. Com RV+ = 5 e pré-teste de 20%, a pós-teste é cerca de 56% (aumento de 36 pontos percentuais); com pré-teste de 50%, a pós-teste é 83% (aumento de 33 pontos). Com RV+ = 10 e pré-teste de 20%, a pós-teste é cerca de 71% (aumento de 51 pontos); com pré-teste de 50%, é 91% (aumento de 41 pontos). Nenhum desses valores corresponde a "40% e 80%" de aumento. A banca usa números redondos para testar se o candidato sabe que o efeito da RV é modulado pela probabilidade pré-teste.
Esta é a única assertiva correta. As razões de verossimilhança podem ser aplicadas a testes com resultados em múltiplos níveis — escalas ordinais, intervalares ou faixas de variáveis contínuas. Para cada nível do teste, calcula-se uma RV específica, o que amplia o aproveitamento do resultado e aumenta a acurácia da probabilidade pós-teste. Isso é particularmente útil quando o teste não é naturalmente dicotômico, como ocorre com biomarcadores (NT-proBNP, troponina), escalas de coma ou escores de risco.
Conclusão: apenas o item III está correto. Portanto, a alternativa correta é a letra B.
Gabarito: letra B
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