Pancreatite crônica: apresentação clínica e diagnóstico
Gabarito: letra B. A principal característica clínica da pancreatite crônica é a insuficiência pancreática exócrina, que se manifesta por esteatorreia e perda de peso progressiva, decorrentes da má absorção de nutrientes — especialmente gorduras — quando há perda de mais de 90% da função pancreática. As demais alternativas descrevem manifestações de pancreatite aguda ou complicações que não representam a característica clínica central da forma crônica.
A pancreatite crônica é uma doença inflamatória progressiva do pâncreas, caracterizada por fibrose e destruição irreversível do parênquima, levando à perda gradual das funções exócrina e endócrina. Diferentemente da pancreatite aguda, cuja marca é a dor súbita e intensa com elevação de enzimas, a forma crônica evolui de maneira insidiosa, com dor episódica ou contínua e, em fases avançadas, com manifestações de insuficiência funcional.
A insuficiência exócrina clinicamente significativa — ou seja, a deficiência de proteínas e lipídios — só ocorre quando há perda de mais de 90% da função pancreática. A esteatorreia (fezes gordurosas, volumosas e fétidas) costuma aparecer antes da deficiência proteica, pois a atividade lipolítica diminui mais rapidamente que a proteólise. Essa má absorção de gorduras leva à perda de peso progressiva, que é um dos achados clínicos mais marcantes da doença avançada. Além disso, a insuficiência endócrina pode evoluir para diabetes melito, geralmente tardio, com risco aumentado de hipoglicemia por comprometimento também das células alfa produtoras de glucagon.
A dor, embora frequente, não é a característica que define a doença crônica — ela pode estar ausente em até 20% dos pacientes, que apresentam insuficiência exócrina ou endócrina sem dor, ou mesmo serem assintomáticos, com diagnóstico incidental por exames de imagem. Já a elevação de amilase e lipase é típica dos episódios agudos, mas na pancreatite crônica esses episódios podem cursar com enzimas normais ou pouco elevadas, devido à fibrose do parênquima. Os achados de imagem, como calcificações, dilatação ductal e cistos, são critérios diagnósticos importantes, mas não constituem a principal característica clínica. O tratamento com corticosteroides é específico para a pancreatite autoimune, não se aplicando à maioria dos casos.
A pegadinha central desta questão é a confusão entre as manifestações da pancreatite aguda e as da crônica. A banca explora exatamente essa fronteira: enquanto a aguda se apresenta com dor súbita, intensa e hiperamilasemia, a crônica se caracteriza pela insuficiência funcional progressiva, com esteatorreia e emagrecimento. Guarde essa distinção — é ela que separa as alternativas corretas das incorretas.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Descreve a apresentação típica da pancreatite aguda: dor abdominal intensa e súbita, associada à elevação de amilase (hiperamilasemia). Na pancreatite crônica, a dor costuma ser episódica ou contínua, e os episódios agudos podem cursar com amilase normal ou pouco aumentada, justamente pela fibrose do parênquima. A alternativa troca o perfil clínico das duas formas da doença.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A esteatorreia e a perda de peso progressiva são as manifestações clínicas mais características da pancreatite crônica avançada, resultantes da insuficiência pancreática exócrina. Quando há perda de mais de 90% da função pancreática, ocorre má absorção de gorduras e proteínas, levando a fezes gordurosas e emagrecimento. Essa é a principal característica clínica que distingue a forma crônica da aguda.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A elevação aguda de amilase e lipase é marcador de pancreatite aguda, não da forma crônica. Na pancreatite crônica, os episódios de exacerbação podem ocorrer, mas frequentemente cursam com enzimas séricas normais ou pouco elevadas, devido à destruição fibrosa do parênquima que reduz a capacidade de liberação enzimática. A alternativa descreve um evento agudo, não a característica clínica da doença crônica.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Abscessos e cistos pancreáticos são complicações ou achados de imagem que podem ocorrer na pancreatite, mas não representam a principal característica clínica da forma crônica. Os achados de imagem — como calcificações, dilatação ductal e cistos — são critérios diagnósticos importantes, porém a questão pede a manifestação clínica, não o achado radiológico. Além disso, abscessos são mais associados à pancreatite aguda necrosante.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A resposta favorável e completa aos corticosteroides é característica da pancreatite autoimune, um subtipo específico da doença, não da pancreatite crônica em geral. A maioria dos casos (alcoólica, idiopática, genética, obstrutiva) não responde a corticosteroides. A alternativa generaliza indevidamente um tratamento que se aplica apenas a uma forma particular da doença.
Gabarito: letra B — a esteatorreia e a perda de peso progressiva por má absorção são a principal característica clínica da pancreatite crônica.