Questão de Medicina — Farmacologia e Anestesiologia — FUNDATEC 2024
Medicina›Farmacologia e Anestesiologia
Código
qg184682
Banca
FUNDATEC
Órgão
SES-RJ
Ano
2024
Nível
Superior
Um homem de 50 anos com hipertensão arterial sistêmica de longa data foi recentemente iniciado em um regime de tratamento com um bloqueador do receptor de angiotensina II (BRA), um diurético tiazídico e um betabloqueador. Após algumas semanas, ele retorna ao consultório queixando-se de cansaço e tontura ao levantar-se. Ele está com níveis elevados de potássio no sangue. Qual dos medicamentos é o mais provável responsável pela hipercalemia (aumento dos níveis de potássio)?
ADiurético tiazídico, como hidroclorotiazida.
BBetabloqueador, como atenolol.
CBloqueador do receptor de angiotensina II, como losartana.
DInibidor da enzima conversora de angiotensina (IECA), como enalapril.
EAntagonista do canal de cálcio, como anlodipino.
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GabaritoC — Bloqueador do receptor de angiotensina II, como losartana.
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Hipercalemia induzida por anti-hipertensivos
Gabarito: letra C. O bloqueador do receptor de angiotensina II (BRA), como a losartana, é o mais provável responsável pela hipercalemia, pois ao bloquear a ação da angiotensina II reduz a secreção de aldosterona, diminuindo a excreção renal de potássio. Essa é uma ação de classe, compartilhada com os inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA), mas a questão pergunta especificamente qual dos medicamentos do regime (BRA, tiazídico e betabloqueador) causa o distúrbio — e a resposta é o BRA.
A hipercalemia é um distúrbio eletrolítico potencialmente grave, definido como potássio sérico acima de 5,5 mEq/L, que pode levar a arritmias cardíacas fatais. Para entender por que o BRA causa hipercalemia, é preciso compreender o eixo renina-angiotensina-aldosterona (SRAA). A angiotensina II, além de ser um potente vasoconstritor, estimula a liberação de aldosterona pela glândula suprarrenal. A aldosterona, por sua vez, atua nos túbulos renais promovendo a reabsorção de sódio e a excreção de potássio e hidrogênio. Ao bloquear o receptor AT1 da angiotensina II, o BRA reduz os níveis de aldosterona, o que diminui a excreção de potássio pelos rins e, consequentemente, eleva o potássio sérico. Esse efeito é mais pronunciado em pacientes com doença renal crônica, diabetes, idosos ou naqueles que usam outros medicamentos que retêm potássio, como espironolactona ou AINEs.
Na prática clínica, a hipercalemia é um efeito adverso bem documentado tanto dos BRAs quanto dos IECAs. A diretriz brasileira de hipertensão destaca que a espironolactona, um diurético poupador de potássio, "pode provocar hiperpotassemia, particularmente na DRC e associado à IECA ou BRA", evidenciando o risco aumentado quando há associação de fármacos que retêm potássio. No caso do paciente do enunciado, que faz uso de BRA, tiazídico e betabloqueador, o BRA é o único com mecanismo de retenção de potássio. O diurético tiazídico, ao contrário, tende a causar hipocalemia (perda de potássio), e o betabloqueador tem efeito mínimo sobre o potássio sérico.
A distinção crucial que a banca explora é entre as classes de anti-hipertensivos que afetam o SRAA (BRA e IECA) e as demais. Tanto o BRA quanto o IECA podem causar hipercalemia, mas o enunciado apresenta o BRA como parte do regime do paciente, enquanto o IECA aparece apenas como distrator. O betabloqueador, embora possa ter efeitos metabólicos, não é uma causa clássica de hipercalemia. O diurético tiazídico, por sua vez, causa o efeito oposto. O antagonista do canal de cálcio (anlodipino) não interfere diretamente no metabolismo do potássio.
A pegadinha desta questão está em reconhecer que, embora o IECA também cause hipercalemia, ele não faz parte do regime medicamentoso descrito. O candidato que sabe que "IECA e BRA causam hipercalemia" pode ficar em dúvida entre as letras C e D, mas a leitura atenta do enunciado resolve: o paciente usa BRA, tiazídico e betabloqueador. Portanto, o responsável é o BRA. Guarde essa lógica: a questão pergunta qual dos medicamentos do regime é o responsável, não qual classe de anti-hipertensivo pode causar hipercalemia em geral.
Anti-hipertensivos e potássio
1Retêm potássio (hipercalemia)
BRA (losartana)
IECA (enalapril)
2Perdem potássio (hipocalemia)
Tiazídico (hidroclorotiazida)
3Efeito mínimo
Betabloqueador (atenolol)
Antagonista de canal de cálcio (anlodipino)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
O diurético tiazídico, como a hidroclorotiazida, atua no túbulo contornado distal inibindo a reabsorção de sódio e cloro, o que aumenta a excreção de potássio. Seu efeito clássico é a hipocalemia (potássio baixo), não a hipercalemia. A banca usa essa alternativa como distrator para quem confunde o efeito dos diuréticos sobre o potássio.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O betabloqueador, como o atenolol, não é uma causa clássica de hipercalemia. Seus principais efeitos adversos são bradicardia, broncoespasmo, fadiga e mascaramento de hipoglicemia. Embora possam ter efeitos metabólicos, a retenção de potássio não é um efeito significativo dessa classe. A alternativa tenta confundir o candidato que associa betabloqueador a distúrbios metabólicos.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O bloqueador do receptor de angiotensina II (BRA), como a losartana, bloqueia o receptor AT1 da angiotensina II, reduzindo a liberação de aldosterona. Com menos aldosterona, os rins excretam menos potássio, levando à hipercalemia. Este é o mecanismo clássico e bem documentado de retenção de potássio pelos BRAs, sendo o responsável pelo quadro do paciente.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O inibidor da enzima conversora de angiotensina (IECA), como o enalapril, também causa hipercalemia pelo mesmo mecanismo de redução da aldosterona. No entanto, o paciente do enunciado não faz uso de IECA — faz uso de BRA. A alternativa é um distrator para quem sabe que IECA causa hipercalemia, mas não lê atentamente o regime medicamentoso descrito.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O antagonista do canal de cálcio, como o anlodipino, não interfere diretamente no metabolismo do potássio. Seus principais efeitos adversos são edema de membros inferiores, cefaleia e rubor facial. A alternativa tenta confundir o candidato que associa bloqueadores de canais de cálcio a distúrbios eletrolíticos, o que não é correto.