Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — FUNDATEC 2024
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
qg184700
Banca
FUNDATEC
Órgão
SES-RJ
Ano
2024
Nível
Superior
Um adolescente de 14 anos, previamente saudável, é trazido ao pronto-socorro com dor articular migratória, febre e presença de nódulos subcutâneos. Há relato de uma infecção de garganta recente, não tratada. O exame físico revela sopro cardíaco compatível com regurgitação mitral e lesões eritematosas em formato de anel nos membros inferiores. Qual dos seguintes critérios de Jones e exame complementar é o mais apropriado para confirmar o diagnóstico de febre reumática neste paciente?
ACritério maior: Coreia de Sydenham; exame complementar: ecocardiograma para avaliar valvopatias.
BCritério maior: Poliartrite migratória; exame complementar: cultura de orofaringe para Streptococcus pyogenes.
CCritério maior: Eritema marginado; exame complementar: dosagem de anticorpos antiestreptolisina O (ASLO).
DCritério maior: Nódulos subcutâneos; exame complementar: PCR para infecção estreptocócica.
ECritério maior: Cardite; exame complementar: hemocultura para Streptococcus pyogenes.
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GabaritoC — Critério maior: Eritema marginado; exame complementar: dosagem de anticorpos antiestreptolisina O (ASLO).
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Febre reumática: critérios de Jones e confirmação diagnóstica
Gabarito: letra C. O paciente apresenta eritema marginado (lesões eritematosas em formato de anel), que é um critério maior de Jones, e o exame complementar mais apropriado para confirmar a estreptococcia prévia é a dosagem de anticorpos antiestreptolisina O (ASLO). Os critérios de Jones exigem, para o primeiro surto, dois critérios maiores ou um maior e dois menores, além da evidência de infecção estreptocócica anterior — e o ASLO é o exame sorológico que documenta essa infecção recente.
A febre reumática (FR) é uma doença inflamatória sistêmica, autoimune, que ocorre como sequela tardia de uma infecção de orofaringe pelo Streptococcus pyogenes (estreptococo beta-hemolítico do grupo A). Ela acomete principalmente crianças e adolescentes entre 5 e 15 anos, e suas manifestações clínicas mais características envolvem coração, articulações, sistema nervoso central e pele. O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado nos critérios de Jones, que foram revisados ao longo do tempo e são considerados o "padrão ouro" para o diagnóstico do primeiro surto.
Os critérios de Jones dividem as manifestações em maiores e menores. Os critérios maiores são: cardite, poliartrite (artrite migratória), coreia de Sydenham, eritema marginado e nódulos subcutâneos. Os critérios menores incluem febre, artralgia, elevação das provas de fase aguda (VHS, PCR) e intervalo PR prolongado no ECG. Para o diagnóstico do primeiro surto, são necessários dois critérios maiores ou um critério maior e dois menores, sempre acompanhados de evidência de infecção estreptocócica prévia.
A evidência de estreptococcia prévia pode ser obtida por cultura de orofaringe, teste rápido de detecção de antígeno ou, mais comumente, por dosagem de anticorpos antiestreptolisina O (ASLO). O ASLO é o exame sorológico mais utilizado na prática clínica, pois a infecção de garganta muitas vezes já foi tratada ou não foi documentada no momento da apresentação da FR. A cultura de orofaringe só é útil se a infecção ainda estiver ativa, o que não é o caso típico da FR, que se manifesta semanas após a faringite. A hemocultura e a PCR não têm papel no diagnóstico de estreptococcia prévia.
No caso apresentado, o adolescente tem dor articular migratória (sugestiva de poliartrite, critério maior), febre (critério menor), nódulos subcutâneos (critério maior), sopro de regurgitação mitral (sugestivo de cardite, critério maior) e lesões eritematosas em anel nos membros inferiores — que são a descrição clássica do eritema marginado, também um critério maior. Como já há múltiplos critérios maiores, o diagnóstico é firmado com a evidência de estreptococcia prévia, e o ASLO é o exame mais apropriado para essa confirmação.
A pegadinha da questão está em reconhecer que o eritema marginado é o critério maior que está diretamente descrito no enunciado ("lesões eritematosas em formato de anel"), enquanto as outras alternativas citam critérios maiores que também são válidos, mas não são os que o caso está demonstrando de forma inequívoca. Além disso, a banca associa exames complementares incorretos, como cultura de orofaringe, PCR e hemocultura, que não são os mais apropriados para confirmar a estreptococcia prévia na fase em que a FR se manifesta.
Critérios maiores de Jones
1Cardite
2Poliartrite migratória
3Coreia de Sydenham
4Eritema marginado
5Nódulos subcutâneos
6Evidência de estreptococcia prévia
ASLO (sorologia)
Cultura de orofaringe (só se ativa)
Teste rápido de antígeno
7Diagnóstico (1º surto)
2 maiores
1 maior + 2 menores
+ evidência de infecção prévia
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A coreia de Sydenham é um critério maior válido, mas não está presente no caso — o paciente não apresenta movimentos involuntários, alterações de comportamento ou hipotonia. O ecocardiograma é útil para avaliar valvopatias, mas não é o exame complementar que confirma a estreptococcia prévia; ele avalia a cardite, que já é sugerida pelo sopro. A alternativa mistura um critério ausente com um exame que não é o mais apropriado para a confirmação diagnóstica.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A poliartrite migratória é um critério maior e está sugerida pela dor articular migratória, mas a alternativa erra ao indicar a cultura de orofaringe como exame complementar. A cultura só é útil se a infecção estreptocócica estiver ativa no momento da coleta, o que raramente ocorre na FR, que se manifesta semanas após a faringite. O exame sorológico (ASLO) é o mais apropriado para documentar a infecção prévia.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O eritema marginado é um critério maior de Jones e está diretamente descrito no enunciado como "lesões eritematosas em formato de anel nos membros inferiores". A dosagem de ASLO é o exame complementar mais apropriado para confirmar a infecção estreptocócica prévia, pois detecta anticorpos contra a estreptolisina O, que se elevam após a faringite e permanecem elevados por semanas. Assim, a alternativa combina corretamente o critério maior presente no caso com o exame que confirma a estreptococcia.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Os nódulos subcutâneos são um critério maior válido e estão presentes no caso, mas a alternativa erra ao indicar a PCR (proteína C reativa) como exame complementar para infecção estreptocócica. A PCR é uma prova de fase aguda, inespecífica, que apenas indica inflamação — não confirma a etiologia estreptocócica. O exame correto para documentar a estreptococcia prévia é a dosagem de ASLO.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A cardite é um critério maior e está sugerida pelo sopro de regurgitação mitral, mas a alternativa erra ao indicar a hemocultura para Streptococcus pyogenes. A hemocultura é utilizada para detectar bacteremia, que não ocorre na FR — a infecção estreptocócica é localizada na orofaringe e a FR é uma complicação imunológica tardia. O exame apropriado para confirmar a infecção prévia é a dosagem de ASLO.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre os critérios maiores que estão presentes no caso e aqueles que são apenas citados. O eritema marginado é o único critério maior descrito literalmente no enunciado ("lesões eritematosas em formato de anel"), enquanto poliartrite, nódulos subcutâneos e cardite são apenas sugeridos. Além disso, a banca troca o exame sorológico (ASLO) por exames que não documentam a estreptococcia prévia, como cultura, PCR e hemocultura. Fique atento: na FR, a confirmação da infecção estreptocócica é feita preferencialmente por sorologia, não por cultura ou hemocultura.
PEGA ESSA DICA!
Memorize os cinco critérios maiores de Jones com o mnemônico "C-P-C-E-N": Cardite, Poliartrite, Coreia de Sydenham, Eritema marginado, Nódulos subcutâneos. E lembre-se: para confirmar a estreptococcia prévia, o exame de escolha é o ASLO (anticorpo antiestreptolisina O), não a cultura ou a hemocultura.