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Questão de Português — Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto — IBFC 2024

PortuguêsNoções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Código
qg221743
Banca
IBFC
Órgão
RECIPREV - PE
Ano
2024
Nível
Superior
Texto
Sonhos, estranhos sonhos


Apesar de ser corajoso vivendo na comunidade, quando eu chegava à cidade me tornava um covarde. Ali era tudo muito estranho para mim. Havia coisas que eu não compreendia de jeito nenhum. Coisas do tipo: disputar pelo primeiro lugar, seja no estudo, seja no esporte; meninos valentões; mães que agrediam os filhos; escola que castigava quem não obedecia às regras, entre outras coisas. Naquela ocasião, eu não podia ter a presença constante dos meus pais junto de mim, porque era a política da época que o Estado brasileiro tomasse conta de seus “índios”. Isso consistia, entre outras coisas, em manter os pais longe da escola. Hoje sei que aquilo servia para nos isolar dos que falavam a mesma língua e nos obrigar a falar e aprender somente em português.

Eu ficava muito triste e solitário na escola. Não tinha amigos da mesma comunidade para conversar, não tinha muito o que fazer com aquilo que eu sabia da aldeia e não podia criar muitas coisas porque o meu tempo era bem regrado pelos muitos afazeres escolares. E, claro, tinha também meus colegas, que nunca me deixavam em paz. O tempo todo estavam tirando sarro da minha cara. Bastava me verem e logo já vinha aquela enxurrada de impropérios contra mim. Parece que eles queriam mesmo que eu nunca esquecesse quem eu era e de onde eu vinha. Era o tempo todo me chamando de índio, selvagem, atrasado, sujo, fedorento... Eu, covarde que era, baixava minha cabeça e chorava baixinho.

Eu sempre tive, por conta disso, acho, uns sonhos bem estranhos. Neles quase sempre eu me encontrava sozinho numa grande cidade, perdido e chorando. Algumas vezes, sonhei que estava ensanguentado. O sangue escorria em meu rosto e descia até meus pés, mas eu não sabia de onde vinha, porque não estava ferido. Sonhava que estava dentro de um buraco apenas com a cabeça de fora e que meus colegas ficavam atirando palavras em cima de mim. Eram palavras mesmo. Não palavras da boca, mas objetos que eram palavras. Essas palavras que tanto me assombravam. [...]

(MUNDUKURU, Daniel. Memórias de índio: uma quase autobiografia. Porto Alegre: Edelbra, 2016, p. 65-66)
De acordo com o texto, segundo a percepção do enunciador, a estranheza dos seus sonhos:
  1. Aestava relacionada com as suas experiências traumáticas vividas na escola.
  2. Bdevia-se à sua incapacidade de compreender a linguagem dos adultos.
  3. Cera motivada pelo excesso de coragem que aprendeu em sua comunidade.
  4. Dera resultado apenas de uma política que mantinha os pais longe da escola.
  5. Eestava associada à dificuldade de transformar em palavras a experiência do sonho.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — estava relacionada com as suas experiências traumáticas vividas na escola.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Causa dos sonhos estranhos no depoimento de Daniel Munduruku

Gabarito: letra A. A estranheza dos sonhos do enunciador está diretamente ligada às experiências traumáticas vividas na escola, conforme expresso no texto quando ele afirma: "Eu sempre tive, por conta disso, acho, uns sonhos bem estranhos". O termo "disso" retoma todo o sofrimento narrado anteriormente: bullying, solidão, xingamentos e violência simbólica. Os sonhos descrevem cenas de perseguição, solidão e agressão verbal — "palavras que tanto me assombravam" — que espelham o trauma escolar.

"Eu sempre tive, por conta disso, acho, uns sonhos bem estranhos. Neles quase sempre eu me encontrava sozinho numa grande cidade, perdido e chorando. [...] Sonhava que estava dentro de um buraco apenas com a cabeça de fora e que meus colegas ficavam atirando palavras em cima de mim."


Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

O texto estabelece nexo causal entre as humilhações na escola e os sonhos estranhos. O advérbio "disso" ("por conta disso") remete ao parágrafo anterior, que descreve as agressões verbais e a solidão. Portanto, a alternativa parafraseia corretamente a percepção do enunciador.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro de extrapolação. O enunciador menciona dificuldade de compreender "coisas" como competição, valentões e castigos, mas não afirma que tinha incapacidade de compreender a linguagem dos adultos. Os sonhos não são associados a essa suposta incapacidade.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro de contradição. O texto diz que o enunciador era "corajoso vivendo na comunidade", mas que na cidade se tornava "covarde". A estranheza dos sonhos é atribuída justamente à covardia e ao sofrimento na escola, não ao excesso de coragem.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro de restrição indevida. A política de manter os pais longe da escola é um dos fatores mencionados, mas o texto vincula os sonhos a todo o conjunto de experiências traumáticas: "Havia coisas que eu não compreendia [...] meninos valentões; mães que agrediam os filhos; escola que castigava [...]". O termo "apenas" torna a alternativa falsa.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro de extrapolação. O texto descreve os sonhos com riqueza de detalhes (sangue, palavras-objeto, solidão) e não sugere qualquer dificuldade em expressá-los. A associação é entre o conteúdo dos sonhos e as experiências vividas, não entre os sonhos e a linguagem.


PEGA ESSA DICA!

Na interpretação de "de acordo com o texto", busque a causa explícita apontada pelo autor. O conector "por conta disso" é a pista decisiva. Fique atento a palavras como "apenas", "sempre", "todo" — elas costumam restringir indevidamente o sentido original.

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