Residente Médico - Especialidade: Angiorradiologia e Cirurgia Endovascular
Uma paciente de 60 anos de idade, previamente sem comorbidades conhecidas, compareceu no pronto‑socorro com relato de dor súbita no membro inferior esquerdo, de frialdade e de perda de força há 72 horas. Ela relatou que procurou atendimento no início do quadro devido à intensidade da dor, sendo liberada com anti‑inflamatórios. Ao exame físico: Presença de todos os pulsos em membro inferior direito; em membro inferior esquerdo havia pulso femoral e o pulso poplíteo e os distais estavam ausentes. Apresentava rigidez articular importante de membro inferior esquerdo, livedo reticular até o joelho, cianose fixa de todo o pé. O ECG evidenciou fibrilação atrial. Exames laboratoriais: HB de 10,0 g/dL; creatinina: 1,0 mg/dL; CK: 14.000 U/L; e lactato: 20 mmol/L.Com base nessa situação hipotética, assinale a alternativa que apresenta o diagnóstico e a conduta adequados.
Aembolia arterial e embolectomia arterial
Btrombose arterial e fibrinolítico intratrombo
Ctrombose arterial e amputação primária
Dtrombose arterial e trombectomia fármaco‑mecânica para a aspiração de trombos
Eembolia arterial e amputação primária
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GabaritoE — embolia arterial e amputação primária
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Isquemia aguda de membro: embolia arterial com membro inviável
Gabarito: letra E. O quadro é de isquemia aguda de membro inferior esquerdo por embolia arterial (fonte embólica: fibrilação atrial), porém com membro já inviável — rigidez articular, cianose fixa, livedo reticular, CK de 14.000 U/L e lactato de 20 mmol/L indicam necrose muscular extensa e irreversível, o que contraindica a revascularização e impõe a amputação primária. A alternativa E é a única que combina corretamente o diagnóstico (embolia) com a conduta (amputação primária).
A isquemia aguda de membro (IAM) é uma emergência vascular caracterizada pela redução súbita da perfusão arterial, capaz de ameaçar a viabilidade do membro em poucas horas. As duas grandes etiologias são a embolia arterial e a trombose arterial. A embolia ocorre quando um êmbolo — em geral um trombo formado no coração (fibrilação atrial, valvopatias, trombo mural pós-infarto) — se desloca e oclui uma artéria distal, em um leito vascular previamente saudável. A trombose, por sua vez, é a oclusão de uma artéria já comprometida por doença aterosclerótica (DAOP), no local de uma placa que se rompeu ou de um stent que trombosou. Essa distinção é central: na embolia, o membro contralateral costuma ter pulsos normais e não há história de claudicação; na trombose, há doença arterial obstrutiva periférica prévia, com pulsos reduzidos ou ausentes no membro contralateral.
O quadro clínico clássico é o dos seis "Ps": dor (pain), palidez (pallor), ausência de pulso (pulselessness), poiquilotermia (redução da temperatura), parestesia e paralisia. A dor súbita e intensa, "nunca antes sentida", é típica da embolia. A ausência de pulsos distais com pulso femoral presente localiza a oclusão na artéria femoral superficial ou poplítea. O ECG com fibrilação atrial é a pista decisiva para a fonte embólica cardíaca.
O ponto crítico desta questão é a viabilidade do membro. A isquemia evolui em fases: inicialmente há palidez e cianose não fixa (que desaparece à digitopressão); depois, cianose fixa; e, por fim, rigidez muscular (contratura), anestesia e necrose. A rigidez articular importante, a cianose fixa de todo o pé, o livedo reticular e os marcadores laboratoriais — CK de 14.000 U/L (elevadíssima, indicando rabdomiólise) e lactato de 20 mmol/L (acidose láctica grave) — são sinais inequívocos de membro inviável, com necrose muscular extensa e síndrome compartimental estabelecida. Nesse cenário, a revascularização (embolectomia, trombectomia ou fibrinólise) é contraindicada, pois a reperfusão de tecido necrótico liberaria potássio, mioglobina e citocinas na circulação sistêmica, precipitando hipercalemia fatal, insuficiência renal aguda e síndrome da resposta inflamatória sistêmica. A conduta correta é a amputação primária, sem tentativa prévia de revascularização.
A pegadinha da banca está em oferecer alternativas que misturam o diagnóstico correto com a conduta incorreta (ou vice-versa). O candidato que identifica a embolia, mas não percebe a inviabilidade do membro, cai nas alternativas A ou E; o que confunde embolia com trombose cai nas alternativas B, C ou D. A chave é reconhecer que o diagnóstico é embolia (fonte cardíaca + membro contralateral normal) e que a conduta é amputação primária (membro inviável).
Isquemia aguda de membro
1Etiologia
Embolia arterial
Fonte cardíaca (FA, IAM)
Membro contralateral normal
Trombose arterial
DAOP prévia
Pulsos contralaterais reduzidos
2Viabilidade
Membro viável
Revascularização (embolectomia, trombectomia)
Membro inviável
Rigidez articular
Cianose fixa
CK/lactato elevados
Amputação primária
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Alternativa A — ❌ Incorreta
O diagnóstico de embolia arterial está correto, mas a conduta de embolectomia arterial é inadequada. A embolectomia (com cateter de Fogarty) é o tratamento de escolha para embolia em membro viável, com isquemia de poucas horas. Nesta paciente, o membro está inviável — rigidez articular, cianose fixa, CK de 14.000 U/L e lactato de 20 mmol/L —, o que contraindica a revascularização. A reperfusão de tecido necrótico causaria hipercalemia e rabdomiólise maciça, com risco de morte. A conduta correta é a amputação primária.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O diagnóstico de trombose arterial está incorreto. A paciente não tem história de claudicação intermitente nem doença arterial obstrutiva periférica prévia; o membro contralateral tem todos os pulsos presentes, o que afasta doença aterosclerótica difusa. A presença de fibrilação atrial no ECG é a fonte embólica clássica, apontando para embolia arterial. Além disso, a conduta de fibrinolítico intratrombo seria contraindicada pela inviabilidade do membro — a fibrinólise só se aplica a membros viáveis ou marginalmente ameaçados, e mesmo assim com restrições.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O diagnóstico de trombose arterial está incorreto, pelos mesmos motivos da alternativa B: ausência de DAOP prévia, pulsos normais no membro contralateral e presença de fibrilação atrial como fonte embólica. A conduta de amputação primária está correta, mas o diagnóstico errado invalida a alternativa. A banca combina um elemento correto (conduta) com um incorreto (diagnóstico) para confundir o candidato.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O diagnóstico de trombose arterial está incorreto (mesma fundamentação das alternativas B e C). A conduta de trombectomia fármaco-mecânica para aspiração de trombos é uma técnica endovascular moderna, indicada em casos selecionados de isquemia aguda com membro ainda viável ou marginalmente ameaçado. Nesta paciente, com membro inviável, qualquer tentativa de revascularização — inclusive a trombectomia mecânica — é contraindicada. O tratamento é a amputação primária.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O diagnóstico de embolia arterial está correto: dor súbita e intensa em membro previamente saudável, ausência de pulsos distais com pulso femoral presente, membro contralateral com pulsos normais e fibrilação atrial como fonte embólica. A conduta de amputação primária é a adequada, pois o membro está inviável: rigidez articular importante, cianose fixa de todo o pé, livedo reticular, CK de 14.000 U/L (rabdomiólise extensa) e lactato de 20 mmol/L (acidose láctica grave). A revascularização está contraindicada pela necrose muscular irreversível; a amputação é a única opção para salvar a vida da paciente.
NÃO CAIA NESSA!
A banca separa o diagnóstico da conduta em alternativas diferentes para testar se o candidato domina os dois conceitos. Quem identifica a embolia, mas não reconhece a inviabilidade do membro, escolhe a letra A (embolectomia); quem percebe a inviabilidade, mas confunde a etiologia, escolhe a letra C (trombose + amputação). A combinação correta — embolia + amputação primária — exige conectar a fibrilação atrial (fonte embólica) com os sinais de necrose irreversível (rigidez, cianose fixa, CK e lactato elevados).
PEGA ESSA DICA!
Na prova, diante de um caso de isquemia aguda de membro, siga dois passos: (1) determine a etiologia — embolia se houver fonte cardíaca (FA, IAM, valvopatia) e membro contralateral normal; trombose se houver DAOP prévia e pulsos contralaterais reduzidos. (2) Avalie a viabilidade — se houver rigidez muscular, cianose fixa, anestesia ou CK/lactato muito elevados, o membro é inviável e a conduta é amputação primária, nunca revascularização. Esse fluxo resolve a maioria das questões do tema.