Questão de Medicina — Ortopedia e Traumatologia — Quadrix 2024
Medicina›Ortopedia e Traumatologia
Código
qg355213
Banca
Quadrix
Órgão
SES - SP
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Residente Médico - Especialidade: Cirurgia da Mão
Um paciente de 45 anos idade foi submetido a uma cirurgia ortopédica de redução e fixação interna com implantação de material de síntese na perna direita devido a uma fratura tibial. Dois meses após a cirurgia, ele sofreu uma queda acidental que resultou na exposição do material de síntese. O ferimento permaneceu aberto e não cicatrizou após cinco semanas, apesar de múltiplas intervenções com desbridamentos e uso de antibióticos tópicos e sistêmicos. Ao exame físico, observaram‑se edema, eritema e drenagem purulenta no local da ferida, com pulsos distais cheios. As radiografias mostraram a fratura consolidada, sem sinais de osteomielite.Com base nessa situação hipotética, assinale a alternativa que apresenta o principal motivo da permanência da infecção e apresenta, também, a conduta adequada para o caso.
ATrata‑se de uma infecção por bactérias resistentes à antibioticoterapia vigente. Indicam‑se sessões de limpeza, desbridamento e aplicação de antibiótico tópico.
BTrata‑se de uma degeneração maligna. É indicada biópsia da ferida.
CTrata‑se de uma persistência da infecção devido à formação de biomembrana bacteriana sobre o material de síntese. Indicam‑se a retirada do material de síntese e a solicitação de culturas para antibioticoterapia guiada.
DTrata‑se de uma persistência da infecção devido à baixa vascularização dos tecidos adjacentes. É indicada a revascularização distal do membro pela cirurgia vascular.
ETrata‑se de uma persistência da infecção devido à baixa vascularização dos tecidos adjacentes. É indicada oxigenoterapia hiperbárica.
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GabaritoC — Trata‑se de uma persistência da infecção devido à formação de biomembrana bacteriana sobre o material de síntese. Indicam‑se a retirada do material de síntese e a solicitação de culturas para antibioticoterapia guiada.
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Infecção de sítio cirúrgico com material de síntese: o papel do biofilme
Gabarito: letra C. A persistência da infecção após cinco semanas de ferida exposta, com desbridamentos e antibióticos sistêmicos, na presença de material de síntese, é classicamente explicada pela formação de biofilme bacteriano sobre o implante — a conduta adequada é a retirada do material e a antibioticoterapia guiada por cultura. O biofilme é uma comunidade bacteriana aderida a uma superfície inerte, envolvida por uma matriz extracelular que a protege da ação de antibióticos e do sistema imunológico, tornando a infecção refratária ao tratamento clínico isolado.
O biofilme é o mecanismo central que explica por que infecções associadas a materiais de síntese (placas, parafusos, hastes) não respondem ao tratamento antibiótico convencional. Quando bactérias aderem a uma superfície inerte, como o metal de uma placa ou parafuso, elas passam a produzir uma matriz extracelular composta por polissacarídeos, proteínas e DNA extracelular. Essa matriz funciona como uma barreira física que dificulta a penetração dos antibióticos e também protege as bactérias da fagocitose pelos neutrófilos e macrófagos. Além disso, as bactérias no biofilme entram em um estado metabólico reduzido, o que as torna menos suscetíveis aos antibióticos que agem em bactérias em fase de crescimento ativo.
Na prática clínica, isso se traduz em um quadro de infecção persistente que não cicatriza, com drenagem purulenta, mesmo após múltiplos desbridamentos e uso de antibióticos sistêmicos e tópicos. O desbridamento remove o tecido necrótico e parte do biofilme, mas não consegue erradicar as bactérias que permanecem aderidas ao implante. A remoção do material de síntese é, portanto, o passo fundamental para eliminar o nicho onde o biofilme se estabelece. Após a retirada, as culturas do material e do tecido devem ser colhidas para identificar o agente etiológico e guiar a antibioticoterapia específica, que geralmente é mantida por um período prolongado.
A distinção crucial neste caso é entre infecção de ferida superficial e infecção associada a implante. Na infecção superficial, sem envolvimento do material de síntese, o desbridamento e os antibióticos podem ser suficientes. Já na infecção associada a implante, a presença do biofilme torna o tratamento antibiótico isolado ineficaz, e a remoção do material é mandatória. A radiografia mostrando fratura consolidada e ausência de osteomielite reforça que o problema não é ósseo, mas sim a infecção dos tecidos moles ao redor do implante, perpetuada pelo biofilme.
A banca explora a confusão entre as causas de infecção persistente: resistência bacteriana, baixa vascularização e degeneração maligna. A resistência bacteriana é uma possibilidade, mas não explica a falha do tratamento com desbridamentos e antibióticos tópicos e sistêmicos por cinco semanas, pois mesmo bactérias resistentes costumam responder a algum esquema antibiótico. A baixa vascularização é uma causa de má cicatrização, mas o paciente apresenta pulsos distais cheios, indicando boa perfusão arterial. A degeneração maligna é uma complicação rara e tardia de feridas crônicas, mas não é a causa mais provável em um quadro agudo de infecção com drenagem purulenta. O biofilme é a explicação fisiopatológica mais coerente com o quadro apresentado.
Guarde o conceito de biofilme como a chave para resolver esta questão: ele é a razão pela qual infecções em materiais de síntese não respondem ao tratamento clínico isolado e exigem a remoção do implante. É exatamente esse raciocínio que separa a alternativa correta das demais.
Infecção com material de síntese
1Causa da persistência
Biofilme bacteriano no implante
Resistência bacteriana isolada
Baixa vascularização (pulsos cheios)
Degeneração maligna (rara/tardia)
2Conduta adequada
Retirada do material de síntese
Cultura para antibiótico guiado
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Atribui a persistência da infecção à resistência bacteriana à antibioticoterapia vigente. Embora a resistência seja uma preocupação real, ela não explica a falha do tratamento com desbridamentos e antibióticos tópicos e sistêmicos por cinco semanas, pois mesmo bactérias resistentes costumam responder a algum esquema antibiótico. Além disso, a conduta proposta — sessões de limpeza, desbridamento e antibiótico tópico — não aborda o problema do biofilme, que exige a remoção do material de síntese.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Sugere degeneração maligna como causa da infecção persistente. A degeneração maligna (como o carcinoma espinocelular em feridas crônicas) é uma complicação rara e tardia, que leva anos para se desenvolver, e não se manifesta com drenagem purulenta e eritema em um quadro de cinco semanas. A biópsia não é a conduta inicial para uma infecção aguda com material de síntese exposto.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Identifica corretamente a formação de biofilme bacteriano sobre o material de síntese como a causa da persistência da infecção. O biofilme protege as bactérias da ação de antibióticos e do sistema imunológico, tornando o tratamento clínico isolado ineficaz. A conduta adequada é a retirada do material de síntese e a solicitação de culturas para antibioticoterapia guiada, pois a remoção do implante elimina o nicho onde o biofilme se estabelece.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Atribui a persistência da infecção à baixa vascularização dos tecidos adjacentes. No entanto, o paciente apresenta pulsos distais cheios, indicando boa perfusão arterial, o que afasta a isquemia como causa principal. A conduta proposta — revascularização distal pela cirurgia vascular — não é indicada, pois não há evidência de doença arterial obstrutiva periférica.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Também atribui a persistência da infecção à baixa vascularização, o que é contradito pelos pulsos distais cheios. A oxigenoterapia hiperbárica é uma terapia adjuvante para feridas com hipóxia tecidual, mas não é a conduta principal para uma infecção associada a material de síntese, que exige a remoção do implante.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta confundir o candidato oferecendo causas alternativas de infecção persistente — resistência bacteriana (A), degeneração maligna (B) e baixa vascularização (D e E) — que são plausíveis em outros contextos, mas não se aplicam a este caso. O dado-chave é a presença de material de síntese, que aponta diretamente para o biofilme. Lembre-se: pulsos distais cheios afastam isquemia, e a ausência de osteomielite na radiografia afasta infecção óssea. O biofilme é a explicação fisiopatológica que amarra todos os achados.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de infecção associada a implante, o raciocínio é sempre o mesmo: (1) identificar o material de síntese, (2) reconhecer que o biofilme torna o tratamento antibiótico isolado ineficaz, e (3) concluir que a remoção do material é mandatória. Essa sequência lógica resolve a maioria das questões sobre o tema.