Questão de Medicina — Ortopedia e Traumatologia — Quadrix 2024
Medicina›Ortopedia e Traumatologia
Código
qg355218
Banca
Quadrix
Órgão
SES - SP
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Residente Médico - Especialidade: Cirurgia da Mão
Um paciente 50 anos de idade sofreu queimaduras de terceiro grau na perna direita após um acidente doméstico com carvão em brasa há 10 anos. A ferida original nunca cicatrizou completamente. Ao longo dos anos, a área queimada apresentou sinais de inflamação crônica e, por vezes, diminuía e, ocasionalmente, infeccionava. Notou‑se, recentemente, uma alteração na aparência da ferida, com crescimento excessivo de tecido de granulação e espessamento das bordas. Ao exame físico, a úlcera apresentava bordas elevadas, superfície irregular e era dolorosa ao toque. Havia drenagem de conteúdo purulento com odor fétido e com halo periférico endurecido e levemente hiperemiado.Com base nessa situação hipotética, assinale a alternativa que apresenta a conduta indicada nesse momento.
APor se tratar de uma ferida crônica, é importante manter cuidados locais e o curativo aberto, a fim de melhorar o quadro infecioso.
BPor se Tratar de uma úlcera crônica, indicam‑se a simples remoção das bordas elevadas da ferida, o desbridamento superficial e a aplicação de curativo à vácuo.
CPor se tratar de uma ferida crônica com alteração do tecido de granulação, bordas com crescimento acelerado e ulceração recentes, está indicada a biopsia da ferida.
DTrata‑se de uma infecção aguda da ferida. É indicado, então, iniciar antibioticoterapia de amplo espectro, por se suspeitar de resistência bacteriana.
ETrata‑se de uma ferida crônica, sem qualquer risco ao paciente, uma vez que ela já perdura há 10 anos.
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GabaritoC — Por se tratar de uma ferida crônica com alteração do tecido de granulação, bordas com crescimento acelerado e ulceração recentes, está indicada a biopsia da ferida.
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Úlcera de Marjolin: degeneração maligna de ferida crônica
Gabarito: letra C. A conduta indicada é a biópsia da ferida, pois a história de queimadura há 10 anos com ferida que nunca cicatrizou, associada à alteração recente da aparência (crescimento excessivo de tecido de granulação, bordas elevadas e endurecidas, superfície irregular) é altamente sugestiva de degeneração maligna — a chamada úlcera de Marjolin, um carcinoma espinocelular que surge em cicatrizes e feridas crônicas. A biópsia é o passo diagnóstico obrigatório diante dessa suspeita.
A úlcera de Marjolin é uma complicação tardia e grave de feridas crônicas, especialmente as decorrentes de queimaduras. O nome homenageia Jean-Nicolas Marjolin, que descreveu a degeneração maligna em cicatrizes no século XIX. O carcinoma espinocelular (CEC) é o tipo histológico mais comum, responsável por cerca de 90% dos casos, seguido pelo carcinoma basocelular e, raramente, por sarcomas. O intervalo entre a queimadura e o surgimento do tumor varia de 10 a 30 anos, o que explica por que o paciente do enunciado, com lesão há uma década, está exatamente na janela de risco.
O mecanismo fisiopatológico envolve a inflamação crônica persistente, que gera estresse oxidativo, dano ao DNA e proliferação celular desordenada. A cicatriz, por ser avascular e com pouca capacidade de reparo, torna-se um terreno fértil para a transformação maligna. Os sinais de alarme que devem levantar a suspeita são justamente os descritos no caso: crescimento acelerado, bordas elevadas e endurecidas (evertidas), superfície irregular ou nodular, ulceração, sangramento fácil, dor e odor fétido. A presença de infecção concomitante não exclui a suspeita — pelo contrário, a infecção crônica é um dos fatores que perpetuam a inflamação.
Na prática clínica, a conduta diante de uma ferida crônica com características suspeitas é sempre a biópsia, que deve ser feita preferencialmente na borda da lesão, incluindo tecido viável e, se possível, múltiplos fragmentos. A biópsia incisional é a mais indicada, pois permite avaliar a profundidade da invasão. O tratamento definitivo, uma vez confirmado o carcinoma, é a ressecção cirúrgica ampla com margens livres, podendo ser necessária a amputação em casos avançados. A radioterapia e a quimioterapia têm papel adjuvante ou paliativo.
A pegadinha central desta questão é a tentação de tratar a lesão como uma simples infecção ou ferida crônica benigna, ignorando o sinal de alerta mais importante: a alteração recente da aparência em uma ferida de longa duração. O candidato que se fixa apenas na drenagem purulenta e no odor fétido pode optar pela antibioticoterapia (alternativa D), mas isso seria um erro grave, pois atrasaria o diagnóstico de uma neoplasia potencialmente fatal. Da mesma forma, a alternativa B, que propõe apenas desbridamento e curativo a vácuo, negligencia a necessidade de confirmação histológica antes de qualquer procedimento definitivo.
Guarde o critério decisivo: toda ferida crônica que muda de aspecto, especialmente após anos de evolução, exige biópsia para excluir malignidade. É exatamente esse raciocínio que separa a alternativa correta das demais.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Manter apenas cuidados locais e curativo aberto é conduta insuficiente e perigosa. A ferida apresenta sinais de alarme para malignidade (bordas elevadas, crescimento excessivo de granulação, alteração recente), e a simples troca de curativos não investiga nem trata a causa. Além disso, o curativo aberto não é a abordagem ideal nem para infecções, que geralmente exigem cobertura oclusiva ou semi-oclusiva para manter o ambiente úmido e controlar a contaminação. A conduta correta é a biópsia diagnóstica, não a manutenção passiva dos cuidados locais.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A remoção das bordas elevadas e o desbridamento superficial, seguidos de curativo a vácuo, são procedimentos que tratam a ferida como se fosse apenas uma úlcera crônica benigna. No entanto, a suspeita de degeneração maligna (úlcera de Marjolin) exige confirmação histológica ANTES de qualquer intervenção definitiva. Realizar desbridamento sem biópsia prévia pode remover tecido neoplásico sem diagnóstico, atrasando o tratamento oncológico adequado. O curativo a vácuo, inclusive, é contraindicado em feridas com suspeita de malignidade, pois pode estimular a proliferação tumoral.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A biópsia da ferida é a conduta correta e imediata. A história de queimadura há 10 anos com ferida que nunca cicatrizou, associada à alteração recente da aparência (crescimento excessivo de tecido de granulação, bordas elevadas e endurecidas, superfície irregular, dor), configura o quadro clássico de úlcera de Marjolin — degeneração maligna de ferida crônica, mais comumente um carcinoma espinocelular. A biópsia, preferencialmente incisional e incluindo a borda da lesão, é o exame que confirma o diagnóstico e orienta o tratamento definitivo (ressecção cirúrgica ampla).
Alternativa D — ❌ Incorreta
Classificar a lesão como infecção aguda e iniciar antibioticoterapia de amplo espectro é um erro diagnóstico. Embora haja drenagem purulenta e odor fétido (sinais de infecção secundária), o quadro dominante é a alteração crônica da ferida com características suspeitas de malignidade. A antibioticoterapia pode tratar a infecção concomitante, mas não resolve a lesão de base e atrasa o diagnóstico do carcinoma. A conduta correta é a biópsia, que deve ser realizada mesmo na presença de infecção, pois a inflamação crônica é justamente um dos fatores de risco para a degeneração maligna.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirmar que a ferida crônica não oferece risco por perdurar há 10 anos é um equívoco grave e perigoso. O tempo de evolução é justamente um fator de risco: quanto mais antiga a ferida, maior a chance de degeneração maligna. A úlcera de Marjolin surge tipicamente após 10 a 30 anos de evolução de uma cicatriz ou ferida crônica. A alteração recente da aparência (crescimento de granulação, bordas elevadas) é o sinal de alerta que exige investigação imediata, e não pode ser ignorada sob a justificativa de que a lesão é antiga.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre tratar a ferida como infecção ou como lesão benigna, quando o verdadeiro diagnóstico é a degeneração maligna. O candidato que se fixa na drenagem purulenta e no odor fétido (alternativa D) ou na cronicidade (alternativa E) perde o sinal de alarme mais importante: a alteração recente da aparência em uma ferida de longa data. Lembre-se: toda ferida crônica que muda de aspecto exige biópsia — esse é o gatilho que a banca quer que você acione.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de úlcera de Marjolin, memorize os sinais de alarme: bordas elevadas e endurecidas, crescimento acelerado, superfície irregular, sangramento fácil, dor e odor fétido. Na dúvida entre tratar a ferida ou biopsiar, a resposta quase sempre é a biópsia. E lembre-se: o carcinoma espinocelular é o tipo mais comum, e o tempo de latência típico é de 10 a 30 anos após a queimadura.