Adolescente, 14 anos de idade, apresentou quadro de cefaleia há 3 semanas, persistente, intensa e com piora progressiva, com náuseas pela manhã, associada à fotofobia e diplopia. Ela negou febre ou alteração do nível de consciência. Exame físico: IMC 32 kg/m2; bom estado geral, orientada, ativa, déficit na abdução do olho direito, papiledema bilateral ao exame de fundo de olho e sem sinais meníngeos.LCR: 2 células/mm3, proteinorraquia 15 mg/dl, glicorraquia 58 mg/dL, gram‑ausente, pressão de abertura 60 cmH2O. RM de crânio sem alterações.Com base nessa situação hipotética, assinale a alternativa que apresenta a hipótese diagnóstica e o tratamento adequado.
Amigrânia com aura; topiramato
Bmigrânia sem aura, propranolol
Ctrombose de seio cavernoso; enoxaparina
Dpseudotumor cerebral; acetozolamida
Epseudotumor cerebral; ácido valproico
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GabaritoD — pseudotumor cerebral; acetozolamida
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Pseudotumor cerebral (hipertensão intracraniana idiopática) na adolescência
Gabarito: letra D. O quadro clínico — cefaleia progressiva com náuseas matinais, papiledema bilateral, déficit de abdução do olho direito (paralisia do VI par), LCR com pressão de abertura elevada (60 cmH2O) e citologia/química normais, RM sem alterações — é clássico de pseudotumor cerebral (hipertensão intracraniana idiopática), e o tratamento de primeira linha é a acetazolamida, um inibidor da anidrase carbônica que reduz a produção de líquor. A alternativa D é a única que associa corretamente o diagnóstico e a terapêutica.
O pseudotumor cerebral, também chamado de hipertensão intracraniana idiopática (HII), é uma síndrome caracterizada por pressão intracraniana elevada sem evidência de lesão focal, hidrocefalia ou edema cerebral. O nome "pseudotumor" reflete exatamente isso: o quadro mimetiza um tumor cerebral (cefaleia, papiledema, paralisia de nervo craniano), mas a neuroimagem é normal. É mais frequente em mulheres jovens e obesas — e a paciente do caso, com 14 anos e IMC 32 kg/m², encaixa-se no perfil epidemiológico típico, embora na adolescência também ocorra.
O diagnóstico é essencialmente clínico-laboratorial. Os critérios incluem: (1) sinais e sintomas de hipertensão intracraniana (cefaleia, papiledema, déficits visuais); (2) exame neurológico normal, exceto por paralisia do VI par (que causa diplopia por falha na abdução do olho) e papiledema; (3) neuroimagem sem alterações; (4) LCR com composição normal (células, proteínas e glicose normais), mas com pressão de abertura elevada — classicamente acima de 25 cmH2O em crianças e 20 cmH2O em adultos. No caso, a pressão de 60 cmH2O é francamente elevada, enquanto a celularidade (2 células/mm³), a proteinorraquia (15 mg/dL) e a glicorraquia (58 mg/dL) são normais, afastando meningite ou outras causas inflamatórias/infecciosas.
O tratamento visa reduzir a pressão intracraniana e, principalmente, preservar a função visual. A acetazolamida é a medicação de primeira linha: inibe a enzima anidrase carbônica, diminuindo a produção de líquido cefalorraquidiano pelo plexo coroide. Além dela, medidas gerais como perda de peso (redução de cerca de 15% do peso corporal) são fundamentais, especialmente em pacientes obesos. Em casos refratários ou com perda visual progressiva, podem ser usados corticosteroides, furosemida, ou procedimentos como fenestração da bainha do nervo óptico e derivação liquórica.
A grande pegadinha desta questão está em diferenciar o pseudotumor cerebral das cefaleias primárias (migrânea) e de outras causas de cefaleia secundária. A migrânea, embora comum em adolescentes, não cursa com papiledema, paralisia de nervo craniano nem pressão liquórica elevada. A trombose de seio venoso cerebral pode causar hipertensão intracraniana, mas a RM sem alterações e a ausência de fatores de risco (como uso de anticoncepcionais, trombofilia) tornam essa hipótese menos provável — e, mesmo que fosse, o tratamento seria anticoagulação, não acetazolamida. A distinção entre acetazolamida e ácido valproico (ambos usados em neurologia) é outro ponto de confusão: o valproato é um anticonvulsivante, não tem papel no tratamento do pseudotumor cerebral.
Guarde o tripé que decide esta questão: papiledema + LCR com pressão elevada e composição normal + neuroimagem normal = pseudotumor cerebral → acetazolamida. É exatamente esse raciocínio que separa a alternativa correta das demais.
Critério
Pseudotumor cerebral (HII)
Migrânea (com ou sem aura)
Trombose de seio venoso
Papiledema
Presente (bilateral)
Ausente
Pode estar presente
Paralisia do VI par (diplopia)
Pode ocorrer
Ausente
Pode ocorrer
Pressão de abertura do LCR
Elevada (>25 cmH₂O)
Normal
Pode estar elevada
Composição do LCR
Normal
Normal
Normal ou alterada
Neuroimagem (RM)
Normal
Normal
Pode mostrar trombose
Tratamento de primeira linha
Acetazolamida
Profilático (topiramato/propranolol)
Anticoagulação (enoxaparina)
Pseudotumor cerebral (HII): Critérios diagnósticos (Papiledema bilateral, Paralisia do VI par (diplopia), LCR: pressão elevada, composição normal, Neuroimagem sem alterações); Perfil epidemiológico (Mulher jovem, Obesidade (IMC elevado)); Tratamento de 1ª linha (Acetazolamida (reduz produção de líquor), Perda de peso); Diagnósticos diferenciais (Migrânea (sem papiledema), Trombose de seio venoso (RM alterada))
Alternativa A — ❌ Incorreta
A migrânea com aura é uma cefaleia primária que não cursa com papiledema, paralisia de nervo craniano nem hipertensão liquórica. A aura, quando presente, é um sintoma neurológico focal reversível (visual, sensitivo ou de linguagem) que precede a dor, mas não explica o déficit de abdução do olho direito nem a pressão de abertura de 60 cmH2O. O topiramato é um profilático de migrânea, mas o diagnóstico está errado.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A migrânea sem aura também é uma cefaleia primária, sem os sinais de alarme presentes no caso (papiledema, diplopia por paralisia do VI par, LCR com pressão elevada). O propranolol é um betabloqueador usado na profilaxia da migrânea, mas não trata a hipertensão intracraniana. O diagnóstico de migrânea não se sustenta diante do papiledema bilateral e da pressão liquórica elevada.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A trombose de seio venoso cerebral pode causar hipertensão intracraniana e papiledema, mas a RM de crânio sem alterações e a ausência de fatores de risco (contraceptivos orais, trombofilia, desidratação, infecção) tornam essa hipótese menos provável. Além disso, a enoxaparina (anticoagulante) não é o tratamento de primeira linha para o quadro descrito, que é mais compatível com pseudotumor cerebral idiopático. A pressão de abertura elevada com LCR normal e neuroimagem normal aponta para HII, não para trombose venosa.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O diagnóstico é pseudotumor cerebral (hipertensão intracraniana idiopática): cefaleia progressiva com náuseas matinais, papiledema bilateral, paralisia do VI par (déficit de abdução do olho direito com diplopia), LCR com pressão de abertura elevada (60 cmH2O) e composição normal, e RM sem alterações. O tratamento de primeira linha é a acetazolamida, inibidor da anidrase carbônica que reduz a produção de líquor e controla a pressão intracraniana. A paciente obesa (IMC 32 kg/m²) também se beneficia de perda de peso.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O diagnóstico de pseudotumor cerebral está correto, mas o ácido valproico é um anticonvulsivante e estabilizador de humor, sem indicação no tratamento da hipertensão intracraniana idiopática. A medicação de primeira linha é a acetazolamida. A alternativa erra justamente na terapêutica, trocando o inibidor da anidrase carbônica por um fármaco de outra classe.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora duas confusões clássicas: (1) trocar o pseudotumor cerebral por migrânea, ignorando os sinais de alarme (papiledema, paralisia do VI par, pressão liquórica elevada); e (2) trocar a acetazolamida pelo ácido valproico, ambos fármacos neurológicos, mas com indicações completamente diferentes. Na prova, diante de cefaleia com papiledema e LCR com pressão elevada e composição normal, o diagnóstico é pseudotumor cerebral e o tratamento é acetazolamida — não caia na tentação de escolher um profilático de migrânea ou um anticonvulsivante.
PEGA ESSA DICA!
Para diferenciar as causas de cefaleia com papiledema, monte um fluxo mental: (1) neuroimagem com lesão → tumor, abscesso, hemorragia; (2) neuroimagem normal + LCR com pleocitose/proteinorraquia elevada → meningite/encefalite; (3) neuroimagem normal + LCR com pressão elevada e composição normal → pseudotumor cerebral (HII). A pressão de abertura é o dado que fecha o diagnóstico — e a acetazolamida é a resposta terapêutica.
Gabarito: letra D — pseudotumor cerebral; acetazolamida.