Questão de Medicina — Cardiologia e Alterações Vasculares — Quadrix 2024
Medicina›Cardiologia e Alterações Vasculares
Código
qg355344
Banca
Quadrix
Órgão
SES - SP
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Residente Médico - Especialidade: Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista
A nefropatia induzida por contraste (NIC) é uma complicação renal aguda que pode ocorrer após a administração de agentes de contraste iodados em procedimentos diagnósticos ou terapêuticos, como cateterismo cardíaco, angiografia ou tomografia computadorizada com contraste. Em relação à nefropatia induzida por contraste como complicação do cateterismo cardíaco, assinale a alternativa correta.
AO escore Mehran é utilizado exclusivamente para avaliar a função renal pós‑procedimento, e não leva em consideração fatores de risco clínicos ou procedimentais antes do cateterismo.
BO escore Mehran considera a presença de fatores como insuficiência renal preexistente, diabetes mellitus, volume de contraste utilizado e o uso de diuréticos, para estratificar o risco de nefropatia induzida por contraste.
CO escore Mehran é uma ferramenta útil apenas para pacientes com estenose aórtica grave, sendo inaplicável em outros contextos de cateterismo cardíaco.
DO escore Mehran recomenda que todos os pacientes de alto risco recebam grandes volumes de contraste, para melhorar a perfusão renal e prevenir a necrose tubular aguda.
EO escore Mehran avalia o risco de nefropatia induzida por contraste apenas em pacientes com insuficiência renal crônica terminal, pois são os únicos pacientes com risco significativo de desenvolvimento de NIC.
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GabaritoB — O escore Mehran considera a presença de fatores como insuficiência renal preexistente, diabetes mellitus, volume de contraste utilizado e o uso de diuréticos, para estratificar o risco de nefropatia induzida por contraste.
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Nefropatia induzida por contraste (NIC) e o escore de Mehran
Gabarito: letra B. O escore de Mehran é um modelo de estratificação de risco pré-procedimento que considera fatores como insuficiência renal preexistente, diabetes mellitus, volume de contraste e uso de diuréticos para estimar a probabilidade de nefropatia induzida por contraste (NIC) após cateterismo cardíaco. As demais alternativas distorcem a finalidade, a aplicabilidade e os componentes do escore, além de inverterem a conduta preventiva recomendada.
A nefropatia induzida por contraste (NIC) é uma forma de lesão renal aguda (LRA) que ocorre após a administração de contraste iodado, tipicamente em procedimentos como cateterismo cardíaco, angiografia e tomografia computadorizada. Fisiopatologicamente, o contraste causa vasoconstrição renal, hipóxia medular e toxicidade direta às células tubulares, resultando em aumento da creatinina sérica. O diagnóstico é definido por um aumento absoluto de 0,5 mg/dL ou relativo de 25% da creatinina sérica em relação ao valor basal, geralmente dentro de 24 a 48 horas após a exposição, com pico entre 3 e 7 dias. A incidência varia conforme os fatores de risco: pacientes diabéticos e com disfunção renal preexistente apresentam taxas entre 12% e 26%, enquanto pacientes sem esses fatores têm risco bem menor, em torno de 3,3%.
O escore de Mehran, descrito por Roxana Mehran e colaboradores em 2004, é uma ferramenta validada para estratificar o risco de NIC antes da realização do cateterismo cardíaco. Ele atribui pontos a oito variáveis: hipotensão, uso de balão intra-aórtico, insuficiência cardíaca congestiva, idade acima de 75 anos, anemia, diabetes mellitus, volume de contraste e função renal basal (estimada pela creatinina ou taxa de filtração glomerular). A soma dos pontos classifica o paciente em quatro categorias de risco: baixo (≤5 pontos), moderado (6–10), alto (11–15) e muito alto (≥16), com probabilidades crescentes de desenvolvimento de NIC e necessidade de diálise. É importante notar que o escore é aplicável a qualquer paciente submetido a cateterismo cardíaco, independentemente da presença de estenose aórtica ou de insuficiência renal crônica terminal, e que a conduta preventiva para pacientes de alto risco envolve a minimização do volume de contraste, não o seu aumento.
A prevenção da NIC baseia-se principalmente na hidratação adequada com solução salina isotônica ou bicarbonato de sódio, na suspensão de medicamentos nefrotóxicos (como AINEs e diuréticos, quando possível) e na escolha de contraste de baixa osmolaridade ou iso-osmolar. A utilização de grandes volumes de contraste em pacientes de alto risco é contraindicada, pois aumenta diretamente o risco de necrose tubular aguda. O reconhecimento dos fatores de risco e a aplicação do escore de Mehran permitem ao cardiologista intervencionista planejar estratégias preventivas individualizadas, reduzindo a morbimortalidade associada à NIC.
A pegadinha central desta questão é a inversão da finalidade do escore de Mehran: ele não avalia a função renal pós-procedimento, mas sim o risco pré-procedimento. Além disso, a banca explora a confusão entre os fatores de risco que compõem o escore e a conduta preventiva correta, sugerindo que pacientes de alto risco deveriam receber mais contraste, quando o oposto é verdadeiro. Guarde a essência: o escore de Mehran é uma ferramenta de estratificação de risco pré-procedimento, baseada em fatores clínicos e procedimentais, que orienta a prevenção da NIC — e é exatamente esse conceito que separa a alternativa correta das incorretas.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que o escore Mehran é utilizado exclusivamente para avaliar a função renal pós-procedimento e não considera fatores de risco clínicos ou procedimentais. Isso é duplamente errado: o escore é aplicado antes do procedimento para estratificar o risco de NIC, e justamente considera fatores clínicos (idade, diabetes, insuficiência cardíaca, anemia, hipotensão) e procedimentais (volume de contraste, uso de balão intra-aórtico). A avaliação da função renal pós-procedimento é feita pela dosagem seriada de creatinina, não pelo escore de Mehran.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa descreve corretamente o escore de Mehran: ele considera fatores como insuficiência renal preexistente, diabetes mellitus, volume de contraste utilizado e uso de diuréticos para estratificar o risco de NIC. Esses são, de fato, componentes do escore, que atribui pontos a cada variável e classifica o paciente em categorias de risco (baixo, moderado, alto e muito alto). A função renal basal é avaliada pela creatinina sérica ou pela taxa de filtração glomerular estimada, e o diabetes mellitus e o volume de contraste são fatores de risco bem estabelecidos para o desenvolvimento de NIC.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Afirma que o escore Mehran é útil apenas para pacientes com estenose aórtica grave, sendo inaplicável em outros contextos de cateterismo cardíaco. Não há qualquer restrição desse tipo: o escore foi desenvolvido e validado para a população geral submetida a cateterismo cardíaco, independentemente da presença de valvopatias. A estenose aórtica não é um fator de risco incluído no escore, e a ferramenta é amplamente utilizada em pacientes com doença arterial coronariana, insuficiência cardíaca e outras indicações de cateterismo.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Recomenda que pacientes de alto risco recebam grandes volumes de contraste para melhorar a perfusão renal e prevenir a necrose tubular aguda. Isso é um grave erro conceitual: o volume de contraste é um dos principais fatores de risco para NIC, e a conduta correta em pacientes de alto risco é minimizar o volume de contraste utilizado, não aumentá-lo. A prevenção da NIC baseia-se em hidratação adequada, suspensão de nefrotóxicos e uso de contraste de baixa osmolaridade, nunca no aumento da dose de contraste.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que o escore Mehran avalia o risco de NIC apenas em pacientes com insuficiência renal crônica terminal, pois seriam os únicos com risco significativo. Isso é falso: embora a disfunção renal preexistente seja um fator de risco importante, o escore é aplicável a todos os pacientes submetidos a cateterismo cardíaco, incluindo aqueles com função renal normal, que também podem desenvolver NIC (embora com menor incidência). A ferramenta foi validada em uma ampla população e não se restringe a pacientes com doença renal terminal.
NÃO CAIA NESSA!
A banca inverte a finalidade do escore de Mehran (pré vs. pós-procedimento) e sugere que pacientes de alto risco devem receber mais contraste, quando a conduta correta é exatamente o oposto. Fique atento: o escore é uma ferramenta de estratificação de risco pré-procedimento, e a prevenção da NIC envolve minimizar o volume de contraste, não aumentá-lo. Com treino, você identifica essas inversões rapidamente.